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Setembro

Fonte: Autoria de Fernando Lemos, propriedade do Centro de Arte Moderna da fundação Calouste Gulbenkian.

José Augusto Rodrigues França (1922-2021) foi historiador, escritor, professor, sociólogo e pioneiro da História da Arte em Portugal, a par de cargos e funções que exerceu, todos eles relacionados com a História e a Arte, como é o caso da Comissão de História do Conselho Consultivo das Ciências Humanas e Sociais do INIC, à qual pertenceu.

Nascido em Tomar, mas criado em Lisboa, estudou no Liceu Gil Vicente, na Graça, e na Faculdade de Letras, da Universidade de Lisboa, mas foi em França que completou os estudos superiores. Diplomou-se em Sociologia da Arte, na École Pratique des Hautes Études, em Paris. E na Universidade de Paris concluiu dois doutoramentos, um em História, em 1962, e outro em Letras e Ciências Humanas, em 1969.

Com muitas obras publicadas nas áreas da História, da Arte e da Sociologia, ao longo da sua vida dedicou-se ao estudo das artes plásticas em Portugal, mas também escreveu ficção.

Em Portugal foi professor na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) e na Universidade Nova de Lisboa. Em França deu aulas na Universidade de Paris.

Foi coautor de um dicionário de pintura universal publicado entre 1959 e 1973.

Na década de 1940/1950 teve grande intervenção na vida cultural portuguesa. Ligado desde sempre à Sociedade Nacional de Belas Artes, da qual veio a ser presidente, em 1946 começou a organizar, na SNBA e no cinema Tivoli, com a associação JUBA – Jardim Universitário Belas Artes – palestras, concertos e filmes comentados em textos de ensaio. Em 1956 apresentou na SNBA a exposição I salão dos artistas de hoje.

Participou no Grupo Surrealista de Lisboa de 1947 a 1949 ao lado de António Pedro, Fernando de Azevedo, Marcelino Vespeira, Fernando Lemos e outros, tendo chegado a expor pintura de sua autoria. Neste grupo começou a manifestar a sua posição futura de defesa do Surrealismo, como corrente determinante da arte do século XX, em oposição ao Neorrealismo.

Nas duas décadas seguintes dedicou-se à atividade editorial regular, com responsabilidade a solo, ou em coautoria, na publicação de revistas. Decorrente das deslocações frequentes a Madrid e da sua mudança para Paris, começou a escrever crítica de cinema e crítica de arte para jornais e revistas. Este trabalho de crítico manteve-se uma das suas atividades permanentes e até 1996 publicou centenas de artigos.

Em 1952 fundou, com Fernando Lemos, a Galeria de Março na qual, até 1954, apresentaram várias exposições. Uma delas foi o primeiro salão nacional consagrado à arte abstrata. Mais tarde, já depois do 25 de Abril, foi Comissário de exposições da Fundação Calouste Gulbenkian, da Sociedade Nacional de Belas Artes, do Palácio Nacional da Ajuda e do Musée du Petit Palais, Paris.

Na Fundação Calouste Gulbenkian, foi diretor da Colóquio Artes, revista de divulgação artística nacional e internacional, de 1971 a 1996, e dirigiu o Centro Cultural de Paris entre 1983 e 1989. Neste período promoveu a internacionalização da Arte e da Cultura Portuguesa, num trabalho articulado com instituições artísticas e académicas francesas, ali realizou muitos colóquios e exposições.

Quando aconteceu a revolução de 25 de Abril de 1974, desistiu da carreira de investigador do CNRC (Centre National de la Recherche Scientifique), que estava prestes a iniciar, para integrar o corpo docente da recém-criada Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e criar o mestrado em História da Arte.

Foi um professor exigente nas aulas e na orientação de dezenas de dissertações de mestrado e teses de doutoramento, a quem nunca faltou tempo para continuar a investigar e publicar sobre História da Arte. Foi historiador de grandes artistas portugueses: Rafael Bordalo Pinheiro, António Carneiro, Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa, Almada Negreiros, Amadeo de Souza Cardoso e Vieira da Silva, entre muitos outros.

Membro do Comité Internacional d’Histoire de l’Art e Presidente de Honra da Association Internationale des Critiques d’Art recebeu as seguintes condecorações: Comendador da Ordem do Rio Branco; Oficial da Ordem de Santiago da Espada; Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique; Medalha da Grã-Cruz de Instrução Pública; Medalha de Honra da Cidade de Lisboa; Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa; Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique; Medalha de Ouro da Cidade de Tomar 2014.

Doou parte do seu acervo à Biblioteca Nacional de Portugal, ao Museu Municipal de Tomar e à Fundação Calouste Gulbenkian. Ao Museu Municipal de Tomar doou mais de 200 obras de arte contemporânea portuguesa. São obras de desenho, escultura, fotografia e pintura, sobretudo surrealistas de 1932 até ao início do sec. XXI. À Gulbenkian entregou 3800 textos, escritos para diversas publicações periódicas, nacionais e estrangeiras, bem como monografias e catálogos de exposições.

Rosália Dias Lourenço

Webgrafia

Arquivo Fernando Roldão Dias Agudo (1980-1982). Comissão de História do Conselho Consultivo das Ciências Humanas e Sociais; Exposições de Arte do Conselho da Europa (PT/FCT/FRDA/001/13), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Fundação Calouste Gulbenkian (2021, setembro 20). José-Augusto França (1922 – 2021). Notícias

Raquel Henriques da Silva (s.d.). FRANÇA, José-Augusto Rodrigues (Tomar, 1922), in Dicionário de historiadores portugueses: Da Academia Real das Ciências ao final do Estado Novo.

Agosto

Sabia que o Técnico fez 111 anos em maio?

O Instituto Superior Técnico foi fundado em 1911, mas teve a sua origem antes, no Instituto Industrial de Lisboa que foi fundado por Decreto de 1852 e, em 1869, por fusão com a Escola de Comércio, passou a ser o Instituto Industrial e Comercial de Lisboa (IICL).

Em 1886 foi decretado um plano de organização do Ensino Industrial e Comercial, que estabelecia 3 graus para estes ensinos, o elementar, o preparatório e o superior, e que em Lisboa só o IICL podia ministrar o grau superior. Mas só em 1898 foi restabelecido o ensino industrial superior. Esta reforma marcou o aparecimento de um curso de formação de engenheiros não militar, que se manteve até à abertura do Técnico.

Em 1911, Alfredo Bensaude foi convidado pelo ministro do Fomento, Manuel de Brito Camacho, a reformar o ensino industrial. Bensaude, que era à data professor de Mineralogia e Geologia do IICL e seu diretor, utilizou muitas das ideias que constavam do relatório, sobre a reforma do ensino português, que tinha publicado em 1892. Teve também em consideração as respostas dadas a inquéritos sobre o ensino superior por ex-alunos do IICL. A proposta de reforma que apresentou, de separação do ensino das engenharias do dos estudos económicos, foi aceite e assim o IICL foi dividido em duas escolas, o Instituto Superior Técnico e o Instituto Superior de Comércio (atual ISEG), por Decreto de 23 de maio de 1911.

Pedagogo com preocupações na componente prática da formação dos engenheiros portugueses, conhecia de experiência própria a importância da destreza manual, presente num ensino mais prático e menos teórico.

O projeto que tinha publicado em 1892 defendia a reforma do ensino técnico no IICL. Considerava que o atraso científico português se devia à falta da componente prática no ensino, pois ao estudante havia que despertar o interesse e a curiosidade para ter vontade de aprender, para compreender os ensinamentos e não se limitar apenas a fixar o que o professor transmitia.

Apesar de criticado pelos seus pares, e ignorado pelo regime monárquico, continuou a defender que havia deficiências pedagógicas no ensino, que prejudicavam a preparação dos alunos.

Com a instauração da República, as ideias de Bensaude vingaram finalmente e o ensino industrial e tecnológico passou a ser considerado prioritário para o desenvolvimento do país e para a formação de engenheiros qualificados.

Bensaude assumiu a direção do IICL, nos últimos meses deste instituto, na qual trabalhou com o intuito de o reformar e transformar na nova escola que veio a ser o Técnico. Para isso fez um questionário aos alunos sobre a qualidade do ensino do Curso Industrial Superior, cujas conclusões foram que era muito generalista e com falta de cadeiras de especialidade, imprescindíveis à preparação para a entrada no mercado de trabalho, ao que acrescia as falhas pedagógicas e de condições materiais.

O relatório preparatório da criação e definição do modelo de organização e gestão do IST apresentou o balanço dos últimos anos do IICL e estabeleceu as diretivas do que deveria vir a ser o IST – uma adaptação à escola de tipo alemão, idêntica à Escola Superior Técnica de Milão, com oito tópicos principais: As últimas reformas; Alunos; O ensino experimental e manual como é agora; Recrutamento do pessoal docente, como agora se faz; Normas para o recrutamento do pessoal auxiliar – assistentes e repetidores; Normas para o recrutamento do pessoal docente; O que deveria ser o instituto; Cadeiras – pessoal docente.

Como professor e diretor do Técnico, a partir de 1911, Bensaude renovou o modelo de funcionamento e os métodos de ensino da engenharia. A conceção prática do ensino, que ambicionava, era muito moderna. Defendia que a qualidade dos cursos de engenharia era determinada pela qualidade do corpo docente, das infraestruturas e equipamentos disponíveis para o ensino e dos modelos de aprendizagem, que deviam privilegiar as experiências em laboratório e o trabalho de “campo”.

Quando assumiu a direção do Técnico começou por contratar professores, nacionais e estrangeiros, de reconhecida competência. Os alunos do Técnico passaram a dominar o Desenho Técnico e a trabalhar ao lado de operários nas oficinas pedagógicas. Desde a criação do Técnico, que funcionou na Rua da Boavista até 1927, quando foi construído o campus universitário da Alameda, que Bensaude reclamou instalações condignas, com laboratórios e oficinas amplas. Até à atualidade o Campus da Alameda foi sendo ampliado e ainda foi construído o Taguspark em Oeiras.

O IST foi integrado na Universidade Técnica de Lisboa em 1930, quando esta foi criada, e passou a ser uma das suas catorze escolas. Em 2013 passou a fazer parte da Universidade de Lisboa.

Entre 1952 e 1972 a Comissão de Estudos de Energia Nuclear, criada no Instituto de Alta Cultura, promoveu a criação de 12 centros de estudos e investigação, com um total de 14 laboratórios. Três destes centros ficaram sediados no Técnico: o de Química, o de Geologia e Mineralogia e o de Eletrónica. Nestes centros foi feita a formação e qualificação científica do corpo docente, a par da realização de doutoramentos em universidades e centros de investigação no estrangeiro.

No Técnico, a adaptação definitiva ao Processo de Bolonha ficou concluída em 2006, com a equiparação dos graus académicos aos dos outros países europeus, contribuindo para o objetivo comum de desenvolver na Europa a economia mais competitiva do mundo baseada no conhecimento.

Rosália Dias Lourenço

Webgrafia

Comissão do Centenário do Instituto Superior Técnico (2010). A Génese do Técnico – Alfredo Bensaude. Althum.com.

Decreto de 25 de maio de 1911. Diário do Governo, série I (121)

Instituto Superior Técnico (2010). 1911 — A Fundação do IST· Momentos Históricos · 100 Anos do Instituto Superior Técnico

Instituto Superior Técnico (2013). Alfredo Bensaude: vida e obra (1856 – 1941)

Instituto Superior Técnico (2017). História

Julho

25 anos de apoio à investigação científica nacional

A Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) completa este ano 25 anos de atividade. Sucessora da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), é criada pelo Decreto-Lei n.º 188/97, de 28 de julho, e atualizada nas suas atribuições pelo Decreto Lei nº 55/2013, de 17 de abril, que afirma a sua missão como responsável pelo “desenvolvimento, o financiamento e a avaliação de instituições, redes, infraestruturas, equipamentos científicos, programas, projetos e recursos humanos em todos os domínios da ciência e da tecnologia, bem como o desenvolvimento da cooperação científica e tecnológica internacional, a coordenação das políticas públicas de ciência e tecnologia, e ainda o desenvolvimento dos meios nacionais de computação científica, promovendo a instalação e utilização de meios e serviços avançados e a sua articulação em rede.”

A FCT ocupa um lugar determinante na promoção e no avanço do conhecimento científico e tecnológico em Portugal, caraterizado pela procura dos mais elevados padrões internacionais de qualidade e competitividade em todos os domínios científicos e tecnológicos, estimulando a difusão do conhecimento científico e contribuindo para a sociedade e tecido produtivo.

Surge num contexto de mudanças no país, que têm origem no final dos anos 1980, e que se caracterizaram por alterações na política nacional, em particular com a adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), o que viria a permitir o financiamento generalizado no país, com vista ao seu desenvolvimento económico. É nesta conjuntura que se envidaram esforços para uma política de ciência, no sentido de alargar o seu financiamento e gestão, intensificando o trabalho em rede com parceiros externos, surgindo assim, em 1988, a designada Lei sobre a Investigação Científica e o Desenvolvimento Tecnológico. Mas é nos anos 1990 que se materializam essas mudanças, nomeadamente em 1995, com a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia, uma recomendação antiga da OCDE. Neste contexto de mudança, reorganizam-se as instituições de ciência, extinguindo-se em 1997 a JNICT, cujas atribuições foram distribuídas por três organismos: a FCT, com funções de financiamento e avaliação de Ciência e Tecnologia; o Instituto de Cooperação Científica e Tecnológica Internacional (ICCTI); e, o Observatório das Ciências e Tecnologias (OCT), com funções de observação, inquirição e análise.

Nestes 25 anos houve uma evolução significativa no investimento e na produção científica em Portugal e a FCT foi o seu principal agente, nomeadamente no que diz respeito ao investimento em investigação em empresas, o aumento significativo de investigadores e a sua produção científica, traduzida em publicações indexadas ao Web of Science, assim como o próprio investimento do Estado ter tido uma evolução significativa ao longo destes anos. Não menos importante tem sido também o aumento do investimento em projetos específicos, que pela natureza da sua pertinência e atualidade, foram objeto de valorização, por exemplo, do investimento em investigação nos fogos florestais e na Covid-19.

A história da FCT confunde-se com a história da Ciência e Tecnologia e da própria organização da Ciência em Portugal, enquanto herdeira e detentora de um acervo documental, que inclui o seu próprio arquivo, como também o espólio das suas antecessoras, como é o caso da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica e outros organismos e acervos particulares.

Em 2011, a FCT criou o Arquivo de Ciência e Tecnologia (ACT), que inicia um projeto de tratamento arquivístico do património documental à guarda da FCT. Um acervo único que representa a atividade cultural e científica portuguesa desde os meados do século XX até à atualidade, e que continua em crescimento quer pela contínua atividade da FCT, quer pelas integrações que vão sendo feitas.

Uma parte significativa do arquivo da FCT caracteriza-se por processos de financiamento de projetos, bolsas, unidades de investigação e de equipamento científico. Do seu acervo, consta também documentação relativa à implementação de políticas científicas em Portugal, assim como a cooperação institucional no domínio da Ciência e Tecnologia, com vista à sua divulgação. A FCT tem desenvolvido várias iniciativas no sentido de garantir a preservação, organização e divulgação do seu arquivo histórico, valorizando o seu caracter singular e único, no que ao conhecimento da história e organização e administração da Ciência, em Portugal, diz respeito, contribuindo para a promoção da investigação em História da Ciência.

Suzana Oliveira

Webgrafia

Arquivo de Ciência e Tecnologia (2014, 0utubro). Registo de autoridade arquivística da FCT.

Arquivo de Ciência e Tecnologia (2018, junho). Arquivo da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Arquivo de Ciência e Tecnologia (2014, 0utubro). Política e organização da ciência.

Arquivo da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. (PT/FCT/FCT), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Fundação para a Ciência e a Tecnologia (2022, janeiro 14). 25 anos da FCT na Ciência: oportunidades e desafios [Vídeo]. Youtube.

Junho

Sabia que só em 1986 foi anunciado que o Orçamento de Estado passaria a incluir um orçamento de Ciência e Tecnologia?

Passado o interregno de 1910 a 1926, durante o qual se considerou que a Ciência acabaria com o isolamento de Portugal, só em 1967, com a criação da JNICT, foi iniciada uma política de planeamento, coordenação e fomento da investigação científica e tecnológica.

A formação avançada, no estrangeiro, a partir dos finais dos anos sessenta, foi apoiada pelo Instituto de Alta Cultura, a Junta de Energia Nuclear e a Fundação Calouste Gulbenkian. Durante a década seguinte, Portugal participou no programa de cooperação internacional Ciência para a Estabilidade. Gerido pela INVOTAN, comissão permanente criada na JNICT, em 1970, para apoio às atividades científicas nacionais realizadas no âmbito da Nato, este programa privilegiou o desenvolvimento económico a partir da ligação entre universidades e empresas.

A formação dos nossos investigadores possibilitou o desenvolvimento de um grande conjunto de iniciativas e projetos de investigação, que nos anos 80 foram desenvolvidos nas universidades com o patrocínio do Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC) e da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), a par de outros ministérios e empresas.

A construção de uma política de Ciência para o país, de maior abertura ao exterior, ficou expressa na Constituição de 1976 e revelou a mudança de entendimento do que devia ser a relação entre a Ciência e o Estado. A referência à Ciência, e às políticas para a Ciência, evidenciava a vontade de que esta passasse a ter um papel diferente na sociedade portuguesa, mas tal só aconteceu passados 10 anos com a adesão de Portugal à CEE. Foi o impulso dos fundos comunitários que finalmente concretizou o que há muito se preconizava.

Em 1986 Portugal ainda apresentava um nível baixo de recursos financeiros e humanos para as atividades de Investigação científica e Desenvolvimento tecnológico. Apesar de, na década de 1976 a 1986, as despesas terem duplicado continuávamos muito abaixo da média europeia. A maior parte dos esforços para desenvolvimento de atividades científicas e tecnológicas tinham início no setor público, com fundos públicos, mas este financiamento não tinha representação expressa da despesa pública com Ciência e Tecnologia nos orçamentos de Estado.

Entretanto tinha sido solicitado à OCDE, em 1981, um exame à política científica e tecnológica nacional. O relatório final de síntese, concluído em 1984, apresentou conclusões sobre carências e debilidades do sistema científico e tecnológico nacional e propostas de aperfeiçoamento do sistema para fortalecer o desenvolvimento científico e tecnológico.

Em resultado destas conclusões foi criada em 1985, no X Governo Constitucional, a Secretaria de Estado da Investigação Científica, no Ministério do Planeamento e da Administração do Território, e em 1986 tomada a decisão de o Orçamento de Estado passar a incluir um orçamento de Ciência e Tecnologia.

Este orçamento, no qual a totalidade das rubricas orçamentais, destinadas ao financiamento público de investigação e desenvolvimento, estariam inscritas por organismos que financiassem ou executassem atividades de investigação e desenvolvimento, teria como finalidade o planeamento, programação e coordenação do financiamento para Investigação e Desenvolvimento, com base numa política nacional para a Ciência e a Tecnologia.

Já considerada, pela OCDE, lacuna grave a inexistência de um orçamento do sistema científico nacional, com o alargamento da participação na cooperação científica e tecnológica europeia, resultante da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, o sistema passou a ser também financiado pelos fundos europeus, através dos fundos estruturais e da participação em programas de investigação sob contrato. Por isso, foi necessário aproximar a legislação portuguesa à dos seus congéneres europeus para que fosse possível a necessária prestação de contas, no âmbito dos programas comunitários de Ciência e Tecnologia.

Para definição da elaboração de um orçamento de ciência e tecnologia, foi nomeado pelo Despacho Conjunto A-100/86-X, de 22 de Maio de 1986, dos Ministros das Finanças e do Planeamento e da Administração do Território, um grupo de trabalho constituído pelo vice-presidente da JNICT, pelo diretor geral da Contabilidade Pública, pelo diretor geral do Departamento Central de Planeamento, pelo presidente do INIC, pelo diretor do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, pelo presidente do Instituto Nacional de Investigação Agrária e por um assessor do Secretário de Estado da Investigação Científica. Este grupo apresentou um relatório com recomendações, na sequência do qual a Resolução do Conselho de Ministros n.º 4/87 veio instituir o orçamento de ciência e tecnologia.

A regulamentação do procedimento e a calendarização a observar na preparação anual do orçamento de Ciência e Tecnologia, em articulação com a elaboração do Orçamento de Estado, foi estipulada na Portaria 72/89 de 2 de fevereiro.

Ficou incumbido o ministro responsável pela coordenação da investigação científica de preparar e coordenar a proposta de dotação global, e a sua distribuição, para apreciação em Conselho de Ministros, após recolha das propostas apresentadas pelas entidades com responsabilidade no financiamento. Cabia à JNICT, em colaboração com a Direção-geral da Contabilidade Pública e com o Departamento Central de Planeamento, fazer este trabalho.

Mas durante estes três anos a Ciência não parou. A partir de 1986 foram aumentadas as verbas destinadas ao Sistema Científico e Tecnológico, nomeadamente o valor atribuído à JNICT para o financiamento público de projetos de investigação e programas nacionais coordenados. Tal reforço de verbas permitiu que em 1987 fosse lançado o Programa Mobilizador de Ciência e Tecnologia, que apostou na formação avançada de centenas de jovens integrados em projetos de investigação, no estrangeiro, e financiou projetos de investigação e desenvolvimento e infraestruturas de investigação.

Entretanto cientistas e empresas tiveram colaboração técnica em várias áreas e contribuíram para importantes experiências científicas, com a adesão de Portugal ao CERN; a participação em projetos do programa EUREKA e em redes científicas; a cooperação no âmbito da NATO; a cooperação bilateral com os EUA; a cooperação científica e tecnológica com os PALOP, Brasil, América Latina e Oriente.

Poderá consultar mais informação no Arquivo da JNICT e também na documentação disponibilizada no Arquivo José Mariano Gago relativa ao Planeamento orçamental.

Rosália Dias Lourenço

Bibliografia e Webgrafia

Arquivo da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. (PT/FCT/JNICT), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Lei nº 91/88, de 13 agosto. Diário da República. Série I(187).

Medeiros, Paula (2018). Políticas públicas e narrativas sobre a ciência: perspetivas sobre o papel da ciência na transformação das sociedades. [Tese de Doutoramento em Sociologia, Faculdade de Letras da Universidade do Porto]. Repositório da Universidade do Porto.

Planeamento orçamental. (PT/FCT/MG/006/0001), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Portaria nº 72/89, de 2 de fevereiro. Diário da República, Série I(28).

Projeto de Lei nº 90/IV, de 10 de Janeiro de 1986.Diário da Assembleia da Républica. Série I(60).

Resolução do Conselho de Ministros nº 4/87, de 28 de Janeiro. Diário da República, Série I(23).

Maio

Sabia que durante o Estado Novo existiu um instituto orientado para a política científica e divulgação da língua e cultura portuguesas?

O Instituto para a Alta Cultura (IAC) foi o instituto que durante o Estado Novo foi responsável pela política científica e divulgação da língua e cultura portuguesas no estrangeiro. Foi criado em maio de 1936, como sendo a “7ª Secção” do Regimento da Junta Nacional de Educação dedicada à alta cultura. Criado no âmbito de uma transformação do Ministério da Educação Nacional, este novo instituto era dotado de personalidade jurídica e definiu as linhas orientadoras para uma política de ciência e divulgação da língua e cultura portuguesas, que teve as suas raízes na I República.

Maria Fernanda Rollo, segundo o JL – Jornal de Letras, a propósito do lançamento do livro Ciência, cultura e língua em Portugal no século XX. Da Junta de Educação Nacional ao Instituto Camões, publicado em 2012 pela Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM), refere que as raízes do pensamento onde foram desenhadas as primeiras linhas para o desenvolvimento e incentivo à investigação científica em Portugal, tiveram origem num conjunto de pessoas como João Camoesas, Augusto Celestino da Costa, António Sérgio e outras personalidades da época, «que ainda antes de 1929, ano de criação da Junta de Educação Nacional (JEN), queriam encontrar meios de estimular e fomentar a produção científica em Portugal, combinando-a com a cultura, sempre com grande preocupação no quadro internacional». Acrescenta ainda que «a grande novidade da Junta de Educação Nacional, é que pela primeira vez, há em Portugal uma entidade que se preocupa e que leva a cabo uma proposta de organização do sistema científico nacional». O projeto viria a materializar-se com a criação do Instituto para a Alta Cultura em 1936, combinando a investigação científica com a promoção da língua e cultura portuguesas, em particular no estrangeiro. «Paradoxalmente» à cultura conservadora da época, «é no Estado Novo que a política se efetiva traduzindo-se na atribuição ao longo dos anos, de milhares de bolsas e na criação de subsídios a inúmeros centros de investigação e Universidades», realça ainda que «tudo quanto foi gente de nomeada passou por lá» (pelo IAC) «mesmo aqueles que, evidentemente, têm um passado, uma vivência e uma afirmação oposicionista em relação à ditadura».

Dos inúmeros centros de investigação apoiados pelo IAC, destaca-se o Laboratório Nacional de Engenharia Civil e a Estação Agronómica Nacional.

Augusto Celestino da Costa (1884 – 1956), que esteve à frente da JEN e do IAC entre 1934 e 1942, e viria a ter divergências com o regime, foi o primeiro presidente do Instituto para a Alta Cultura (1936 – 1942) a que dedicou uma parte do seu percurso de investigador à administração da ciência em Portugal. Existe um conjunto documental, do qual se destaca um Relatório, provavelmente redigido entre 1939 e 1940, onde se propõe a constituição de uma política publica de promoção e financiamento da atividade científica em Portugal e que pode ser consultado no Arquivo de Ciência e Tecnologia.

Em 1952, o Instituto é reorganizado, tornando-se autónomo da Junta Nacional de Educação e estando diretamente sob a tutela do Ministério da Educação Nacional, e passando a designar-se de Instituto de Alta Cultura (IAC), mantendo as duas frentes de atuação, de um lado a investigação científica e de outro as relações culturais que visavam promover e divulgar a língua e a cultura portuguesas.

Em 1964, dá-se uma nova reestruturação do IAC, que pretende reforçar a sua autonomia no cumprimento da sua “tripla função”, ou seja, fomentar a Investigação Científica, fomento da cultura no plano interno e fomento do intercâmbio cultural no plano externo.

Em 1976, o Instituto de Alta Cultura deixa de ter funções na área da Investigação Científica, passando essa administração a ser feita pelo Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC), assim como na área da difusão da língua e cultura portuguesas, tendo sido transformado no Instituto de Cultura Portuguesa, antecessor do Instituto Camões.

Suzana Oliveira

Bibliografia e Webgrafia

Arquivo Augusto Celestino da Costa (1995-1956). (PT/FCT/ACC/001/5), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Arquivo do Instituto nacional de Investigação Científica (1930 – 2015). (PT/FCT/INIC), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Camões Instituto da Cooperação e da Língua (S.d.). História do Instituto Camões lançada a 5 de junho. Notícias

Decreto lei nº 26:611/1936, de 19 de maio. Diário da República, Serie I (116)

Decreto Lei n.º 38:680/1952, de 17 de março. Diário da República, Serie I (61)

Jornal de Letras (2012, maio 30). Da Junta de Educação Nacional ao Camões. Jornal de Letras. 178, 2-3.

Projeto de Regulamento para Instituto de Alta Cultura na sub secção de Investigação Científica (1940?). (PT/FCT/ACC/002/47), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Relatórios [Instituto para a Alta Cultura] e estatuto de investigação científica (1939). Relatório Augusto Celestino da Costa. (PT/FCT/ACC/001/5), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Abril

Sabia que José Pinto Peixoto foi um dos primeiros professores da moderna meteorologia?

Este cientista português, nascido em 1922, licenciado em Ciências Matemáticas pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa em 1944, estagiou no Instituto Geofísico Infante D. Luís antes de começar a trabalhar no Serviço Meteorológico, quando este foi criado em 1946.

Dedicou-se, a partir daí, ao estudo da Física e da Meteorologia e em 1952 concluiu a licenciatura em Ciências Geofísicas. Passou de imediato a assistente da Faculdade de Ciências e, com responsabilidades no ensino da Meteorologia, apostou na renovação do estilo de ensino praticado até então. Acumulando com o trabalho académico o do Serviço Meteorológico, no qual se dedicou à formação de quadros, foi responsável pela Divisão de Estudos até 1974.

Em 1954 foi-lhe atribuída, pela Academia das Ciências, uma bolsa de estudo para investigação nos Estados Unidos da América. Integrado na equipa de Victor Starr, no MIT (Massachussets Institut of Technology), dedicou-se durante dois anos ao estudo do ciclo da água à escala global e criou uma metodologia de análise baseada em dados de sondagens atmosféricas, cujo resultado foram os primeiros mapas globais do transporte de água pela circulação atmosférica.

Foi com base neste trabalho, do qual resultaram os primeiros estudos sistemáticos da circulação global da atmosfera, que contribuiu para a Teoria da Circulação Global da Atmosfera e se dedicou à investigação com que veio a defender a sua tese de doutoramento. Este foi também o ponto de partida para a colaboração com a ciência americana que manteve ao longo da sua vida.

Em 1959 apresentou a tese de doutoramento e foi reconhecido pelo seu trabalho e conclusões ao ser convidado a escrever artigos para as revistas Scientific American e La Recherche.

Nas décadas seguintes trabalhou em estreita colaboração com Abraham H. Oort no Geophysical Fluid Dynamics Laboratory, em Princeton, sobre a circulação atmosférica e a variabilidade interanual do clima. É com base nestas investigações dos anos 60 e 70 que foram desenvolvidos os atuais modelos de circulação global da atmosfera, principais ferramentas de previsão do tempo e de investigação da dinâmica da atmosfera e do clima.

Nos EUA, a par do trabalho de investigação, também lecionou cursos de pós-graduação em Meteorologia. Em Lisboa, a par do ensino da Meteorologia, dedicou-se ao ensino da Termodinâmica, da Hidrologia e da Oceanografia Física.

Além de investigador e professor exerceu vários cargos, dos quais destacamos: entre 1969 e 1973 vice-reitor da Universidade de Lisboa; em 1970 diretor do Instituto Geofísico; em 1975 criou, em parceria com Luís Mendes Victor, o Centro de Geofísica; entre 1980 e 1996 assumiu a presidência da Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa e, em anos alternados, a presidência da Academia.

Em simultâneo manteve a carreira docente em várias escolas, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o Instituto Geofísico, a Academia das Ciências, a Universidade da Beira Interior, a Universidade Nova, a Universidade do Algarve; e os projetos de investigação nos EUA.

Em 1984 publicou na Reviews of Modern Physics o artigo “Physics of Climate”, trabalho sobre os resultados obtidos na análise da circulação global da atmosfera e a sua atividade docente em Portugal e nos EUA. Este artigo serviu de base ao livro Physics of Climate, obra de referência em Climatologia e Meteorologia, publicado pelo American Institute of Physics.

À data da sua morte, em 1996, tinha publicado inúmeros artigos em revistas internacionais de referência.

No acervo do ACT há documentação sobre os seus projetos de investigação com bolsas de estudo atribuídas pela Fulbright e pela JNICT; a sua atividade de delegado português a reuniões da OCDE e da NATO; trabalhos de investigação científica dos quais foi orientador; trabalho que desenvolveu na Comissão Diretiva do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa e enquanto vice-presidente da Comissão Permanente de Estudos de Espaço Exterior; e sobre a atribuição do Prémio da Boa Esperança, do qual foi  vencedor em 1992.

Rosália Lourenço

Webgrafia

Associação Casa de Cultura Professor José Pinto Peixoto (2022, março 26). Professor José Pinto Peixoto . Recuperado em março 26, 2022.

Tirapicos, L. (2022, março 26.). José Pinto Peixoto (1922-1996). Centro Virtual Camões, Ciência em Portugal: Personagens e episódios. Recuperado em março 26, 2022.

Leite, MS. (2008, dezembro 18). Elogio académico do Professor Doutor José Pinto Peixoto. Associação Casa de Cultura Professor José Pinto Peixoto.

Março

Sabe quem foi Maria José Moura?

No mês em que comemoraria o seu aniversário, o ACT homenageia Maria José Sabino Moura conhecida por muitos como a ‘mãe’ da Rede de Bibliotecas Públicas. Maria José Moura nasceu em Évora em 1937, mas o seu espírito inquieto levou-a, ao longo da sua vida, muito além das fronteiras de Portugal.

Desde cedo que se dedicou à causa das bibliotecas com uma modernidade e visão de futuro pouco comum para a época. Em 1972, numa entrevista à RTP 1, Maria José Moura afirmava que “a biblioteca nos dias de hoje desempenha um papel muito diferente do que tradicionalmente se concebia que pudesse ter. Hoje não é, de facto, a biblioteca um depósito de livros, não é um edifício, não é uma coleção de espécies é sim um serviço público”. (Arquivos RTP, 1972).

Quem a conhecia bem reconheci-lhe as qualidades de amiga: “Assumia as minhas lutas, lutando ela própria contra os moinhos de vento do meu destino, como se tivesse sido responsável por eles, defendendo-me de tudo aquilo que achava ser injusto e oferecendo-me, até ao fim, uma imensa e abnegada proteção e amizade.” (Roque, 2018).

Licenciada em Ciências Históricas e Filosóficas e com o Curso de Bibliotecário Arquivista, pela Universidade de Coimbra, foi também Diretora dos Serviços de Documentação da Universidade de Lisboa até 1987.

Foi diretora do Serviço de Bibliotecas do Instituto Português do Livro e da Biblioteca tendo elaborado e dirigido o Programa da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas até 2006. Este programa foi de extrema importância numa altura em que Portugal tinha muitas carências de oferta cultural à população.

O trabalho que despendeu com o projeto da rede de leitura pública valeu-lhe, em 1998, o Prémio Internacional do Livro, por proposta da IFLA.

Na sua longa e sempre ativa vida lutou para “criar profissionais competentes, empenhados e socialmente comprometidos”. (Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação – BAD, 2021).

A criação da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, em 1973, da qual Maria José Moura foi umas das Fundadoras e Presidente, foi um marco importante na sua luta pela dignificação da profissão. Ao longo dos anos assumiu outros cargos na Associação como Presidente da Mesa da Assembleia-Geral e, depois de deixar a vida profissional, tornou-se Associada Honorária.

No final dos anos 80 torna-se Coordenadora Geral do Projeto do Inventário do Património Cultural Móvel e, em simultâneo, foi Delegada Nacional do Programa Geral de Informação da UNESCO, Vice‐Presidente do Conselho Superior de Bibliotecas, responsável pelo National Focal Point – Telematic for Libraries e membro do Information Society Forum (Bruxelas).

Em 1987 foi a investigadora principal de um projeto financiado no âmbito do Programa Mobilizador de Ciência e Tecnologia, proposto e executado pela APBAD, denominado “Estudo Comparativo da Situação das Estruturas e das Políticas de Informação em Portugal e nos outros Países da CEE” (Arquivo da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, 1987).

O reconhecimento do seu papel no desenvolvimento cultural e social do país veio pelas mãos do Presidente Mário Soares, em 1994, que lhe atribuiu a condecoração da Ordem do Mérito.

Também em 1994 é-lhe atribuída uma bolsa Fulbright integrada no American Cultural Council Fellowship Program. Bolsa na categoria de especialista, na área de Biblioteca, com duração de 10 dias, cujo projeto visava visitar bibliotecas públicas americanas. (Arquivo da Comissão Fulbright, 1994).

Foi docente no Curso de Especialização em Ciências Documentais das Universidades de Lisboa e Coimbra e em Cursos Técnicos Profissionais da BAD, presidiu e integrou a comissão organizadora de diversas conferências nacionais e internacionais do sector e foi convidada a apresentar comunicações em muitas outras.

Integrou o Conselho Nacional da Cultura – Secção do Livro e das Bibliotecas,
fez parte da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura e pertenceu aos Comités Permanentes da IFLA Public Libraries e Library Buildings and Equipment.

O reconhecimento do seu trabalho materializou-se na criação, em 2014, do Prémio Boas Práticas em Bibliotecas Públicas Municipais instituído pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e, em 2021, é criado o Prémio BAD Maria José Moura instituído pela Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação.

Maria José Moura deixou-nos aos 81 anos no dia 2 de novembro de 2018.

 

Paula Seguro de Carvalho

Referências Bibliográficas

Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação – BAD (2021, dezembro 07). Sessão Comemorativa do 48.º Aniversário da BAD – 2 parte [Vídeo]. Youtube.

Arquivo da Comissão Cultural Luso-Americana – Comissão Fulbright. Maria José Sabino de Moura. (PT/FULB/FULB/023/0015/399), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Arquivo da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. (PT/FCT/JNICT/DSPP-DGP/001/0646), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Roque, MI (2018, novembro 02). Maria José Moura (1937-2018). A.Muse.Arte

Arquivos RTP (1972, novembro 30). Um Dia Com … Maria José Moura. [Episódio de programa de televisão]. In Um Dia Com. Lisboa. RTP1

Fevereiro

O Ensino à Distância

O Ensino Superior modificou-se. O recurso ao Ensino à Distância (E@D) no decurso da pandemia, provocada pelo vírus SARS-CoV-2, ao impor longos períodos de confinamento e isolamento, generalizou um novo paradigma em domínios que vão do teletrabalho às reuniões em plataformas online, passando pelos mais variados eventos em linha – concertos, representações teatrais, conferências – até ao ensino e formação de crianças e adultos.

A publicação em 2019 do regime jurídico do ensino superior ministrado à distância, Decreto-Lei n.º 133/2019, antecipou aquilo que se veio revelar uma necessidade: o recurso ao ensino à distância durante a pandemia.

Para lá da controvérsia linguística sobre a correção no uso das formas «a distância» vs. «à distância» sabemos que este modelo implica uma estrutura desmaterializada, a ministração do ensino assíncrono, sem horário letivo, ou a utilização de recursos como a mesa digitalizadora, essenciais no ensino da matemática ou da lógica.

HISTÓRIA

Tudo começou na Open University fundada em 1869 em Camden Town, Londres, cujas bases assentavam na promoção da igualdade de oportunidades educativas e de justiça social.  A criação daquela instituição de ensino superior esteve associada ao Labour Party.

No Reino Unido coexistem dois organismos nos domínios da acreditação, regulação e normalização do ensino à distancia Open & Distance Learning Quality Council, fundado em 1969, e Quality Assurance Agency for Higher Education. No âmbito europeu esse papel é desempenhado pela European Association of Distance Teaching Universities (E@DTU).

Em Portugal, a criação da Universidade Aberta em 1988 e, posteriormente, a inclusão na legislação da modalidade de ensino à distância, Lei n.º 62/2007, que aprovou o Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES) veio conceder a importância devida ao ensino à distância.

Para além da oferta pedagógica, que contempla licenciaturas, mestrados e doutoramentos, aquela universidade dispõe de um canal, TVUAb, que difunde conferências, seminários, workshops, emissões na RTP, entre outros recursos educativos.

A criação do Laboratório de Educação à Distância e e-Learning (LE@D), vocacionado para a investigação daquela modalidade, veio conferir à Universidade Aberta uma dimensão internacional enquanto parceira de múltiplos projetos além-fronteiras. O LE@D constitui uma unidade de investigação financiada por fundos nacionais através da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), cuja missão radica na coordenação e na avaliação do e-learning no ensino superior.

LEGISLAÇÃO

A especificidade do ensino à distância foi considerada pela primeira vez na Lei n.º 62/2007. A publicação do DL n.º 133/2019, veio definir um quadro normativo para aquela modalidade e ao regrar cometeu à Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) a competência da acreditação para o Ensino à Distância.

O diploma considera dois vetores essenciais no ensino à distância: enquanto modelo alternativo para a qualificação superior, para além da idade de referência para a obtenção dessa qualificação, assim como possibilitador da aprendizagem ao longo da vida e da qualificação de adultos.

Considera o ensino superior à distância uma das formas de atingir as zonas de influência da lusofonia e uma das vias para a concretização dos objetivos da internacionalização no âmbito da estratégia das relações externas e da cooperação de Portugal.

O diploma legal sublinha a redução de custos obtida, bem como a oportunidade que representa a superação das “limitações associadas à participação presencial no processo educativo” por quem resida fora dos centros urbanos.

A compatibilização do ensino com a vida profissional é viabilizada pela assincronia em que o percurso formativo é feito no ritmo que melhor se adequa a cada indivíduo. Ainda outro conceito que lhe é subjacente constitui a aprendizagem ao longo da vida e a inclusão de adultos.

Durante este período de pandemia foi notório um maior alcance dos eventos e formações à distância, não só quanto ao número, mas também uma maior abrangência geográfica. Citando Helena Rocha no artigo «Reinvenção do ensino a distância: a inovação ao ritmo de cada professor», publicado na revista Educação e Matemática, a “modalidade de E@D democratiza o ensino, ao alcançar um número elevado de pessoas localizadas em lugares remotos, ao possibilitar a formação académica para quem não dispõe de tempo e até mesmo de condições financeiras para realizar cursos presenciais”.

No âmbito da atual crise sanitária, a UNESCO apresentou 10 recomendações para o ensino à distância.

Atualmente anuncia-se a emergência de um novo modelo híbrido de universidade, que conjuga o ensino presencial com o ensino à distância e com uma oferta diversificada de cursos nesta modalidade.

Destacam-se alguns exemplos: a Universidade Católica oferece a Licenciatura em Filosofia, o Instituto Politécnico de Leiria a Licenciatura em Relações Humanas e Comunicação Organizacional ou o Mestrado em Engenharia Mecânica, a Universidade de Évora a Licenciatura em Matemática, a Universidade de Coimbra o Doutoramento em Estudos Clássicos e o Instituto de Higiene e Medicina Tropical o curso de Epidemiologia.

Neste contexto a universidade europeia criou a Universidade Europeia Online (UEO), a primeira faculdade privada em Portugal com ensino à distância, aprovada em julho de 2021. A Universidade Fernando Pessoa (UFP) criou uma unidade orgânica de apoio ao ensino presencial e de formação à distância, Centro de Formação à Distância (UFP-UV).

A oferta formativa de cursos superiores à distância traduz-se hoje numa nova oportunidade para quem trabalha ou para quem viva fora das grandes cidades. E muito devemos à tecnologia durante a pandemia.

No Arquivo de Ciência e Tecnologia da FCT, no fundo arquivístico do professor José Mariano Gago, encontra-se uma unidade de instalação sobre a Universidade Aberta, contemplando documentação produzida em 2008, relativa à revisão dos Estatutos da Universidade Aberta na sequência da publicação da Lei n.º 62/2007, que estabelece o RJIES, bem como estudos da autoria de António Moreira Teixeira sobre inovação no ensino à distância.

Rafaela Rodrigues

Bibliografia:

Rocha, H., Oitavem, I., Viseu, F., & Palha, S (2020). Reinvenção do ensino a distância: a inovação ao ritmo de cada professor. Educação e Matemática. 155, 16-20.

Teixeira, A. M. (2007). O E-Learning na Universidade Aberta. Caderno de Inovação & Tecnologia do Expresso.

Web Bibliografia:

Rocha, M. R. (2011, maio 09). Três razões para ser «à distância» (e não «a distância»). Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

Janeiro

O Nosso Calendário

O nosso calendário, tal como o conhecemos, nem sempre assim o foi. No seu início tinha apenas 10 meses e é, hoje, uma herança do mundo antigo.

O primeiro mês é janeiro e o seu nome tem origem na mitologia romana, na divindade Jano, do latim Ianus, o deus dos começos e mudanças, das transições, dos inícios e das escolhas, das trocas e das colheitas. Representado por uma figura masculina de dupla face, é símbolo do passado e do futuro.

“Mas que deus eu direi que tu és, bifronte Jano?/ Um nume igual a ti não teve a Grécia./ Também dize a razão por que só tu dos deuses/ podes ver o que está adiante e atrás.” (Nação, 2015).

“Jano tem poder sobre todos os começos, e é por isso que está certo que lhe atribuem os preliminares da conceção (…)” (Agostinho, 1991).

Janeiro nem sempre fez parte do calendário, e este é herança do mundo romano, sendo atribuído o primeiro calendário a Rómulo, o fundador de Roma (Urbe). Era um calendário lunar, de dez meses e iniciava em Martius (março). Tinha 304 dias e os primeiros quatro meses tinham nomes próprios dedicados a divindades da mitologia romana. Os outros seis meses tinham a designação de números ordinais consoante a ordem que tinham no calendário. Assim:

Martius – Marte – Março / Aprilis – Apolo – Abril / Maius – Júpiter – Maio / Junius – Juno – Junho / Quintilius / Sextilis / September / October / November / December.

É com Numa Pompílio (753 a.C. – 673 a.C.) que se efetuam as primeiras reformulações ao calendário. À semelhança do calendário grego, este passa de dez para doze meses e são, então, introduzidos dois meses, Ianuarius (janeiro), dedicado a Jano e Februarius (fevereiro) dedicado a Februo a quem os romanos ofereciam sacríficos por ser uma divindade associada à morte e purificação, passando assim o calendário a ter 355 dias.

“Numa não preteriu Jano ou as sombras avidas, / e, aos antigos dois meses antepôs.” (Nação, 2015).

Manteve-se o início do ano em março e o início dos meses a coincidir com as fases da Lua. Alterou a duração dos meses, cuja diferença de dias entre o calendário e o ano solar deu origem a que a cada dois anos se introduzisse um outro mês intercalar, de 23 a 24 dias, o Mercedonius. Os anos intercalavam entre 355, 377, 355 e 378 dias, havendo muitas discrepâncias na marcação das festividades e atos públicos, cujo poder estava nas mãos de sacerdotes dos cultos, chegando a desordem a ser de tal forma que o início do ano chegou a estar adiantado três meses.

A contagem dos dias também não era ordenada como hoje a conhecemos. Havia três dias no mês que eram assinalados pelas fases da lua e os restantes contados com referência a estes, ou seja, havia as Calendas (Calendae) que correspondia ao primeiro dia do mês e de onde deriva a palavra Calendário, Nonas (Nonae) era o dia do mês a que correspondia o quarto crescente lunar e por fim os Idos (Idus) que era o dia a que correspondia a lua cheia.

É com Júlio César (100 a.C. – 44 a. C.) que se dá a grande transformação do calendário romano. Com as orientações de Sosígenes de Alexandria, no ano de 46 a.C., introduzem-se as correções e acertos dos dias e meses, fixa-se então 365 dias por ano, mantiveram-se os doze meses e terminaram-se os meses intercalares. Acrescentou-se um dia a cada 4 anos, resultante da diferença de seis horas e é estabelecido que ocorre no sexto dia antes das calendas de março, passando a designar-se bissexto o ano em que a intercalação ocorre. O primeiro dia do ano, antes a 15 de março, é fixado no primeiro dia de janeiro, gerando alguma contestação.

“(…) Eia, diz porque o ano inicia no frio/ se seria melhor na primavera. /(…) “ No solstício é que está o novo e o velho sol / possuem mesmo início o ano e Febo” (Nação, 2015).

O ano 46 a.C. ou 708 de Roma ficou conhecido como o ano da confusão pois correspondeu ao ano de correção e acertos com os ciclos solares. Desta feita, ao Mercedonius de 23 dias foram acrescentados mais dois meses de 33 e 34 dias resultando num ano de 445 dias. É abolido o calendário anterior e passa a vigorar, em 45 a.C. ou 709 de Roma, o calendário Juliano.

Durante o consulado de Marco António e reconhecendo a importância das reformas no calendário romano é prestada homenagem a Júlio César perpetuando o seu nome no calendário: Quintilis passa a designar-se de Julius.

Na época de Augusto, também se realizam alguns acertos, havendo suspensão dos anos bissextos durante 12 anos de forma a corrigir a intercalação, de 3 em 3 anos efetuada até então, passando, após este tempo, a serem bissextos os anos de 4 em 4 anos.

Também em homenagem a Augusto, o seu nome ficaria perpetuado no calendário, atribuindo a Augusto o mês Sextilis que passa a ser designado de Augustus. Para que essa homenagem não fosse inferior à de César, também Augustus passaria a ter 31 dias e Februarius 28 ou 29, tal como acontece hoje.

É depois da introdução do calendário juliano, em época imperial, que se passa a usar a semana de sete dias (septimana ou sete manhãs). Trata-se de uma evolução na orientação do tempo com origem na relação do homem com a natureza sobretudo com os astros que era possível observar.

Dies Solis – Dia do Sol – Domingo (dies dominicus); Dies Lunae – Dia da Lua – segunda feira (secunda feria); Dies Martis – Dia de Marte – Terça feira (tertia feria); Dies Mercurii – Dia de Mercúrio – quarta feira (quarta feria); Dies Iovis – Dia de Júpiter – quinta feira (quinta feria); Dies Veneris – Dia de Vénus – sexta feira (sexta feria); Dies Saturni – Dia de Saturno – Sábado (Sabbath).

A semana romana é ainda hoje seguida por muitos idiomas, à exceção de Portugal, que utiliza a semana canónica, que foi adotada na sequência do segundo concílio de Braga em 572 d. C., por influência de S. Martinho de Dume e por oposição à semana romana, de origem pagã, considerada indigna desde o tempo de Constantino, no séc. IV.

Com o advento do Cristianismo pelo mundo romano, as comemorações da Páscoa passaram a ser um momento determinante no calendário, havendo no século IV, discrepâncias nas suas comemorações, em particular no Oriente e no Ocidente. O Concílio de Niceia, em 325 d.C., vem definir regras para a celebração da Páscoa no mundo Cristão de então. Definiu-se que Cristo ressuscitou a um Domingo, coincidente com a Lua Cheia (plenilúnio) da primavera, determinando desta forma, que a Páscoa seria universalmente celebrada no domingo seguinte ao plenilúnio que ocorresse no equinócio da primavera ou imediatamente a seguir.

Em Portugal usou-se a “era de César” ou Hispânica até 1422 que foi introduzida no século V na Península Ibérica para recordar a conquista no ano de 38 a.C.  A era de César foi abolida de Portugal por D. João I, em que o ano de 1460 (da era de César) passou a ser 1422 da era Cristã.

Os 365,25 dias do calendário juliano têm mais 11m e 49s que o ano solar e a acumulação desta diferença resulta em mais um dia a cada 128 anos e 3 a cada 400 anos. Esta acumulação, apesar de ter sido identificada em momentos anteriores, na Idade Média, só em 1576 e por determinação do Papa Gregório XIII, é que foi constituído um grupo que pudesse identificar e solucionar esta diferença. A reforma Gregoriana consistiu em desfazer um erro de 10 dias e a 24 de fevereiro de 1582 o Papa Gregório XIII emitiu a bula Inter Gravíssimas que estabelecia que o dia imediato à quinta-feira, 4 de outubro, fosse designado de sexta-feira, 15 de outubro. Ficou estabelecido que só seriam bissextos os anos que fossem divisíveis por 400 e suprimiam-se 3 dias a cada 400, o que justificou que 1600 fosse ano bissexto, mas 1700, 1800 e 1900 não o fossem. A medição do ano solar foi corrigida para 365d 5h 49m 12s.

O calendário Gregoriano não foi implementado em todos os países, longe disso. Os primeiros a adotá-lo foram Portugal, Espanha e Itália, logo em 1582, sendo que a maior parte dos países europeus, em particular os protestantes, só o viriam a adotar entre o séc. XVIII e XX.

De um modo geral, o calendário que hoje utilizamos é herança do mundo antigo e resultado das muitas reformulações e acertos das reformas de que foi objeto e é utilizado atualmente de forma a uniformizar as relações internacionais, quer jurídicas, económicas ou comerciais e outras.

Que venha janeiro de 2022, Que seja um Bom Ano.

Suzana Oliveira

Bibliografia:

Nasão, Públio Ovídio (2015). Fastos. Belo Horizonte: Autêntica Clássica.

Agostinho, Santo (1991). A cidade de Deus. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Vol.I

Web Bibliografia:

Lopes, Maria do Céu (2012). O calendário atual: História, algoritmos e observações, Millenium 43 (junho/ dezembro) p.p. 107 – 125.

Marques, Manuel Nunes (s.d.). Origem e evolução do nosso calendário. Consultado em dezembro de 2021.

Dezembro

Sabia que a revista Seara Nova está disponível em linha?

Num tempo em que a imprensa periódica, até ao aparecimento de outros órgãos de informação, formava a opinião pública dos poucos que lhe tinham acesso, a Seara Nova foi uma revista quinzenal de divulgação de doutrina política e de crítica.

Apesar das vicissitudes por que passou ao longo dos seus 100 anos de existência – o primeiro número foi publicado a 15 de outubro de 1921 – ainda hoje é publicada trimestralmente e o centenário da Seara Nova foi assinalado em 2021 com várias iniciativas.

Até à Revolução de 25 de abril foi uma revista de intervenção democrática que contou com muitos colaboradores de esquerda e, também, com outros que criticavam a mentalidade republicana da elite dominante na defesa da Liberdade.

A Seara Nova foi criada por um grupo de intelectuais que criticava a instabilidade política do regime republicano – Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Faria de Vasconcelos, Ferreira de Macedo, Francisco António Correia, Jaime Cortesão, José Azeredo Perdigão, Luís Câmara Reis, Raúl Brandão e Raúl Proença. Estes fundadores queriam intervir efetivamente na vida política portuguesa, na defesa da República e da sua regeneração, e de forma pedagógica quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa para a aproximar à realidade do perigo da ditadura e do nacionalismo através da crítica política, social e cultural.

O sucesso dos primeiros anos, de 1921 a 1926, foi comprometido pela saída de fundadores que foram forçados ao exílio pela ditadura militar que precedeu o Estado Novo, mas a revista conseguiu resistir à ausência do seu núcleo fundador com outros colaboradores.

Com uma existência difícil a partir de 1926 devido à ditadura, conseguiu resistir aos quase 50 anos de fascismo apesar do lápis azul; de suspensões temporárias de publicação; polémicas internas; dificuldades financeiras; do exílio ou prisão dos seus fundadores e colaboradores; das variações políticas nacionais e internacionais – crises do Estado Novo, Guerra Civil de Espanha, II Guerra Mundial – sem nunca deixar de fomentar o combate ideológico contra a repressão do regime salazarista.

A sua fase de maior expansão aconteceu no final dos anos 50. Foi uma fase de renovação iniciada com a campanha eleitoral de Humberto Delgado, que durou alguns anos, e se refletiu no aumento das tiragens médias anuais e da publicação na revista com mais textos sobre história contemporânea.

Com uma periodicidade nem sempre regular, esteve suspensa de 1926 a 1927 e em 1948, entre 1979 e 1985 correu risco de encerramento, mas foi mantida com a publicação de um número por ano até que, a partir de 1985, passou a revista trimestral.

Considerada a grande revista de resistência antifascista, a partir de 1974 foi-se mantendo como revista cultural e democrática, na qual sempre houve espaço de diálogo, abertura ao progresso, rigor ético, investigação e divulgação cultural.

Atualmente a revista encontra-se digitalizada e disponível online no sítio eletrónico do Seminário Livre de História das Ideias do Centro de Humanidades (CHAM) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores. Aí existem também outros materiais (testemunhos, bibliografias, atas dos órgãos da revista, etc.) indispensáveis a um conhecimento mais aprofundado da história deste periódico.

O protocolo de colaboração celebrado entre a Seara Nova e o CHAM, para publicação e reprodução do arquivo editorial da revista e da empresa, incluiu a digitalização e disponibilização em linha dos números publicados entre 1921 e 1984.
Este projeto foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia através do projeto estratégico UID/HIS/04666/2013.

Entre os muitos colaboradores da revista Seara Nova está Luis Ernani Dias Amado, cujo arquivo pessoal (uma parte) se encontra disponível para consulta no Arquivo de Ciência e Tecnologia.

Rosália Lourenço

Bibliografia e Webgrafia

Andrade, L. (2017). A Seara Nova em linha. Seara Nova.

Andringa, D. (autora e realizadora). (2021, outubro 14). Há 100 anos, a Seara Nova. (Episódio 1) [Episódio de programa de televisão]. In Documentários. Lisboa, RTP2.

Andringa, D. (autora e realizadora). (2021, outubro 15). Há 100 anos, a Seara Nova. (Episódio 2) [Episódio de programa de televisão]. In Documentários. Lisboa, RTP2.

Antunes, Cristina (autora). (1996). Seara Nova: 75 anos de intervenção democrática. [Programa de televisão]. In Documentários. Lisboa, RTP.

Centro de Humanidades. (s.d.). Seara Nova. Revistas de Ideias e Cultura. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Fitas, M. (2010). Seara Nova – tempos de mudança… e de perseverança (1940-1958). (Dissertação de mestrado, Universidade do Porto, Portugal)

Rosas, F. (anfitrião). (2021, julho 21). Convocar a História: centenário Seara Nova [podcast de áudio]. Esquerda.

Sousa, J. (s.d.). Seara Nova, revista de doutrina e crítica, Lisboa, 1921-1984 (1ª. Série). In Dicionário de Historiadores Portugueses: da Academia Real das Ciências ao final do Estado Novo.

Valdemar, A. (2021, outubro 15). Em Defesa de uma Democracia Social. Almanaque Republicano.

Novembro

Nestes dias em que se discutem as alterações climáticas na Cimeira das Nações Unidas em Glasgow, também conhecida por COP26, neste mês, o Factos e curiosidades é dedicado ao Roteiro para a Ciência, um programa que também abordou o Desenvolvimento Sustentável.

O Roteiro para a Ciência constituiu um programa da Presidência da República a que presidiu objetivos de valorização da cultura científica, competitividade do sistema científico nacional e inovação empresarial de base científico-tecnológica. Este projeto teve a sua existência entre 2006 e 2009.

O Programa traduziu-se em Jornadas dedicadas a diferentes temas. Pretendia-se, sobretudo, através de visitas a estabelecimentos de ensino superior, parques de ciência, laboratórios e unidades de investigação e desenvolvimento, divulgar e, deste modo, valorizar os projetos aí desenvolvidos.

Como é referido no Documento de Enquadramento, por ocasião da primeira Jornada, o Roteiro para a Ciência visava:

1. A valorização do papel dos cientistas;

  1. Mostrar os bons exemplos que devem ser replicados (a cooperação entre universidades instituições de I&D e empresas; a participação em rede);
  2. Convocar uma nova atitude no esforço nacional em torno da investigação e do desenvolvimento;
  3. Convocar a cultura empreendedora;
  4. Dar visibilidade a alguns nichos de investigação, de desenvolvimento e inovação.
  5. Reforçar o Programa Ciência Viva.

A I Jornada do Roteiro para a Ciência, dedicada às Biociências e Biotecnologia, teve lugar a 19 de junho de 2006. O tema corresponde à nova vaga da economia baseada no conhecimento, como é referido no documento de enquadramento temático. O Programa integrou visitas a Laboratórios, à Universidade do Minho, à Associação CIDEB – Centro de Incubação e Desenvolvimento de Empresas de Biotecnologia, integrada na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa.

O documento de Enquadramento do Roteiro para a Ciência enformado pela Estratégia de Lisboa, aprovada em março de 2000, que fixou como objetivo transformar a União Europeia até 2010 na zona económica mais competitiva ao mundo face ao “atraso estrutural em matéria de I&D face aos níveis verificados nos EUA e no Japão”, refere-se, invocando dados emanados pela OCDE e pela Comissão Europeia. Tendo por Plano de Ação a construção do Espaço Europeu de Investigação e Desenvolvimento, criou-se o Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT) através do Regulamento (CE) n. °294/2008 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de março de 2008.

A II Jornada do Roteiro para a Ciência dedicada às Tecnologias Limpas realizou-se de 12 a 13 de março de 2007, e incidiu sobre o Desenvolvimento Sustentável desdobrando-se nos vetores ambiente, economia e bem-estar-social. Alterações climáticas, política de energia, fiscalidade ambiental e green public procurement, formam desafios colocados ao sistema científico nacional.

As Ciências e Tecnologias do Mar constituíram o tema da III Jornada do Roteiro para a Ciência, que teve lugar de 8 de outubro a 16 de novembro de 2007. Portugal com uma área oceânica 18 vezes superior à área terrestre do país constitui-se como a maior da União Europeia donde a importância do Mar para Portugal, como refere Tiago Pitta e Cunha. A Economia do mar e das zonas costeiras consiste na energia das ondas e das marés, a biotecnologia e a robótica marinha, bem como a aquicultura.

O programa da Jornada teve por pilar o Oceano, um desígnio nacional para o séc. XXI, documento final aprovado em 2004, da responsabilidade da Comissão Estratégica dos Oceanos, criada pela Resolução do Conselho de Ministros nº 81/2003 e coordenada por Tiago Pitta e Cunha. Paralelamente, teve por base a Estratégia Nacional para o Mar, aprovada em 2006, pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 163/2006. E, no plano europeu, após a consulta aos Estados-Membros para uma política de gestão integrada dos assuntos marítimos tendo por base o Livro Verde para Uma Futura Política da União: Uma Visão Europeia para os Oceanos e os Mares sucedeu-se a conferência ministerial da União Europeia realizada em Lisboa , a 22 de outubro 2007, em torno da Política Marítima Europeia.

O programa desdobrou-se, nomeadamente, nas visitas ao Centro de Ciência Viva do Algarve, na apresentação das atividades do Instituto Hidrográfico e na visita ao Porto de Sines. Ainda, no arquipélago dos Açores as visitas prosseguiram no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, nomeadamente os Laboratórios de Exo-toxicologia, Biologia Molecular, LabHorta e Oceanografia, e ainda o Centro de Interpretação Marinha Virtual.

A IV Jornada do Roteiro para a Ciência foi dedicada às Tecnologias da Informação e Comunicação e realizou-se de 19 a 20 de maio de 2008, cujo programa iniciou-se pela apresentação da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL) e respetivos projetos de Investigação.

A Matemática foi o tema da V Jornada do Roteiro para a Ciência, realizada entre 15 e 16 de abril de 2009. O desempenho dos alunos e a literacia matemática, a relação Inovação-Investigação-Matemática e o impacto na Economia dos países correspondem a matérias decorrentes do Relatório Mathematics in Industry da OCDE (2008). A jornada foi encerrada sobre o tema da divulgação cientificada da Matemática, contemplando visitas a exposições e à cerimónia de distinção nas “Olimpíadas de Matemática”, promovida pela Sociedade Portuguesa de Matemática.

No Arquivo da Presidência da República online encontra-se toda a informação sobre a realização destas Jornadas realizadas no âmbito do Roteiro para a Ciência, incluindo as reportagens fotográficas.

No Arquivo de Ciência e Tecnologia da Fundação para a Ciência e a Tecnologia encontra-se, no fundo arquivístico do professor José Mariano Gago, documentação sobre o conjunto das Jornadas do Roteiro para a Ciência. Destacamos o papel de José Mariano Gago enquanto membro do Governo presente e integrante do programa, que também lhe era submetido para apreciação, enquanto conferencista ou como interveniente nas mostras de coleções, nas visitas a unidades de investigação, estabelecimentos de ensino superior, parques de ciência ou laboratórios promovendo, assim, a divulgação científica. O criador da Ciência Viva viu corresponder os objetivos do Roteiro para a Ciência ao reforçar do Programa Ciência Viva e à divulgação da Ciência.

Rafaela Rodrigues

Documentos de arquivo (disponível para consulta no ACT)

Gago, JM (1978-1992). Arquivo José Mariano Rebelo Pires Gago (PT/FCT/MG), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Bibliografia e Webgrafia

Comissão Estratégica dos Oceanos (2004). Relatório da Comissão Estratégica dos Oceanos: Um desígnio nacional para o século XXI.

Pitta e Cunha, T. (2011). Portugal e o mar. Fundação Francisco Manuel dos Santos

Presidência da República. (2006, junho). Roteiro para a ciência: documento de enquadramento: 1ª Jornada: Biociência e Biotecnologia. Arquivo Histórico da Presidência da República

Presidência da República (2007, junho). Roteiro para a ciência: documento de enquadramento: 2ª Jornada: Tecnologias Limpas. Arquivo Histórico da Presidência da República

Presidência da República (2007, outubro). Roteiro para a ciência: documento de enquadramento: 3ª Jornada: Ciências e Tecnologias do Mar. Arquivo Histórico da Presidência da República

Presidência da República (2008, maio). Roteiro para a ciência: documento de enquadramento: 4ª Jornada: Tecnologias de Informação e Comunicação. Arquivo Histórico da Presidência da República

Presidência da República (2009, abril). Roteiro para a ciência: documento de enquadramento: 5ª Jornada: Matemática. Arquivo Histórico da Presidência da República

Outubro

Conhece a coleção Biblioteca Cosmos?

Há oitenta anos, em 1941, era criada a Biblioteca Cosmos. Fundada por Bento de Jesus Caraça (1901-1948), a coleção aspirava à formação das massas populares, tornando-se um marco na História da Cultura portuguesa correspondendo ao maior empreendimento levado a cabo de divulgação científica e cultural.

Reuniu um conjunto de destacados intelectuais no domínio da ciência e da cultura: pedagogos como Irene Lisboa; arquitetos como Francisco Keil do Amaral; músicos como Fernando Lopes Graça e Luís de Freitas Branco; médicos como Aurélio Quintanilha, A. Celestino da Costa; Historiadores como Flausino Torres e Rómulo de Carvalho; tradutores como Paulo Quintela.

A coleção composta por sete secções, na qual se incluía a tradução dos clássicos, compreendia: Ciências e Técnicas; Artes e Letras; Filosofia e Religiões; Povos e Civilizações; Biografias; Epopeias Humanas; Problemas do Nosso Tempo.

O primeiro volume publicado em 1941, Conceitos fundamentais da matemática, atingiu os 17.500 exemplares, integrando a primeira secção, Ciência e Técnica, aquela que reuniu o maior número de volumes na coleção. Os cerca de 117 volumes da coleção publicados durante sete anos atingiram uma tiragem média de 6.960 exemplares por livro.

Bento de Jesus Caraça que, já em 1928, presidira à Universidade Popular Portuguesa reorganizando-a e dotando-a de um Conselho Pedagógico, fora aí o criador do Curso de Iniciação Matemática, organizando palestras públicas e subtraindo a universidade ao marasmo do Estado Novo.

Da importância do papel educativo na transformação social dirá, em 1933, na célebre palestra A cultura integral do indivíduo: “Eis a grande tarefa que está posta, com toda a sua simplicidade crua, à nossa geração – despertar a alma coletiva das massas.” (Caraça, 1988).

As Edições Cosmos ampliam-se, em 1947, e lançam a coleção Biblioteca Cosmos – Gigante. De âmbito universitário, amplificando a matriz de iniciação da anterior coleção e, igualmente, sob a direção de Bento de Jesus Caraça, a Biblioteca Cosmos – Gigante apresenta-se como um “panorama dos grandes ramos da atividade científica”, como é referido no panfleto. Lançada em fascículos, a coleção subsumir-se-á nas seguintes obras: Panorama da Ciência Contemporânea, Panorama da Ciência Económica, Panorama da Geografia e Panorama do Pensamento Filosófico.

O importante Dicionário de música de Fernando Lopes Graça tem, igualmente, a sua génese pela mão das Edições Cosmos.

A coleção foi publicada até 1948, data da morte de Bento de Jesus Caraça: “Porque não queremos continuar com outrem uma obra que foi criação do Prof. Bento de Jesus Caraça!”, refere o professor José Moreira Araújo (2001).

Nas celebrações do centenário de Bento de Jesus Caraça a Fundação Gulbenkian, associando-se às comemorações, publicou um volume contendo sete livros da Biblioteca Cosmos (os primeiros de cada uma das sete secções da Biblioteca) fac-similados. O volume da Fundação contém um estudo do prof. José Moreira Araújo sobre a Biblioteca Cosmos.

Óscar Lopes e António José Saraiva assinalam na História da Literatura Portuguesa “entre as manifestações culturais que assinalaram uma mudança efetiva, hoje muito despercebida, da mentalidade culta portuguesa conta-se a «Biblioteca Cosmos», dirigida, desde 1940, por Bento de Jesus Caraça” (Lopes & Saraiva, 1996).

Ainda hoje a coleção ciência aberta da Gradiva integra, numa edição organizada por Paulo Almeida, os Conceitos fundamentais da matemática de Bento de Jesus Caraça.

No Arquivo de Ciência e Tecnologia (ACT) encontra-se um conjunto documental relativo a Bento de Jesus Caraça, integrante do fundo arquivístico de Luiz Ernani Dias Amado, cuja amizade datava dos dias do Liceu Pedro Nunes, onde se conheceram. A totalidade do espólio de Bento de Jesus Caraça pode ser encontrado no Arquivo da Fundação Mário Soares.

Rafaela Rodrigues

Referências bibliográficas

Andrade, L. (2019). Biblioteca cosmos: Política e cultura. In Fitas, A. (ed.) Nova síntese: Cultura científica e neo-realismo. Lisboa: Edições Colibri. pp. 75-108. [Acessível aqui]

Araújo, J. M. (2001). Biblioteca Cosmos: Um projeto cultural do prof. Bento de Jesus Caraça. [edição fac-similada]. Lisboa: Fundação Gulbenkian. [Texto incluído na introdução ao volume da Fundação, acessível aqui]

Caraça, B. J. (1988). A Cultura integral do indivíduo: Problema central do nosso Tempo. Lisboa: Edições Gradiva.

Lopes, Ó. & Saraiva, A. J. (1996). História da literatura portuguesa. 17ª ed. Porto: Porto Editora. p. 1035.

Schmidt, L & Cabral, J. P. (Eds.). (2008). Ciência e cidadania: Homenagem a Bento de Jesus Caraça. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais. [Acessível aqui]

Fontes (webgrafia acedida em setembro de 2021)
Associação de Bento de Jesus Caraça

Setembro

A adesão de Portugal ao CERN

No fim dos anos 40, do século XX, um grupo de cientistas visionários considerou que o processo de unificação da Europa do pós-guerra precisava de uma infraestrutura de pesquisa em física que travasse a saída de cientistas, pois muitos deles tinham ido para a América do Norte durante a II Guerra Mundial. Decidiram, por isto, promover a criação de uma organização europeia dedicada à ciência, que divulgasse publicamente o resultado dos seus trabalhos e se abstivesse de toda e qualquer atividade com fins militares.

Esta foi a génese do CERN também designado, por vezes, Laboratório Europeu para a Física de Partículas porque este é o seu principal domínio de investigação e experimentação.

Em junho de 1953 foi aprovado o texto final da Convenção do CERN, com a assinatura dos doze estados-membros que o compunham. Neste documento ficou definida a missão, a organização estrutural do CERN e a contribuição financeira de cada estado-membro para o seu orçamento.

O CERN, o maior laboratório de física de partículas do mundo, situado em Genebra, Suíça, estava criado e os membros fundadores atribuíram a este centro “(…) a promoção e a colaboração entre Países Europeus na área da investigação fundamental no domínio da Física das Altas Energias (FAE), de modo a permitir à Europa a liderança nesse domínio. (…)”.

Atualmente o CERN conta com vinte e três estados-membros – Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Dinamarca, Eslováquia, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Israel, Itália, Noruega, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Roménia, Sérvia, Suécia e Suíça – que são representados por dois delegados oficiais no Conselho do CERN, um representa as autoridades do país e o outro os cientistas nacionais. Todos os estados financiam e participam das decisões que o Conselho procura que sejam consensuais e o mais próximo possível da unanimidade. A Croácia, a Índia, a Lituânia, o Paquistão, a Turquia e a Ucrânia têm estatuto de estado-membro associado. São membros observadores no Conselho do CERN a União Europeia, a UNESCO, a JINR (Instituto Central de Investigações Nucleares), o Japão, a Rússia e os Estados Unidos da América.

O conhecimento produzido no CERN é partilhado com os estados-membros através de fóruns que os Encarregados de Ligação com a Indústria promovem para troca de conhecimento nos domínios da ciência e da tecnologia. Os programas destinados a professores e estudantes também asseguram esta partilha, de forma autónoma, através de duas redes – a Rede de Comunicação da Física de Partículas na Europa e o Grupo Internacional de Comunicação ao Grande Público sobre a Física de Partículas.

Apesar de ser uma organização europeia, as suas instalações e equipamentos são também utilizados por equipas de cientistas do resto do mundo, através de acordos específicos. O CERN é o local de trabalho diário para aproximadamente 2.500 funcionários a tempo inteiro e para 12.200 cientistas e engenheiros visitantes.

Os cientistas que trabalham no CERN investigam a composição elementar da matéria, e as interações entre os seus componentes fundamentais, para o desenvolvimento da tecnologia, da ciência dos materiais, da informática, da supercondutividade e da geodesia de precisão.

A investigação da física de partículas exige níveis elevados de qualidade, o que faz do CERN um importante banco de ensaio em vários domínios da tecnologia. O trabalho dos seus cientistas consiste em provocar a aceleração de partículas a energias muito elevadas e fazê-las colidir contra alvos fixos, ou entre si, na procura de entendimento sobre as forças que atuam entre elas. Para estas investigações usam os diferentes tipos de aceleradores, lineares e circulares, existentes no CERN.

No CERN são utilizados os maiores e mais complexos instrumentos científicos para criar as condições necessárias à deteção e estudo dos constituintes básicos da matéria e da antimatéria, para chegar à demonstração das teorias fundamentais da física de partículas e à descoberta dos princípios elementares da criação do mundo tal como o conhecemos.

Foi no início da década de 70 que aconteceram os primeiros contactos oficiais entre Portugal e o CERN. O professor Veiga Simão, à data Ministro da Educação, com um grupo de professores universitários, tomou a iniciativa que marcou a alteração de um paradigma há muito existente em Portugal – a quase inexistência de cientistas nos domínios científicos e tecnológicos do CERN.

Em 1981 foi estabelecido um acordo formal de colaboração entre o INIC, então presidido por Fernando Roldão Dias Agudo, e o CERN. Este acordo que marca a abertura do CERN aos cientistas portugueses na investigação da Física de Altas Energias ou Física das Partículas Elementares, na sua componente experimental associada ao desenvolvimento de instrumentação, eletrónica rápida, meios automáticos de controlo, aquisição e tratamento de dados; e também em ciência dos materiais, foi de uma importância que está documentada no vasto número de publicações científicas produzidas entre 1981 e 1984.

Em 1981 realizou-se em Portugal a Conferência Internacional de Física de Altas Energias, da Sociedade Europeia de Física, e em paralelo a exposição “De que são feitas as coisas” no Instituto Superior Técnico. Esta exposição foi organizada por José Mariano Gago e Conceição Abreu, com o contributo de outros físicos, professores e estudantes portugueses e, também, com a colaboração do CERN. Exposição sobre a presença da Ciência na vida do dia a dia, destinada ao grande público, teve grande impacte na sociedade portuguesa, muitos a visitaram e até os media lhe deram destaque de primeira página.

A referida conferência contou com a presença de dois prémios Nobel de Física, Richard Feynman e Abdul Salam. Esta foi uma iniciativa inédita em Portugal, decorrente do relacionamento institucional entre Portugal e o CERN. O INIC estabeleceu com o CERN um protocolo, mediado por José Mariano Gago, que garantia o financiamento equivalente a um investigador por ano, no CERN. Assim se conseguiu o início de uma presença regular de estudantes e investigadores portugueses, experimentais e teóricos, no CERN.

Em 1984 o ministro da Educação, José Augusto Seabra, visitou oficialmente o CERN. No final deste ano, por iniciativa de vários cientistas portugueses, a adesão ao CERN era um dossier discutido na JNICT e no INIC.

José Mariano Gago liderou, em poucos meses, o processo de adesão de Portugal no CERN. Com um plano de pagamento da contribuição financeira, na qualidade de estado-membro, diferido a dez anos, Portugal asseguraria o investimento do valor remanescente na criação de condições, científicas e industriais, que permitissem o pleno aproveitamento da adesão.

Em 1985, o secretário de estado da Ciência, Arantes e Oliveira, reafirmou o interesse estratégico da adesão de Portugal ao CERN e apoiou a iniciativa de José Mariano Gago de criar o Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP – maio de 1986), constituído por investigadores de diversas proveniências – Instituto Superior Técnico, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Universidade de Coimbra – com massa crítica para assegurar a participação de Portugal nos trabalhos de investigação do CERN.

Foi Jaime Gama, Ministro dos Negócios Estrangeiros, assessorado por Mariano Gago, em articulação com a Missão Permanente de Portugal junto das Organizações Internacionais, com a INIC, com a JNICT, com o Ministro de Estado, Almeida Santos, e com o Ministério da Indústria que representou Portugal nas negociações de adesão ao CERN. O protocolo de adesão ao CERN, de 26 de abril de 1985, foi ratificado por Mário Soares, primeiro-ministro do IX Governo Constitucional.

As Condições Especiais de Adesão acordadas entre Portugal e o CERN foram objeto de protocolo. O Protocolo de Adesão foi assinado em Genebra, no dia 26 de abril de 1985, pelos responsáveis do CERN e pelo ministro Jaime Gama.

O conselho dos Países-Membros do CERN aprovou por unanimidade a adesão de Portugal, nas condições negociadas, em 27 de junho de 1985. No mesmo dia, em Portugal, foi aprovado em Conselho de Ministros o diploma relativo à adesão de Portugal ao CERN, nas condições negociadas, referendado pelo Presidente da República, António Ramalho Eanes, a 19 de julho de 1985, que foi publicado na I Série do Diário da República nº 184 – Decreto do Governo nº 30/85, de 12 de agosto.

A 16 de outubro de 1985 o Presidente da República, António Ramalho Eanes, outorgou a Carta de Confirmação e Adesão da Convenção para o Estabelecimento de uma Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear e respetivo Protocolo Financeiro.

É de salientar a participação do LIP no programa europeu de desenvolvimento e operação do paradigma de computação GRID. O GRID foi desenvolvido para utilização dos recursos de computação avançada hierarquizados e distribuídos mundialmente, interligados pelas redes de comunicação de dados de muito ampla largura de banda, de forma inteiramente transparente para o utilizador final. Assim, a localização física do utilizador e a operação dos sistemas de cálculo e repositórios de dados pode operar-se em lugares espacialmente disjuntos, mesmo em continentes diferentes, fazendo cooperar centenas de milhar de sistemas de cálculo e partilhar volumes de dados da ordem dos Petabytes, sem que o utilizador conheça a localização destes recursos.

Portugal aderiu ao CERN há mais de 30 anos, ao longo dos quais foram possíveis realizar trabalhos inéditos de investigação, no maior e mais potente acelerador de partículas do mundo, com a participação de físicos e engenheiros portugueses.

A participação nacional no CERN tem sido também importante na formação dos engenheiros portugueses nos últimos 20 anos. Em 2018, cerca de 106 investigadores estavam a participar em algumas das experiências ou programas de investigação do CERN, tais como CMS e ATLAS, instaladas no LHC. A participação destas equipas nacionais, nas diversas experiências do CERN, tem gerado centenas de publicações internacionais, apresentações em conferências internacionais e nacionais, e várias teses de mestrado e doutoramento.

A adesão de Portugal ao CERN tem sido importante para a indústria portuguesa, que se tem especializado em várias áreas, devido aos projetos em que tem participado com o fornecimento de bens e serviços técnicos.

A FCT continua a ser responsável por projetos de financiamento para estágios tecnológicos para engenheiros associados no CERN.

Para saber mais sobre o CERN, e a participação portuguesa neste laboratório, leia o artigo CERN – a física de partículas não tem nacionalidade, publicado no site do Arquivo de Ciência e Tecnologia.

Rosália Dias Lourenço

Fontes:

Documentação consultada:

Arquivo de Ciência e Tecnologia: Espólio Mariano Gago [PT/FCT/EMG]

webgrafia:
José Mariano Gago 1978-1986: o ensino da física, a divulgação cientifica, a adesão de Portugal ao CERN
Sítio CERN
Governos Anteriores – XXII Governo – República Portuguesa (portugal.gov.pt)
FCT — CERN
Portugal estende cooperação com o CERN até 2030 – XXI Governo – República Portuguesa

Agosto

Conhece o Programa Memória para Todos?

MEMÓRIA PARA TODOS é um programa de investigação dedicado ao estudo, organização e divulgação do património histórico, cultural, tecnológico e digital, desenvolvido com a participação de cidadãos e instituições na construção da memória coletiva, da sua preservação e disponibilização em acesso livre.

Regista, preserva e partilha histórias e memórias, incluindo testemunhos orais, documentação e objetos pessoais e familiares, valorizando as histórias de vida e das comunidades, e divulgando em linha os conteúdos reunidos – objetos, fotografias, testemunhos áudio e vídeo de cidadãos e instituições.

O Programa é desenvolvido pelo polo História, Território e Comunidades (HTC) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH) e do Centro de Ecologia Funcional (CFE) – Ciência para as Pessoas e para o Planeta, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, uma unidade de investigação e desenvolvimento, financiada pela FCT, para divulgação do conhecimento sobre o funcionamento de ecossistemas e das suas interações socio ambientais.
O HTC reúne investigadores de diferentes áreas do saber que fazem um trabalho de reflexão e interação entre as ciências sociais, as humanidades, as ciências da vida e outras disciplinas de estudo das especificidades locais, e da integração destas no contexto global para a sustentabilidade, de forma a estabelecer relações entre a História, os territórios e as comunidades, na complexidade de interligações que permitem firmar um compromisso global para a sustentabilidade.

Além da reflexão multidisciplinar, aberta à participação na resolução de desafios sociais, conforme à Agenda 2030 das Nações Unidas e em convergência com o Programa Quadro da Comissão Europeia – Horizon Europe 2021-2027 – o trabalho do HTC pressupõe que o conhecimento contribui para uma sociedade mais consciente, em coerência com a matriz de pensamento crítico e construtivo das Ciências Sociais e Humanas.

É com o conhecimento do passado que a compreensão do presente se torna possível contribuindo para a definição de melhores políticas públicas, o incremento de iniciativas de ordenamento do território e da sua regulação para o bem-estar das comunidades.

O desenvolvimento do Programa Memória para Todos conta com a participação de cidadãos que partilham memórias pessoais, e familiares, relativas a determinados momentos e processos históricos. Entidades como escolas, empresas, câmaras municipais e juntas de freguesia têm sido parceiras essenciais na construção de um património comum, constituído pelas histórias pessoais e pela memória das comunidades.

A equipa que coordena e gere o projeto recorre a metodologias de registo, organização e divulgação de conteúdos específicos, de acordo com a natureza dos materiais, suportes e informação em causa, nomeadamente testemunhos orais, histórias de vida, espólios e coleções privadas e familiares, através da criação de bases de dados e de processos digitais de conservação e disponibilização de dados. Convoca e aplica várias metodologias associadas às ciências documentais, à história, à museologia, ao património e às ciências sociais em geral, como a história oral, o método biográfico, a prosopografia, a história local, na construção de um ambiente comum e partilhado pelas Humanidades Digitais, a que se associa uma leitura do território e da paisagem, no cruzamento com as ciências da vida e a geografia.

A abrangência dos projetos do Programa Memória para Todos é vasta e inclui memórias partilhadas por quem conhece bem as Aldeias, as Avenidas Novas de Lisboa, a Lagoa de Óbidos ou a freguesia de São Domingos de Benfica; mas também dos que trabalharam no Contrabando, na Cortadoria Nacional de Pelo, na Polícia ou em Seguros; e ainda dos que guardam registos da Grande Guerra, da I República, da Ópera, da Resistência à ditadura e da Revolução de Abril.

No sítio do Programa Memória para Todos está disponível para consulta o trabalho já desenvolvido. A par com o registo, organização e divulgação de espólios, o 3º Encontro Memória para Todos, que se realizará a 11 e 12 de novembro de 2021, em Lisboa, terá como objetivo a criação de um espaço de partilha, debate e crítica das práticas colaborativas, participativas e de patrimonialização na construção do conhecimento histórico. O encontro, que terá como tema “Preservar e Partilhar a Memória”, reunirá profissionais e agentes que se dedicam a este trabalho de formas diversas.

Recentemente foi assinado um protocolo entre a OPART, E.P.E., (empresa responsável pela gestão do Teatro Nacional de São Carlos, do seu Coro e da Orquestra Sinfónica Portuguesa) e a NOVA FCSH que, através dos investigadores do polo HTC do CFE, prevê a inventariação e o estudo das coleções patrimoniais e da documentação histórica, assim como a recolha de testemunhos e memórias do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC).

Este protocolo, com a duração de três anos, prevê a divulgação da história do TNSC em conteúdos digitais e em linha, na forma de resumos históricos, biografias dos protagonistas, catalogação de espetáculos e objetos, e outros formatos. Também estão previstas conferências sobre a história deste teatro e sobre o seu património histórico, que conta com uma coleção de 5 000 peças de guarda-roupa, figurinos, adereços e acervo documental, fotográfico e objetos para organizar, preservar, valorizar e dar a conhecer.

Por agora, nas Memórias da Ópera poderá contribuir com a partilha do seu testemunho, de objetos, de fotografias e de documentos relevantes para o conhecimento de factos históricos, episódios sociais e eventos culturais da Ópera em Portugal, dos bastidores à plateia.

Enquadrado neste Programa, o Arquivo de Ciência e Tecnologia (ACT) conta, desde 2017, com a iniciativa História e Memória da Ciência, Tecnologia e Inovação em Portugal, cujo objetivo é o registo e divulgação das memórias da ciência em Portugal. Queremos dar a conhecer as memórias da JNICT e da FCT, com memórias sobre processos de organização e administração da ciência; a construção e implementação das políticas científicas em Portugal; e outros temas. Pretendemos identificar, mapear, registar, preservar e divulgar estas memórias e espólios documentais, estimular a sua valorização enquanto fontes para a história, em estreito diálogo com o ACT. No fundo, divulgar e partilhar esta história que é de todos nós e que está em construção permanente.

Paula Meireles

Rosália Dias Lourenço

 

Fontes (webgrafia acedida em junho de 2021):
Memória para todos
Memória para Todos – HTC – História, Territórios e Comunidades
Pólo NOVA FCSH do Centro de Ecologia Funcional

Julho

Sabia que a FCT é a gestora do Projeto SciELO Portugal, uma biblioteca de revistas científicas online?

O projeto SciELO Portugal representa a adesão à Rede SciELO Internacional e caracteriza-se pela disponibilização de uma coleção de publicações científicas online, com peer-review, de diferentes domínios científicos, com o objetivo de promover as revistas científicas portuguesas e difundir mundialmente a produção científica nacional de qualidade.

O projeto SciELO nasce em 1997 com a implementação de um projeto piloto desenvolvido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME/OPAS/OMS). Foi criado com o objetivo de ampliar a divulgação da produção científica na América Latina e Caribe e em geral nos países de língua portuguesa e espanhola, e de criar uma infraestrutura que visava a indexação e publicação digital de periódicos científicos nacionais, arbitrados e de diferentes áreas(1).

Este projeto foi pioneiro na adoção do acesso aberto, uma vez que foi lançado antes do surgimento das três declarações que sustentam o acesso aberto a Budapest Open Access Initiative (BOAI) que viria a ser um dos documentos mais importantes do movimento do livre acesso à literatura científica, a Bethesda Statement on Open Access Publishing e a Berlin Declaration on Open Access to Knowledge in the Sciences and Humanities. Foi também inovador numa altura em que os índices internacionais cobriam apenas as chamadas revistas convencionais, ignorando um universo de revistas publicadas em países em desenvolvimento e não anglófonos(2).

Assim, o projeto SciELO procurava contribuir para o avanço da investigação científica desenvolvida nos países ibero-latino-americanos, melhorando a qualidade dos seus periódicos e aumentando a sua visibilidade, acessibilidade, uso e impacto. Para alcançar estes objetivos desenvolveu uma metodologia de publicação eletrónica de periódicos científicos que, recorrendo à rede da Internet e às novas tecnologias disponíveis na época, transformou os periódicos impressos em eletrónicos e permitiu oferecer textos completos dos artigos, totalmente gratuitos, avançando em poucos anos para a modalidade de publicação conhecida como “Via Dourada” (Golden Road)(2).

Com o decorrer dos anos, vários países foram aderindo à rede e constituindo as suas coleções nacionais. A rede é composta por 16 países, sendo a maioria de natureza ibero-americana, exceção feita para a África do Sul. Cada coleção nacional tem uma gestão e funcionamento próprio, mas todas seguem as metodologias e a plataforma tecnológica da SciELO Brasil.

O ano de 2001 marca o início das negociações de Portugal com a SciELO Internacional com o objetivo de integrar a rede. Isso viria a acontecer em 2002 por intervenção do Observatório das Ciências e das Tecnologias que pertencia ao então Ministério da Ciência e Tecnologia. A adesão a esta rede tinha como objetivo promover as revistas científicas editadas em Portugal alargando o acesso aberto à produção científica nacional de qualidade(3).

O projeto inicia-se com a implementação dos requisitos técnicos e com a familiarização da equipa na metodologia SciELO. Para a seleção das primeiras revistas a integrar a coleção foi necessário constituir um painel de avaliadores composto por investigadores e professores universitários que, juntamente com o Observatório das Ciências e das Tecnologias e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), aplicou os critérios da SciELO às revistas editadas em Portugal(4).

Em 2005 é lançado o site SciELO Portugal decorrente da seleção das primeiras revistas que cumpriam os critérios SciELO. Em 2007, após a validação do site segundo os critérios para certificação de sites SciELO, Portugal obtém a cerificação enquanto coleção em operação regular dentro da rede SciELO(4).

A gestão do projeto SciELO Portugal esteve sob a alçada da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) até 2018, altura em que começam a ser desenvolvidos os preparativos de transição do projeto para a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) que assume a coordenação geral do projeto, em parceria com a Unidade de Computação Científica Nacional da FCT (FCT/FCCN) e a Universidade do Minho (UM), que asseguram a coordenação científica e técnica. Esta mudança implicou uma atualização da infraestrutura tecnológica, beneficiando do desenvolvimento do projeto PUBIN, que surge com a intenção de vir dar resposta às necessidades em termos de plataformas de gestão editorial de forma centralizada e interoperável(5).

A transição levou à constituição de um novo Comité Consultivo que atualizou os Critérios, política e procedimentos para a admissão e a permanência de revistas científicas na Coleção SciELO Portugal que passaram a vigorar em janeiro de 2021. O cumprimento destes novos Critérios é essencial para operacionalizar e fazer cumprir os princípios da Ciência Aberta, nomeadamente na possibilidade de utilização de preprints e open peer review. Em termos de garantia de integração com o sistema de ciência e tecnologia, destaca-se a utilização dos ORCIDs e do formato JATS-XML.

No decurso destes 20 anos foi possível garantir que o projeto SciELO Portugal cumpriu os requisitos de gratuitidade, sustentabilidade, heterogeneidade e credibilidade dos conteúdos divulgados. Estes critérios estiveram em alinhamento com a política governamental que definiu que os princípios e práticas da Ciência Aberta eram prioritários, materializando-se na elaboração e implementação de uma Política Nacional de Ciência Aberta.

A Ciência Aberta não representa apenas a disponibilização em acesso aberto de dados e publicações, significa a exposição do processo científico enquanto um todo, reforçando o conceito de responsabilidade social científica de acordo com os princípios orientadores para a implementação de uma Política Nacional de Ciência Aberta.

Desde 2014 que a FCT está alinhada com os princípios da ciência aberta tendo estabelecido que toda a investigação desenvolvida com financiamento público teria de disponibilizar os resultados em acesso aberto, conforme o definido na Política sobre Acesso Aberto a Publicações Científicas resultantes de Projetos de I&D Financiados pela FCT.

Esta posição foi reforçada com a adesão da FCT ao Plano S promovido pela Science Europe que postula que todas as publicações científicas, desenvolvidas após 2020, que decorram de investigação que recebeu financiamento de fundos públicos têm de ser publicadas em Acesso Aberto. Este plano é um grande passo para que a investigação seja feita de forma transparente e aberta, acessível a todos, que possa ser ligada, reutilizada e arquivada.

A integração de Portugal no projeto SciELO possibilitou que as revistas científicas saíssem da esfera nacional e adquirissem visibilidade a nível mundial fazendo com que os investigadores ganhassem projeção internacional. Para além disso a integração na coleção SciELO assumiu um papel fundamental na melhoria da qualidade das revistas científicas, no que diz respeito aos conteúdos disponibilizados, mas também na forma como o passaram a fazer.

Para conhecer os procedimentos e para integrar a Coleção SciELO Portugal consulte toda a informação em http://www.scielo.mec.pt/ ou contacte-nos por email para scieloportugal@fct.pt .

Paula Meireles

Paula Seguro de Carvalho

 

Referências bibliográficas
1. Packer AL, Cop N, Luccisano A, Ramalho A, Spinak E. SciELO – 15 Anos de Acesso Aberto: um estudo analítico sobre Acesso Aberto e comunicação científica. Published online 2014:188. doi:10.7476/9789237012376
2. Bojo Canales C, Fraga Medín CA, Primo-Peña E. The SciELO model in Spain: a pioneering open access project. Hosp Domic. 2020;4(3):153-159. doi:10.22585/hospdomic.v4i3.108
3. Agapito C. SciELO Portugal : uma via dourada. In: XIII Jornadas APDIS. Associação Portuguesa de Documentação e Informação de Saúde; 2018:1-5. https://apdis.pt/publicacoes/index.php/jornadas/article/view/241
4. SciELO Portugal. O ontem, hoje e amanhã da Rede SciELO: Reunião da Rede SciELO – Grupo de Trabalho 1.; 2018. https://www.scielo20.org/redescielo/wp-content/uploads/sites/2/2018/09/Informe-SciELO-Portugal.pdf
5. Carvalho J, Costa S, Lopes P, Rodrigues E. Nova etapa do SCIELO Portugal. Páginas a&b Arq Bibl. 2020;S.3, no es(esp.):45-50. doi:10.21747/21836671/pagnespc6

Fontes (webgrafia acedida em junho de 2021):
Critérios para a admissão de revistas científicas na Coleção SciELO Portugal
Plano S
Política sobre Acesso Aberto nos Projetos de I&D Financiados pela FCT
PUBIN

Junho

No próximo dia 9 de junho celebra-se o Dia Internacional dos Arquivos. Assim, este mês, destacamos a relevância dos arquivos e, mais concretamente, do Arquivo de Ciência e Tecnologia que guarda documentos valiosos para o estudo da história das políticas, das instituições e das pessoas que fazem ciência em Portugal.

No congresso do International Council on Archives (ICA) realizado em Viena, em 2004, os cerca de 2000 participantes deixam um pedido à UNESCO para criação do Dia Internacional de Arquivos. Em 2005, em Paris, em Assembleia Geral da UNESCO, é proclamado o dia 27 de outubro como o Dia Mundial do Património Audiovisual. Uma excelente iniciativa, mas que não representava todos os tipos de Arquivos.

Em Assembleia Geral do ICA, realizada no Québec, em 2007, é então criado o Dia Internacional dos Arquivos, que passa a ser celebrado a 9 de junho. A data escolhida tem a ver com a criação do ICA, pela UNESCO, a 9 de junho de 1948.

Num ano em que o Arquivo de Ciência e Tecnologia está prestes a fazer 10 anos de existência, relembramos a sua importância para a história da ciência em Portugal. Tem à sua guarda um acervo único e de inegável interesse e qualidade histórica que representa a atividade cultural e científica portuguesa desde os meados do século XX até à atualidade. O primeiro Arquivo do género em Portugal, que vê assim reforçada a responsabilidade enquanto entidade responsável pela salvaguarda e preservação da principal fonte primária para a história da organização da atividade científica em Portugal.

A história da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) confunde-se com a própria história da ciência e da tecnologia e da organização da ciência em Portugal, sendo herdeira e detentora de um significativo património documental, que inclui, para além do seu próprio arquivo, o espólio da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), antecessora da FCT criada em 1967, e de outros organismos públicos e privados.

Desde então que a documentação produzida, primeiro pela JNICT, depois pela FCT, não teve qualquer tratamento arquivístico. Por outro lado, o crescimento documental das últimas décadas, bem como a integração de acervos de instituições públicas entretanto extintas, levou a que no início do projeto tivessem sido contabilizados cerca de 4.000 metros lineares de documentação, dispersos por vários depósitos. Ao longo destes 10 anos foram feitas várias intervenções, desde avaliação de massas acumuladas a descrição, digitalização e muitas ações de divulgação.

Reconhecida a importância deste acervo, o ACT foi inaugurado a 16 de dezembro de 2011, numa cerimónia que contou com a presença do Ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, da Secretária de Estado da Ciência, Leonor Parreira, do Professor José Mariano Gago, do Dr. Mário Soares, do Professor José Mattoso, entre outras personalidades.

A missão? Tratar, preservar e divulgar o património documental à guarda da FCT, e outros com interesse científico e histórico, contribuindo deste modo para a preservação da história e memória da ciência e da tecnologia em Portugal.

O Arquivo de Ciência e Tecnologia preserva e gere a memória documental da produção científica nacional, traduzida em milhares de processos de apoio a bolsas, instituições e projetos de investigação. Um acervo documental e bibliográfico representativo da história das instituições, das políticas científicas e da organização da ciência, com interesse para todas as áreas do conhecimento. Manuscritos, recortes de imprensa, provas fotográficas, desenhos, edições periódicas e monografias.

Neste momento, o Arquivo conta com cerca de 5000 metros de documentos sobre a história da Ciência e Tecnologia em Portugal, composto por 12 arquivos institucionais da administração e organização de Ciência e 8 arquivos de cientistas e de outras personalidades ligadas à Ciência.

Muitos foram já os investigadores que consultaram o ACT no âmbito dos seus projetos de investigação de diversas áreas do conhecimento, em busca de fontes primárias, sempre com um interesse comum: a investigação científica produzida em Portugal.

A Declaração Universal sobre os Arquivos, aprovada pela UNESCO em 2011, é um documento que reforça a importância dos arquivos na sociedade, na compreensão do passado e do presente e na construção do futuro, resume de forma clara, simples e concreta a importância dos Arquivos:

Os Arquivos registam decisões, ações e memórias. Arquivos são um património único e insubstituível transmitido de uma geração a outra. Documentos de arquivo são geridos desde a criação para preservar seu valor e significado. Arquivos são fontes confiáveis de informação para ações administrativas responsáveis e transparentes. Desempenham um papel essencial no desenvolvimento das sociedades ao contribuir para a constituição e salvaguarda da memória individual e coletiva. O livre acesso aos arquivos enriquece o conhecimento sobre a sociedade humana, promove a democracia, protege os direitos dos cidadãos e aumenta a qualidade de vida.

Paula Meireles

 

Fontes

(webgrafia acedida em maio de 2021):

DGLAB
International Council on Archives
Declaração Universal sobre os Arquivos
Arquivo de Ciência e Tecnologia

 

Maio

Fonte: Jornal Médico – Exposição itinerante marca o centenário da insulinoterapia

Há cem anos que foi descoberta a insulina. Antes, ter diabetes equivalia a uma sentença de morte, os diabéticos tinham vidas curtas e com complicações graves como cegueira, gangrena, acidente vascular cerebral, enfarte do miocárdio, insuficiência renal.

Nos últimos cem anos muitos investigadores científicos dedicaram-se ao estudo de novas insulinas e de novos métodos de aplicação. Com esta terapia tem sido possível prolongar a vida das pessoas que têm diabetes, que em Portugal são, atualmente, mais de um milhão.

Desde a antiga civilização egípcia que há registo de uma doença com os sintomas da diabetes,1550 A. C., mas só em 1921 a insulina foi isolada em laboratório e em 1922 aplicada pela primeira vez a um diabético. Desde então é a principal substância no tratamento da doença, em tipo e quantidade adaptada às necessidades de cada doente.

Em Portugal, para as comemorações deste centenário, foram nomeadas duas comissões, a Comissão Executiva e a Comissão Nacional, constituídas por profissionais, instituições e sociedades que têm trabalhado no desenvolvimento e aplicação da insulinoterapia no tratamento da diabetes.

A Comissão Executiva das Comemorações do Centenário da Descoberta da Insulina tem um programa que prevê que ao longo de 2021, por todo o país, se realizem eventos evocativos da descoberta da insulina. Apesar da pandemia, é importante assinalar tão importante descoberta com homenagens e eventos dedicados a todos os investigadores e profissionais que se têm dedicado ao combate da diabetes.

A primeira iniciativa das comemorações é a exposição itinerante que foi inaugurada no dia 6 de janeiro de 2021, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, e ao longo deste ano poderá ser visitada em Coimbra, Porto, Funchal, Ponta Delgada e outras cidades, e ainda em linha.

Esta exposição assinala os marcos históricos do tratamento da diabetes, desde que há registos, até à descoberta da insulina. O Papiro de Ebers (1550 A.C.) é o documento mais antigo, no qual é descrita uma doença semelhante à diabetes, mas ao longo do tempo noutros documentos é referida a doença por investigadores e médicos. Susruta e Charuka constataram a existência de dois tipos de diabetes – em pessoas de meia idade e em pessoas magras que morriam precocemente; Avicena, autor de uma vasta enciclopédia médica, descreve a diabetes e refere duas das complicações da doença – a gangrena e o colapso da função sexual; Mattew Dobson foi o primeiro médico a provar que a diabetes é uma doença sistémica e não uma doença renal; Minkowsky e Von Mering demonstraram que o pâncreas é uma glândula de secreção interna importante na manutenção da homeostase da glicose e consideraram que é responsável pelo controlo metabólico; George Ludwig Zueler foi o primeiro a produzir, com sucesso, a partir de um pâncreas, uma preparação que eliminava a excreção do açúcar. Em 1923 o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina foi atribuído a Banting e Macleod pela descoberta da insulina, substância determinante no aumento da longevidade dos diabéticos. A cronologia detalhada pode ser consultada aqui.

Leonard Thompson foi o primeiro diabético a ser tratado, com sucesso, com insulina em 1922. A insulinoterapia passou a ser praticada depois da descoberta da insulina em 1921, por Frederick Banting e Charles Best, no laboratório do professor de fisiologia John J. R. MacLeod, durante experiências que tinham como objetivo o isolamento da secreção interna pancreática.

Ernesto Galeão Roma, médico português que durante uma especialização no Massachusettes General Hospital em 1921, conheceu na clínica Joslin, em Boston, a administração da insulina, para onde os seus descobridores tinham enviado os primeiros frascos da substância, de volta a Portugal passou a tratar os seus doentes com a insulinoterapia.

Este notável português, em 1926 foi precursor do movimento associativo internacional na luta contra a diabetes, ao criar a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal –  APDP com a ajuda financeira de pessoas da burguesia com diabetes, de pacientes e de amigos. Foi a primeira associação de diabéticos do mundo destinada a pessoas pobres com diabetes que, sem nenhuma assistência social, não tinham meios financeiros para aquisição de insulina.

Na APDP, a única clínica com pedagogia em diabetologia, a insulina era prescrita e fornecida a crianças e adultos pobres gratuitamente. Era frequente Ernesto Roma dar palestras na sala de espera da associação aos doentes, que aguardavam consulta, sobre dieta, cuidados podológicos, autocontrolo, etc.

A associação, além do seu caráter filantrópico, sempre prestou cuidados médicos a todas as pessoas com diabetes que se dirigissem à associação e, em paralelo, foi desenvolvido um trabalho de informação para a opinião pública sobre a doença e de sensibilização para a importância da integração dos diabéticos no mundo do trabalho.

A APDP apresentou, neste ano de comemoração dos 100 anos da descoberta da insulina, um manifesto ao Governo a propósito do combate à diabetes com os seguintes princípios e intenções:

  • Inovar para salvar – a descoberta da insulina há 100 anos foi uma das grandes descobertas da medicina no século XX no tratamento desta doença crónica, com elevado índice de mortalidade até ao descobrimento deste medicamento;
  • Educar para capacitar – o tratamento da diabetes depende do doente. A sensibilização para esta necessidade é assegurada pelos profissionais de saúde, que adequam ao conhecimento das pessoas a utilização de recursos que lhes permitam o auto tratamento adequado;
  • Adequar para melhorar – a prevenção das doenças crónicas, nas quais se encontra a diabetes, é fundamental para evitar ou retardar a doença e manter a sustentabilidade do sistema de saúde, pois são as doenças crónicas que mais consomem os recursos de saúde.

Os desafios principais no combate à diabetes são a redução do risco através da promoção da saúde a nível social, o diagnóstico precoce e a integração nos currículos escolares da educação de boas práticas para a saúde. Melhores resultados de saúde e bem-estar serão conseguidos com a participação integrada do sistema nacional de saúde, das autarquias locais e do movimento associativo para garantir o acesso aos cuidados de saúde com acompanhamento, vigilância, educação terapêutica e apoio psicológico.

Desde 1931 que a APDP tem um boletim que hoje se intitula “Diabetes – viver em equilíbrio”.

A Fundação Ernesto Roma foi criada em 2005 pela Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP). Instituição sem fins lucrativos, criada para homenagear o fundador da APDP, que tem como missão a pedagogia dos diabéticos na prevenção e adoção de boas práticas para lidarem com a doença e a formação contínua dos profissionais que dedicam o seu trabalho a estes doentes.

A diabetes é uma doença crónica que se caracteriza pelo aumento dos níveis de açúcar no sangue e pela incapacidade do organismo em processar toda a glicose proveniente dos alimentos. Atinge cada vez mais pessoas, e mais jovens, em todo o mundo. São mais propensos à doença os que têm familiares diretos com diabetes, homens e mulheres obesos, com tensão arterial alta, elevados níveis de colesterol, problemas de funcionamento do pâncreas, doenças endócrinas, mulheres que contraíram diabetes gestacional na gravidez e crianças com peso igual ou superior a 4 Kg à nascença.

A diabetes tipo 2 (não insulinodependentes) é a mais frequente (90% dos casos). Neste tipo da doença o pâncreas produz insulina, mas as células do organismo oferecem resistência à sua ação, o pâncreas é obrigado a trabalhar cada vez mais, até que a insulina produzida se torna insuficiente e o organismo tem dificuldade em absorver o açúcar proveniente dos alimentos. Este tipo de diabetes aparece normalmente na idade adulta e o seu tratamento, na maioria dos casos, consiste na adoção de uma dieta alimentar que normalize os níveis de açúcar no sangue e da prática regular de atividade física, ainda que em alguns casos seja necessária medicação.

A diabetes gestacional surge durante a gravidez e desaparece concluído o período de gestação. Apesar de passageira, é fundamental tomar medidas de precaução para evitar mais tarde diabetes do tipo 2.

A diabetes tipo 1 é mais rara. O pâncreas produz insulina em quantidade insuficiente e/ou qualidade deficiente. As células do organismo não têm capacidade para absorver, do sangue, o açúcar e que por isso é expelido na urina. Os doentes podem ter uma vida saudável e sem grandes limitações se seguirem o tratamento médico adequado – dieta alimentar, prática regular de exercício físico e o uso de insulina. Mais frequente em crianças e jovens, estes doentes precisam de terapêutica para toda a vida porque o pâncreas deixa de produzir insulina

O diagnóstico precoce é a única forma de controlar convenientemente a doença, o que significa manter saúde por mais tempo e poupar recursos médicos (hospitalizações e medicação).

À memorável descoberta da insulina no tratamento da diabetes, há que adicionar o envolvimento de todos pois, apesar de a doença continua a existir, é possível o sucesso do seu tratamento se for bem controlada com conhecimento e disciplina.

 

Rosália Dias Lourenço

Fontes:

Webgrafia (acedida em abril 2021):

Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal
Dia Mundial da Saúde – A diabetes e os cidadãos 100 anos depois da descoberta da insulina
Insulinoterapia
Uso adequado da insulina reduz complicações da diabetes
Insulina: uma revolução com 100 anos!
Exposição 100 Anos da Descoberta da Insulina
Fundação Ernesto Roma

 

Abril

Fonte:

 

Sabia que faz 30 anos que Portugal foi o País convidado da EUROPÁLIA 91?

A Europália constituiu um festival bianual de carácter internacional, na qual o país convidado apresentava, sob as mais diversas facetas, o seu património cultural. A maior parte das manifestações tinham lugar na Bélgica.

O Festival nascido após a Exposição Universal de Bruxelas em 1958, no contexto da integração europeia, vai buscar raízes etimológicas à festa que se realizava na Antiguidade Romana, aquando das colheitas para festejar a abundância, como refere Pedro Canavarro[1]. Assim, o Festival é a celebração da Europa, no qual se sucederam Itália, Holanda, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Bélgica, Grécia, Espanha e Áustria. Apenas em 1989 é convidado um país não europeu: o Japão.

Portugal foi o país convidado em 1991 na véspera da concretização do Mercado Único Europeu.

O Comissariado da Exposição EUROPÁLIA 91 – Portugal foi estabelecido pelo Decreto-lei 332-A/89, de 27 de setembro, no âmbito da Presidência do Conselho de Ministros. Este diploma determinou que a EUROPÁLIA 91 deveria visar a apresentação no “espaço privilegiado no contexto europeu como é a Bélgica, de uma imagem alargada dos valores culturais portugueses que têm circunstancialmente sido conhecidos através de aspetos sectoriais, veiculados, sobretudo, pelos fluxos da emigração e do turismo sazonal.”

Determinou ainda ser “particularmente oportuno que esta apresentação ocorra em 1991, véspera da concretização dos objetivos do Ato Único, uma vez que Portugal é um dos países de mais recente adesão às Comunidades Europeias e dos poucos que ainda não beneficiaram da apresentação europeia que as Europálias proporcionam”.

Ao Comissariado da Europália 91, assumido por Rui Vilar, foram conferidas competências, no âmbito da tutela da Presidência do Conselho de Ministros (PCM), de “preparação, organização e coordenação da representação portuguesa no referido Festival, em articulação com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, assegurando a respetiva participação de acordo com programa a aprovar pelo membro do Governo responsável pela área da cultura.”

Com o objetivo de divulgar a cultura portuguesa no estrangeiro as Grandes Opções do Plano (GOP) para 1990 consignam a preparação da Europália Portugal, enquanto manifestação a realizar-se na Bélgica em 1991.

A Europália 91 foi um palco de exposições dedicadas a Amadeo de Souza Cardoso, Vieira da Silva, Eduardo Viana. Julião Sarmento e Cabrita Reis foram também nomes presentes, entre outros. O barroco português foi vivificado na sua singularidade europeia em o Triunfo do Barroco.

José Mariano Gago assumiu o Programa Científico da Europália 91. O programa científico compreendeu a elaboração de um volume de síntese sobre a ciência em Portugal, bem como a realização da conferência internacional de ciência em Portugal.  Era objetivo da conferência promover a cooperação científica internacional em Portugal.

Ambas as obras Manifesto para a Ciência em Portugal e O Estado das Ciências em Portugal emergem no âmbito do programa científico da Europália.

O programa científico da Europália Portugal destacou não apenas o presente, mas também o passado de Portugal na evocação da sua História. A exposição de instrumentos científicos dos séculos XVIII e XIX provenientes do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra obteve um enorme sucesso. Uma visão transversal emergiu de objetos como O Equilibrista, instrumento de demonstração do centro de gravidade de um corpo revelando assim não só a dimensão estética mas a função científica daquele objeto.

Para lá da função de apresentação europeia a Europália 91 marcou a internacionalização da cultura portuguesa.

Poderá aceder e consultar mais informação sobre esta iniciativa na Biblioteca e no Arquivo de Ciência e Tecnologia da FCT.

 

Rafaela Rodrigues

 

[1] Pedro Canavarro, Arte Namban: Os Portugueses no Japão. Fundação Oriente: Lisboa, 1990.

 

Fontes:
Arquivo José Mariano Gago

Webgrafia (acedida em março de 2021):
Bruxelas, 11º edição da bienal de arte e cultura, Exposição Europália 91, dedicada a Portugal. Arquivos RTP.
Europália 91 / Expo 98. Arquivos RTP.

 

Março

Fonte: UNICEF Photo/UN0145554/Karin Schermbrucker.

 

Sabia que no passado dia 11 de fevereiro se comemorou o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência?

Este dia surge na sequência da aprovação da Agenda 2030 e dos 17 objetivos para o Desenvolvimento Sustentável, aprovados pela ONU em 2015 e cujas metas são para atingir até 2030. É proposto com base no objetivo 5 que visa a igualdade de género como um dos objetivos.

A ideia foi apresentada originalmente no “World Women’s Health and Development Forum” organizado pela Royal Academy of Science International Trust (RASIT) e pelo Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas (DESA) em fevereiro de 2015. Este dia viria a ser instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas a 22 de dezembro de 2015, pela resolução A/RES/70/212.

Este ano, o tema para a comemoração nas Nações Unidas foi 2021 Tema: Mulheres Cientistas na Vanguarda da Luta contra a COVID-19 e revelou diversos aspetos do papel das mulheres na Ciência, desde logo o seu papel enquanto investigadoras nos diferentes níveis da luta contra a doença, desde o avanço no seu conhecimento até à criação da própria vacina. Por outro lado, a pandemia também revelou algumas fragilidades sobre o exercício da investigação por parte das mulheres, sobretudo em início de carreira, uma vez que se verificou o aumento da lacuna de género revelando diferenças significativas sobre quem pratica ciência. Neste contexto, Ciência e Igualdade de Género são fundamentais para o cumprimento das metas de desenvolvimento acordadas no âmbito da Agenda 2030.

Segundo as Nações Unidas, atualmente menos de 30% dos investigadores em todo o mundo são mulheres. Por outro lado, apenas 30% das mulheres e raparigas alunas, selecionam áreas de investigação ligadas a Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (CTEM) no Ensino Superior, número longe da igualdade que se pretende.

Em Portugal, o Governo Português tem desenvolvido algumas iniciativas no sentido do combate à desigualdade de género, como por exemplo a publicação da Lei nº 26/2019 que estabelece o regime da representação equilibrada entre homens e mulheres no pessoal dirigente e nos órgãos da Administração Pública.

A grande preocupação tem sido uma crescente redução de participação de mulheres e raparigas em áreas de Tecnologia, Inovação e Ciência (TIC) e nas Engenharias que tem vindo a perder representação desde 1999, de 26% para 17,4% em 2009 e só em 2018 recupera para os 21%, ainda assim um número muito baixo. Para ajudar a combater esta tendência, desde 2017 que foi criado o projeto “Engenheiras por um dia”, dirigido a raparigas do 3º Ciclo e do Ensino Secundário e visa a partilha de conhecimentos, experiências e esclarecimento de dúvidas no sentido de valorizar e dar a conhecer o trabalho de mulheres profissionais nas áreas CTEM.[1]

É neste contexto que destacamos o papel de quatro mulheres investigadoras e cientistas, todas elas ligadas à FCT e onde desempenharam um papel preponderante.

Falamos de  Maria de Sousa (1939 – 2020), falecida em abril de 2020, vítima de COVID-19, era médica de formação e dedicou a sua vida à investigação na área da Imunologia primeiro no Reino Unido, onde se doutorou, e depois nos Estados Unidos. Em 1966 publica os resultados de uma descoberta referente à distribuição de linfócitos do timo (linfócitos T) nos órgãos linfóides de mamíferos e em 1971, descobre um mecanismo a que dá o nome de ecotaxis, termo proposto para designar a capacidade das células de diferentes origens migrarem e organizarem-se em áreas bem delineadas dos órgãos linfoides periféricos. Em 1984 regressa a Portugal para estudar a Hemocromatose, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, onde foi Professora Catedrática e após a sua jubilação, Professora Emérita. Foi membro do Conselho Consultivo da JNICT/FCT nas décadas de 80 e 90.

Lígia Amâncio, Professora Catedrática no ISCTE, desde 2018 Professora Emérita, é uma das primeiras investigadoras no estudo das questões de género em Portugal, tendo centrado o seu estudo nos processos de construção social do masculino e do feminino e das suas implicações para a discriminação baseada no género, sobretudo a integração de mulheres em profissões de destaque, ligadas por exemplo à política, ciência e medicina. Foi Vice-Presidente da FCT entre 2006 e 2012.

Maria Arménia Carrondo, Engenheira Química de formação, fez doutoramento em Londres em Cristalografia. Em 1988 ingressou no recém-criado Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa, onde foi Professora Catedrática, criou um grupo de pesquisa em Cristalografia e que viria a dar lugar à Unidade de Cristalografia Macromolecular do Laboratório de Genoma Estrutural, onde são realizados estudos de proteínas envolvidas em diversos processos biológicos, e que tem hoje o seu nome. Foi a primeira mulher Presidente da FCT, entre 2015 e 2016.

Helena Pereira, atual Presidente da FCT desde 2019 e Professora Catedrática no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, Engenheira Química de formação é doutorada pela Faculdade de Biologia da Universidade de Hamburgo, Alemanha. A sua área de investigação são as florestas, na área da biomassa, produtos florestais e biorefinarias e cujos resultados do seu trabalho estão publicados em revistas de referência. Dedicou-se ao estudo da cortiça e dos sobreiros procurando perceber a sua formação, a química e as suas propriedades. Foi Vice-Presidente da FCT entre 2017 e 2019.

Quatro mulheres que representam e homenageiam tantas outras. O Arquivo de Ciência e Tecnologia é detentor de um acervo onde poderá encontrar muito do trabalho desenvolvido por estas mulheres, enquanto investigadoras e enquanto gestoras de ciência.

Suzana Oliveira

 

[1] Informação consultada no site da Secretaria-Geral da Educação e Ciência (em linha, fevereiro 2021)

 

Fontes:
Arquivo da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT)
Arquivo da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)

Webgrafia (acedida em fevereiro de 2021):
Ciência Viva – Mulheres na Ciência (cienciaviva.pt)
Eurocid: Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência 2021
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
Secretaria – Geral da Educação e Ciência
Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género: Workshops Engenheiras por um dia

Fevereiro

Fonte: Observador, 13 de novembro de 2020.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) é uma das agências especializadas da ONU. É a autoridade diretora e coordenadora em saúde internacional que na Assembleia Mundial da Saúde, que se realiza anualmente em Genebra, Suíça, decide sobre as iniciativas que o Conselho Executivo tem de assegurar. Esta entidade conta desde janeiro de 2021 com mais um português, o professor catedrático Rogério Gaspar.

Desde a criação da OMS, em 1948, que se tem vindo a coordenar esforços internacionais para a erradicação de doenças com o desenvolvimento de medicamentos e vacinas, validados por comités de cientistas e especialistas em padronização biológica, educação interprofissional e prática colaborativa.

Em reconhecimento à dedicação, ao compromisso e ao sacrifício extremo dos milhões de trabalhadores da saúde e cuidadores que têm estado na linha da frente da pandemia COVID-19, os estados membros da 73ª Assembleia Mundial de Saúde designaram, por unanimidade, 2021 Ano Internacional dos Trabalhadores de Saúde e Cuidadores como forma de elogiar o seu trabalho, salientar as suas difíceis condições de trabalho e recomendar mais investimento para melhorar os sistemas de saúde.

Os profissionais da saúde e os cuidadores são todos os que contribuem para o suporte e concretização das atividades de cura da doença e de bem-estar. É com a sua entrega e dedicação que asseguram o funcionamento dos sistemas de saúde e a proteção dos que se encontram em situação de urgência sanitária.

A OMS pretende com esta iniciativa exortar os estados membros, e as instituições financeiras internacionais, a promoverem iniciativas concertadas para a educação e formação dos profissionais de saúde e cuidadores na gestão da pandemia COVID-19; a manutenção dos sistemas públicos de saúde; e o desenvolvimento de vacinas.

Nesta decisão da OMS foram reforçadas as necessidades de cumprimento do Código de Prática Global para Recrutamento Internacional de Saúde; formação de todos os profissionais de saúde e cuidadores com materiais educativos e informativos; e ações que articulem a comunicação pública com a divulgação científica.

Os riscos de contágio exigem a partilha interinstitucional para aumento da segurança de pacientes e de todos os que lhes prestam cuidados diretos e indiretos. A sensibilização para a mudança de comportamentos é um dos muitos contributos para a ajuda recíproca entre os profissionais de saúde e cuidadores e a comunidade em geral.

Sempre foi importante zelar pelo bem-estar destes trabalhadores, mas agora, mais do que nunca, já que são dos que mais sofrem as consequências da enorme e prolongada pressão causada pela pandemia, é necessário responder às suas necessidades com medidas concretas na proteção da sua saúde.

Mais do que elogios e aplausos são necessárias iniciativas que reforcem os sistemas de saúde com melhores e mais seguras condições de trabalho.

Entre os vários responsáveis da OMS está, desde janeiro de 2021, o professor catedrático Rogério Gaspar, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e Presidente do Conselho desta escola.

Rogério Gaspar foi nomeado, pela OMS, Diretor do Departamento de Regulação e Pré-qualificação, unidade responsável pela avaliação de medicamentos e vacinas de combate à COVID-19 que serão distribuídos nos países em desenvolvimento. Ao longo da sua carreira já participou e supervisionou projetos similares de combate à doença em países da Europa, África, Ásia e América.

De entre os muitos cargos que ocupou, este português foi Presidente do Infarmed e membro do Conselho de Administração da EMA (Agência Europeia de Medicamentos), organismo da União Europeia com responsabilidade científica na avaliação, supervisão e segurança dos medicamentos desenvolvidos por laboratórios farmacêuticos dos países da UE. Na Universidade de Lisboa foi Vice-Reitor e Pró-Reitor e responsável pela área de Investigação e Desenvolvimento, Empreendedorismo e Transferência de Conhecimento. Foi ainda Vice-Presidente da European Federation of Pharmaceutical Sciences, Coordenador da European Science for Health e Presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências Farmacêuticas.

No Arquivo de Ciência e Tecnologia encontram-se disponíveis para consulta os  processos de financiamento nos quais o Professor Rogério Gaspar interveio, essencialmente durante a década de 90, como responsável pela formação em teses de investigação científica e na qualidade de investigador responsável no âmbito do Programa STRIDE (Science and Technology for Regional Innovation and Development) e do Programa Base de Investigação Científica e Tecnológica do Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial.

Para o seu doutoramento em Ciências Farmacêuticas, na Universidade Católica de Louvan, Bélgica, foi-lhe atribuída pela JNICT uma bolsa para investigação científica cujo processo de financiamento também se encontra no Arquivo da FCT.

 

Rosália Lourenço

 

Fontes:
Arquivo da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT)
Arquivo da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)

Webgrafia (acedida em janeiro de 2021):
Sistema da ONU – Nações Unidas – ONU Portugal (unric.org)
2021 designated as the International Year of Health and Care Workers (who.int)
OMS/Europe | Événements et manifestations – 2021, Année internationale des travailleurs de la santé et des soins (who.int)
Rogério Gaspar na Organização Mundial de Saúde (ulisboa.pt)

 

 

Janeiro

Legenda: Folheto do Curso de História da Civilização (1930-31). Universidade Popular Portuguesa. Arquivo Luís Ernani Dias Amado.

Em 1919, a 27 de abril, era inaugurada a Universidade Popular Portuguesa por um grupo de intelectuais da época [1], dos quais se destaca Ferreira de Macedo,  o seu principal impulsionador.

Instalada na Cooperativa Padaria do Povo, em Campo de Ourique, destinava-se a um público adulto, composto por cidadãos de qualquer profissão ou estatuto social e não se tratava de “um centro de investigação científica, mas somente um centro de difusão de conhecimentos e de cultura espiritual entre o povo”. [2]

Devido à sua atividade, ainda em 1919, a 10 de maio, o Governo de então declara a Universidade Popular Portuguesa como instituição de utilidade nacional (Decreto nº 5781) e é lhe atribuído um “subsídio mensal de 400$00 destinado ao desenvolvimento da sua biblioteca, dos seus programas cinematográficos educativos e publicações de vulgarização”.

A Universidade Popular Portuguesa funcionou entre 1919 e 1950, data da sua extinção formal, e foi marcada pelos acontecimentos sociais e políticos, destacando-se a sua atividade principalmente durante a década de 1920. Foi lugar agregador de intervenções e participações de notáveis da época, assim como de trabalhadores e operários, a quem se destinava a sua atuação, que fazendo parte da sua estrutura orgânica ou apenas colaboradores, dinamizaram a ideia de Educação Popular, e que deu nome à Revista que viria a ser publicada pela Instituição.

A Universidade Popular Portuguesa não foi caso único. Antes da sua fundação antecederam-lhe, a Academia de Estudos Livres (1889-1914) e a Universidade Livre (1912-1927) [3] em Lisboa e entre 1912 e 1915 as Universidades Populares do Porto, Póvoa do Varzim, Vila Real e Coimbra.

As Universidades Populares aparecem no âmbito dos ideais republicanos cuja ideia foi importada de França e tinha como objetivo o ensino, a educação e Instrução Popular [4]. A forma de intervenção destas Universidades baseava-se na apresentação de Cursos Livres, Palestras, Conferências, Visitas de Estudo e, no caso da UPP, Sessões Cinematográficas, entre outras.

A sua atuação depressa se disseminou entre a classe operária lisboeta e em 1921, entre janeiro e maio, abriram-se as três primeiras “Secções” da UPP, nomeadamente na Associação da Classe dos Caixeiros de Lisboa, na Associação dos Corticeiros no Barreiro e na Associação do Pessoal do Arsenal do Exército. Até 1925 abriram-se mais Secções, chegando a ser onze, nomeadamente no Sindicato Único das Classes Metalúrgicas, Sindicato dos Operários Chapeleiros, Construção Civil de Belém, Associação de Trabalhadores do Mar em Setúbal, Sindicato Único da Construção Civil e Metalúrgica do Alto do Pina e Sindicato dos Chauffeurs. (BANDEIRA: 1994, Vol. I, 71)

Ainda em 1921, a imagem da UPP consolida-se em torno do pressuposto de ser um estabelecimento de ensino moderno e que apesar de não resultar de uma iniciativa operária é destinada aos trabalhadores, onde não se falam de fenómenos incompreensíveis pela erudição científica, tem sim o seu propósito de fornecer sínteses numa linguagem acessível utilizando a leitura e a projeção cinematográfica como elementos ilustrativos dos assuntos abordados. (BANDEIRA: 1994, Vol. I, 81)

No biénio 1923/1924 a Universidade enfrenta a sua primeira crise devido à falta de financiamento do Estado, mantendo apenas em funcionamento a sua biblioteca, mas retomaria a sua atividade no biénio seguinte, inclusive com a abertura de novas Secções.

No biénio 1926/1927, a sua atividade reduz-se novamente devido à conjuntura política e social da época e em 1928, Bento de Jesus Caraça, eleito presidente da UPP, procura promover a sua reativação reorganizando a sua biblioteca e nomeando um novo Conselho Pedagógico. Novos cursos são apresentados e estruturados para os biénios seguintes.

Em 1931, Bento de Jesus Caraça profere uma conferência sobre “Universidades Populares e Cultura” onde procura esclarecer o papel da Universidade Popular Portuguesa como forma de eliminar o conceito de cultura de elite e cultura popular, sendo a cultura única, humana e revolucionária.

Em 1933 a Universidade Popular Portuguesa era tolerada pelo Estado Novo, mas cada vez com menor linha de atuação, uma vez que, e como escreveria em Julho de 1934 José Carlos Sousa “pena é que a crise económica sirva de pretexto para se não aumentar a população associativa da nossa Instituição com o ingresso de novos associados, os quais não podendo ou não querendo dar a cota insignificante de Esc. 2$50 por mês, não regateiam, muitos deles, pagar rios de dinheiro por um lugar num espetáculo embrutecedor de boxe ou tourada, esquecidos que devem  à sua dignidade de ser humano e à sociedade”. (BANDEIRA: 1994, Vol. II, 156)

Devido à sua diminuição de atividade, em 1950 os responsáveis à época pronunciam-se pela sua extinção, através de uma comissão liquidatária, conforme consta dos seus estatutos, entre eles está Ferreira de Macedo.

O Arquivo de Ciência e Tecnologia conserva alguma documentação sobre a Universidade Popular Portuguesa no Arquivo de Luís Ernani Dias Amado, colega e amigo pessoal de Bento de Jesus Caraça.

 

Suzana Oliveira

 

[1] Entre eles, Faria de Vasconcelos, Câmara Reis, João Camoesas, Emílio Costa, Adolfo Lima, António Sérgio, Raul Proença, entre outros.
[2] (Faria de Vasconcelos, em Educação Popular 1921). http://pages.ie.uminho.pt/inved/index.php/ie/article/view/15/15
[3] BANDEIRA, Filomena: 1994 – A universidade popular portuguesa nos anos 20, os intelectuais e a educação do povo: entre a salvação da república e a revolução social, Lisboa, Dissertação de Mestrado, FCSH – Universidade Nova de Lisboa, Vol I, p.33. Em linha.
[4] Faria de Vasconcelos, em Educação Popular 1921. Em linha.

 

Fontes:

Arquivo de Ciência e Tecnologia: Arquivo Luís Ernani Dias Amado

Vasconcelos, Faria de (1921): “O que deve ser a Universidade Popular Portuguesa”. In Educação Popular. Investigar em Educação, IIª Série, número 1, 2014. Artigo em linha.

Bandeira, Filomena (1994): “A Universidade Popular Portuguesa nos anos 20, os intelectuais e a educação do povo: Entre a salvação da República e a Revolução Social”. Dissertação de Mestrado em História dos Séculos XIX e XX. FCSH – UNL, Vol. I e Vol. II. Em linha.

Pombo, Olga (s.d.): “Universidade Popular Portuguesa”. Artigo em linha.

Webgrafia (acedida em dezembro de 2020):
Arquivo Casa Comum da Fundação Mário Soares: Arquivo Bento de Jesus Caraça.
Arquivo Histórico – Social (U. Évora), Projeto Mosca.
Universidade Popular Portuguesa

 

Dezembro

Cartaz de divulgação do concurso para atribuição de bolsas de estudo para bolsas de estudo para os EUA, pela Comissão Cultural Luso-Americana, 1968. Arquivo Comissão Fulbright.

A 19 de março de 2020 cumpriram-se 60 anos de criação da Comissão Cultural Luso-Americana – Comissão Fulbright em Portugal ao abrigo de um Acordo de Cooperação firmado entre os governos de Portugal e dos EUA. Desde então, a Comissão Fulbright tem vindo a organizar e dinamizar intercâmbios nos domínios da educação, do ensino e da investigação científica, promovendo e incentivando o intercâmbio cultural entre os dois Estados.

O Programa Fulbright surge nos Estados Unidos da América, por proposta de J. William Fulbright (1905-1995) que, no final da II Guerra Mundial, propôs que a venda de materiais de guerra, excedentes no exterior, fosse usada para financiar programas de intercâmbio de alunos e professores entre os EUA e outros países. O esquema foi posteriormente apoiado por doações do governo dos Estados Unidos. Nascia assim a Public Law 584 ou Fulbright Act, a 01 de agosto de 1946,  assinada pelo Presidente Harry Truman.

Ao longo dos anos, os créditos resultantes da venda de bens foram diminuindo e ao mesmo tempo o Programa alargava o seu campo de atuação, pelo que foi necessário elaborar novas estratégias de financiamento e aprovar legislação suplementar, como foi o caso da Public Law 87-256, de setembro de 1961, assinada pelo Presidente J. F. Kennedy e proposta pelo senador J. William Fulbright e pelo democrata Wayne L. Hays. Estes diplomas vieram consolidar a legislação anterior e dar uma nova dimensão ao Programa, em particular através da promoção de estudos americanos noutros países e de estudos de outros países e línguas estrangeiras nos EUA.

Este programa ficou conhecido à época como o Programa Fulbright-Hays e visava contribuir para a compreensão mútua entre os Estados Estrangeiros e os EUA, através da atribuição de bolsas e subsídios, com o intuito de intercâmbio educativo e cultural, designadamente ao nível do ensino superior, investigação e estudos pós-graduados.

É neste contexto que é assinado o acordo para a cooperação científica e educacional, a 19 de março de 1960, entre o embaixador dos EUA em Portugal [1] e o ministro dos Negócios Estrangeiros português [2], sob a designação de Comissão Cultural Luso – Americana – Comissão Fulbright.

Com a assinatura deste acordo, a Comissão Fulbright aprovou estatutos que se mantiveram sem alteração, tendo desenvolvido desde então atividade regular, mas sem existência legal, uma vez que o processo não foi formalizado com publicação em Diário da República, apenas adquirindo estatuto jurídico reconhecido em 2015.

Porém, a Comissão tem existência jurídica de facto, tendo-lhe sido concedidos vários estatutos especiais pelo Governo Português, nomeadamente: em 1982 passa a ser considerada Instituição de Interesse Público para o Desenvolvimento Industrial do País; em 1984 é nomeada membro Honorário da Ordem do Infante Dom Henrique; e, em 1998, a Comissão Cultural Luso – Americana é autorizada a beneficiar do regime de franquias aduaneiras para efeitos de importação de objetos.

A 13 de julho de 2015 (Decreto n.º12/2015), um novo Acordo é publicado em Diário da República, sendo desencadeados os procedimentos para a publicação de novos estatutos. “Este acordo permitirá dotar a Comissão Fulbright de um enquadramento jurídico atualizado, contribuindo assim para prossecução da sua atividade e para o reforço da cooperação nas áreas da educação e ciência entre os dois Estados.”

A Comissão Fulbright tem por missão fomentar o entendimento mútuo entre Portugal e os EUA através de:

  1. Oferta de oportunidades de intercâmbio de professores, investigadores e estudantes, com base no mérito;
  2. Disponibilização de orientação à informação de qualidade sobre os sistemas de ensino dos dois países;
  3. Organização de iniciativas que potenciem a partilha de conhecimento.

Realiza também atividades para a promoção do conhecimento e do debate científico, económico e social, como palestras e as conferências Fulbright Brainstorms.

O financiamento do Programa Fulbright é garantido pelos governos americano e português, e adicionalmente, por parcerias com instituições como o Camões IP e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, instituições de ensino superior e o sector privado, que possibilitam a atribuição de um maior número de bolsas Fulbright.

O Programa Fulbright é considerado um instrumento da diplomacia cultural, fundamental na política externa dos EUA, gozando de direitos e privilégios que têm contribuído, juntamente com os seus objetivos e com a qualidade dos indivíduos e instituições envolvidas, para o seu prestígio internacional.

O Programa Fulbright está presente em 49 países, sendo administrado pelo Bureau of Educational and Cultural Affairs do Departamento de Estado dos EUA em todo o mundo, num total de 160 países, apoiado pelo Institute of International Education, que auxilia as Comissões Fulbright na administração dos seus programas.

Por este Programa passaram portugueses de mérito reconhecido, tais como: Eduardo P. Arantes de Oliveira; Eduardo C. Marçal Grilo; Rui F. Vieira Nery; António Manuel Seixas Sampaio da Nóvoa; Carlos Alberto Corujo de Magalhães Alves (Zingaro), entre outros.

O Arquivo da Comissão Fulbright está depositado no Arquivo de Ciência e Tecnologia e pode ser consultado em linha aqui.

 

Suzana Oliveira

 

[1] C. Burke Elbrick (janeiro de 1959 e agosto de 1963)
[2] Marcello  Mathias, ministro (14 agosto de 1958 e 4 de maio de 1961)

 

Fontes:
Arquivo de Ciência e Tecnologia: Arquivo da Comissão Cultural Luso – Americana – Comissão Fulbright [PT/FULB/FULB]

Webgrafia (acedida em novembro de 2020):
Comissão Fulbright Portugal
Embaixada dos Estados Unidos da América em Portugal
Wikipédia

 

 

Novembro

Foto do Programa «Falatório», em 1997, apresentado por Clara Ferreira Alves, sobre a internet. Com a participação de José Mariano Gago.

Foi há quase 25 anos, em abril de 1997, que foi aprovado o Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal. E assim se apresentava: «Este é provavelmente o primeiro texto político em Portugal cuja construção pôde ser permanentemente seguida, observada e comentada na Internet e em múltiplas reuniões abertas especializadas».

O Livro Verde contempla um conjunto de medidas para a promoção do desenvolvimento da Sociedade de informação. Estruturado em 11 pilares, constituem eixos fundamentais o sistema de ensino, as bibliotecas públicas e o Estado Aberto. Uma iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia, criado dois anos antes, em 1995, pela mão de José Mariano Gago.

A publicação do Livro Verde deu grande impulso à implementação do Programa Internet nas Escolas, iniciado no ano anterior, com o objetivo de equipar estabelecimentos escolares e qualificar professores, alargando o acesso à Internet em bibliotecas municipais, museus e arquivos e sublinhando que seria “com o objetivo de proporcionar uma estreita colaboração entre as comunidades académica, científica e cultural no contexto da sociedade de informação”.

Das medidas previstas para o acesso democratizado à Sociedade da Informação e ao combate à desigualdade, constituem meios privilegiados de atuação o sistema de ensino, para todos os que estudam, bem como a rede de bibliotecas públicas, para todos os que já estão afastados do sistema de ensino.

O principal impulsionador das medidas de política para a construção da Sociedade de Informação, Mariano Gago, reforça a ideia e dirá numa entrevista uns anos mais tarde [1]: «O [programa] Ciência Viva e a internet nas escolas ajudaram muito a consolidação do campo das ciências em grandes camadas da sociedade».

Também em março de 1997, o programa “Falatório” aborda a Internet como tema. Num tempo em que a maioria desconhecia a internet e desconfiava da ideia de Sociedade de Informação. Moderado por Clara Ferreira Alves, são intervenientes José Mariano Gago, José Alberto Carvalho, José Magalhães e José Fontainhas.

O Livro Verde, editado em 1997, revelou ser visionário permanecendo largamente atual e só em 2006 houve necessidade de proceder à sua revisão.

Um legado de mais de duas décadas que desencadeou a criação de meios e infraestruturas para atravessar a situação atual que vivemos, não deixando de estar em curso para que a sociedade da informação seja uma sociedade para todos.

A Biblioteca da Fundação para a Ciência e Tecnologia tem disponível para consulta o Livro Verde, assim como parte do Arquivo José Mariano Gago, que pode ser consultado em linha.

 

[1] Análise Social, 215, I (2º), 2015.

 

Fontes:

Arquivo de Ciência e Tecnologia: Espólio Mariano Gago [PT/FCT/EMG].

João de Pina Cabral (2011): «Entrevista a José Mariano Gago» in: «Análise Social» nº 200 – 3º trimestre, Vol. XLVI.

Rita Baptista (2019), “O Livro Verde que resultou num plano de acção para a acessibilidade na Internet”, in Público: 2 de Janeiro de 2019

Livro Verde para a Sociedade de Informação em Portugal. Missão para a Sociedade da Informação. Ministério da Ciência e da Tecnologia: Lisboa, 1997.

 

Outubro

Legenda: António Sobral Mendes de Magalhães Ramalho. Diretor-geral do INII entre 1959 e 1969. Ver imagem no formato original.

O espaço Factos & Curiosidades deste mês é dedicado à história do percurso profissional de um homem cuja carreira se fundiu com a instituição que ajudou a erguer.

Figura ímpar, no contexto do Estado Novo, inovador e fomentador do progresso e da modernidade foi o primeiro diretor do Instituto Nacional de Investigação Industrial e assim permaneceu durante dez anos até 1969.

Afastado da direção, por seguir uma corrente de inovação que era contrária à regra vigente, que privilegiava e premiava uma alternativa menos agitante, a sua saúde fragilizou-se poucos anos depois e faleceu em 1972.

O INII foi o seu maior empreendimento, ao qual se dedicou com a missão de colocar a investigação ao serviço da industrialização. Reconhecido por quem com ele colaborou pelas suas qualidades humanas e de liderança visionária, foi um defensor e impulsionador da formação dos técnicos como forma de colmatar a carência que se verificava na investigação.

Foi sob a sua iniciativa que se realizou o II Congresso dos Economistas e da Indústria Portuguesa, que decorreu entre 26 de maio e 1 de junho de 1957. Evento considerado marcante na política económica portuguesa pelas mudanças que daí advieram, influenciadas pelas suas conclusões.

Enquanto diretor do Instituto integrou a Câmara Corporativa, em representação dos institutos de investigação científica.

António Sobral Mendes de Magalhães Ramalho nasceu em Lamego a 19 de setembro de 1907. Frequentou o Liceu Camões entre 1918 e 1925, onde terminou o curso dos liceus com distinção. Licenciou-se em Engenharia Mecânica, no Instituto Superior Técnico em 1931 e no ano seguinte em Engenharia Eletrotécnica.

O Arquivo de Ciência e Tecnologia da FCT elaborou a sua biografia, que convidamos a ler e a conhecer também a instituição de investigação industrial da qual foi presidente pelo Registo de Autoridade Arquivística do INII.

Fontes:

Ramalho, Margarida de Magalhães – António de Magalhães Ramalho: fundador do INII e pioneiro da investigação industrial. Lisboa: Editora By The Book, Edições Especiais, 2014. ISBN 978-989-8614-13-1.

Arquivo de Ciência e Tecnologia. Arquivo do Instituto Nacional de Investigação Industrial.

Catarina Cândido

 

 

Setembro

Imagem do enocntro anual “Ciência”. Ver imagem no formato original.

O Encontro com a Ciência e Tecnologia em Portugal acontece através do evento anual Ciência que se realiza habitualmente no mês de julho, e, embora com algumas interrupções, desde o ano de 2008 (ou 2007, como veremos mais à frente).

Trata-se de uma iniciativa que tem como principal objetivo promover a exposição pública da ciência que se faz em Portugal, reunir a comunidade científica e estimular o diálogo entre cientistas e gestores de ciência, fomentando assim a colaboração entre instituições científicas e outras entidades públicas e privadas, abrindo caminho para novas colaborações e parcerias.

Este ano, devido à Pandemia COVID-19 provocada pelo vírus SARS-CoV-2, o evento foi adiado, cumprindo-se assim as medidas excecionais decretadas pelo Governo para conter o surto. A realização está agora prevista para os dias 2, 3 e 4 de novembro de 2020.

Iniciamos agora uma espécie de viagem de regresso ao passado, na qual procuraremos fazer uma breve síntese do percurso da realização do evento e dar conta de alguns momentos e números marcantes. Vamos pois falar sobre o maior evento de ciência realizado em Portugal.

A primeira edição do evento aconteceu em 2008, à data organizado e promovido pelos Laboratórios Associados e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, cujo Ministro era então José Mariano Gago (1948 – 2015).

A Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) abria portas a 2 dias dedicados ao fazer ciência em Portugal, focados nos cientistas portugueses e nas instituições de ciência em Portugal, contando com comunicações inseridas em diferentes áreas científicas. Pela atualidade das temáticas, destacamos os painéis dedicados a: “Doenças Emergentes e Alterações Climáticas”, “Fogos Florestais – Problemática Científica”, “Oceanos, Recursos Marinhos e Biodiversidade”. De Norte a Sul do país, investigadores e gestores de várias instituições científicas rumaram a Lisboa para participar no encontro anual de Ciência. O evento decorria com sessões em simultâneo e era transmitido em direto via internet, graças à Fundação para a Computação Científica Nacional (FCCN).

Em 2007, porém, a FCG já havia recebido o evento “Ciência em Portugal – Ciência 2007- Encontro com os Laboratórios Associados”. Um evento embrionário, passe a expressão, que apenas por alguns é considerado como a primeira edição do Ciência.

O formato da programação assemelhava-se à edição que se seguiu, em 2008, todavia, em 2007 o evento era – como o próprio nome indica – um encontro com os laboratórios associados; talvez este seja o marco diferenciador que faz com que não seja consensual a adjetivação de primeiro. Aconteceu em abril, nos dias 12 e 13, – outro ponto diferenciador – e encerrou com um conjunto de atividades de divulgação de ciência promovidas pelos Centros Ciência Viva, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.

Em 2009, ainda com a pasta da Ciência nas mãos do ministro José Mariano Gago, a organização e a promoção do evento foi da responsabilidade do Conselho dos Laboratórios Associados, em colaboração com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, através da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

O objetivo primordial que teve na génese do evento mantinha-se e a notoriedade do Ciência crescia, naturalmente, com a participação ativa da comunidade científica. Os avanços científicos e tecnológicos eram a base fulcral do debate e áreas como a das novas terapias celulares, células estaminais, nanotecnologia, organismos geneticamente modificados, novos materiais para novos produtos, transferência e comercialização de tecnologia, cidadania e segurança, entre outros, preenchiam as sessões que decorriam no evento. Reuniram-se instituições públicas e privadas, através da participação de empresas e foi assinado o “Protocolo – Criação do Consórcio em Sistemas de Engenharia no âmbito do Programa MIT|Portugal”.

O evento voltou a realizar-se em julho de 2010, de 4 a 7, com as mesmas entidades responsáveis pela sua organização e acrescentando a colaboração da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica – Ciência Viva. A casa do Ciência  passava a ser o Centro de Congressos de Lisboa, tal como acontece até aos dias de hoje.

Em 2010, o programa das sessões contou com a participação de mais de 60 empresas e mais de 150 instituições de investigação, cerca de 400 estudantes também registaram a sua participação com a apresentação de “posters” e, pela primeira vez, o evento contava com a contribuição de alguns convidados de outros países. O evento crescia, em número e notoriedade, abria-se ao público em geral – querendo que a ciência chegasse a todos – e merecia cada mais destaque e reconhecimento no seio da comunidade e na imprensa nacional.

Na mensagem de apresentação do evento, José Mariano Gago, que mantinha a pasta da Ciência, reiterava os objetivos da iniciativa anual e lançava o desafio de se debater o futuro da ciência em Portugal. Afirmou então: «Para tanto, há que clarificar e debater, área a área, as estratégias emergentes, capazes de fazer surgir as melhores ideias e as melhores lideranças, capazes de juntar pessoas, recursos e instituições, realismo e prospetiva, gerações, ensino e investigação, indústria e ciência, cultura, tecnologia e ciência.» Mariano Gago era, tal como já havia habituado a sua comunidade e um “fazedor de pontes”.

Os temas em agenda eram inúmeros. Porque à data mereceram destaque, identificamos alguns dos eixos temáticos que marcaram presença: a mobilidade elétrica, a nanotecnologia, o estudo das células estaminais, a robótica, ou até mesmo o genoma do sobreiro.

Após a edição de 2010 deu-se um interregno que durou até 2016. Desde então, o evento Ciência tem acontecido anualmente, em julho, no Centro de Congressos de Lisboa.

O regresso do encontro anual da comunidade científica – Ciência 2016- contou com uma forte adesão: cerca de 5000 participantes inscritos, 200 entidades presentes, mais de 300 oradores, 7 sessões plenárias e mais de 50 apresentações, entre as quais do Arquivo de Ciência e Tecnologia da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (tal como veio a suceder nos anos seguintes).

O evento contou com Carlos Salema como Comissário e foi organizado, uma vez mais, pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia em colaboração com a Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, envolvendo também a Academia das Ciências de Lisboa e a Comissão Parlamentar de Educação e Ciência.

O então ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, na sua longa intervenção de abertura do Ciência 2016,  apresentava a prioridade do seu Ministério para o ano que se seguia: «… instituir um enquadramento indispensável ao reforço da atividade de investigação derivada pela curiosidade académica (i.e., “Frontier Research”), juntamente com o reforço da atividade de investigação baseada na prática (“Practice-based Research”) e em estreita colaboração com o tecido produtivo, social e cultural, assegurando um cenário de estabilidade ao financiamento de projetos e atividades de I&D…».

O evento que no seu último dia (6 de julho), em muito se ligou à temática “memória, identidade e construção do futuro”, simbolicamente e logo na sua abertura, contou com uma homenagem feita a investigadores que se distinguiram na atividade científica e/ou na participação cívica (iniciativa que veio depois a repetir-se nas edições seguintes). Foram atribuídas medalhas de mérito do MCTES a nomes sonantes como: Arsélio Pato de Carvalho, João Sentieiro, Miriam Halpern Pereira, Nuno Portas, entre outros. Homenageado foi também, ao longo de todo o evento e nas mais variadas esferas e áreas do conhecimento, o cientista e antigo Ministro da Ciência, José Mariano Gago, falecido no ano anterior.

António Costa, à época já primeiro-ministro, afirmou o seguinte no seu discurso: «Este encontro é absolutamente essencial no futuro do nosso desenvolvimento. Assenta nas qualificações e na inovação, na modernização do Estado e do tecido empresarial. (…) Para acrescentar valor é preciso investir no conhecimento. (…) É muito importante que a ciência volte a estar no centro das nossas preocupações.»

Em 2016 comemoraram-se os 20 anos da Ciência Viva em Portugal e em 2017 comemoraram-se os 50 anos da criação da emblemática Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) e os 20 anos da Fundação para a Ciência a Tecnologia (FCT).

O Ciência 2017,comissariado por Luís Magalhães, reiterou o seu propósito de promover o encontro de investigadores, de juntar outros sectores e atores da sociedade em geral à comunidade científica, e de estimular o debate dos principais temas e desafios da agenda científica. Pela primeira vez, houve um “País Convidado”: a Índia.

O programa apresentou-se através de 14 agendas temáticas de investigação e inovação, da Iniciativa Nacional Competências Digitais 2030, temas complementares e outros programas estruturantes. Por questões de economia de espaço no presente artigo, sugere-se a consulta do “Programa Global” publicado no sítio web do evento.

Alexandra Marques foi a Comissária do Ciência 2018 e a África do Sul o país convidado. Mantendo-se a missão das edições anteriores e contando com as mesmas entidades responsáveis pela organização, o evento apresentou-se estruturado em sessões, procurando estimular o debate sobre a conceção do futuro 9º Programa Quadro Europeu para a Investigação e Inovação, 2021-2028.

António Costa, primeiro-ministro, marcou mais uma vez presença e voltou a assinalar a importância da  Ciência no Desenvolvimento do país. No seu discurso destacou as 3 metas fundamentais para o país na área da inovação: «Atingir um nível de investimento de 3% do PIB em I&D; Apostar na qualificação dos nossos recursos humanos, sendo nosso objetivo alcançar uma participação no ensino superior na ordem dos 60% entre os jovens com 20 anos (atualmente, 40%) e de 50% no segmento entre os 30-34 anos (que é hoje de 35%); E, na área das competências digitais, pretendemos que em 2030 nove em cada dez portugueses sejam utilizadores da internet.» (3 de julho de 2018; publicação na página oficial António Costa PM, no Instagram).

O Centro de Congressos de Lisboa abriu as portas à comunidade científica e ao público em geral e a adesão foi notória. Em permanência estiveram cerca de 30 expositores, com o objetivo de fazer apresentações. Investigadores (e alguns robôs) mostraram alguma da inovação feita no país, em diversas áreas científicas.

A edição de 2018 foi também marcada por alguma contestação levada a cabo pelo movimento “precários da ciência”, que reclamaram entre outras exigências, a dignificação da “carreira científica”.

O impacto do grande Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários da Administração Pública (PREVPAP), levado a cabo pelo XXI Governo Constitucional, com reflexo em inúmeros sectores  de atividade em Portugal, também se refletiu nas instituições de ciência e na comunidade científica. E foi ainda nestes contextos político e social internos que a última edição do evento (2019) levou António Costa a assumir no seu discurso de abertura: «Os resultados do programa de regularização de precários na administração pública, apesar de terem cumprido os objetivos ao nível das carreiras gerais, não resolveram os problemas nas de investigação e docência.» (Publicado no jornal Público, a 8 de julho de 2019).

Com o Brexit a marcar os contextos político e social externos, o Reino Unido foi, curiosamente, o país convidado do Ciência 2019. Convergir, cooperar e fazer ciência além fronteiras continuou a ser uma meta da política científica nacional.

Zita Martins foi a Comissária desta edição, cujo ano foi marcado por diversas celebrações científicas, conforme foi escrito na mensagem de apresentação do evento publicada no seu sítio web: «… 100 anos da expedição de Arthur Eddington a São Tomé e Príncipe, 100 anos da União Astronómica Internacional (IAU), 50 anos da primeira aterragem do homem na Lua, 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães, e 150 anos da criação da Tabela Periódica dos Elementos Químicos, tendo as Nações Unidas e a UNESCO declarado que 2019 seria o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos.»

2020 fica marcado na História pelo surgimento de mais uma pandemia mundial e consequentemente pelo reconhecimento da importância do fazer ciência e investigação, como forma de compreender causas e encontrar respostas e soluções.

É nesta nova realidade que de 2 a 4 de novembro, está previsto que o Centro de Congressos de Lisboa volte a abrir as suas portas à Ciência, aos cientistas e a todos os cidadãos.

Para a elaboração deste artigo foi fundamental a infraestrutura Arquivo.pt, a partir da qual foi possível consultar os sítios web criados para as edições de 2008 a 2010 do evento. Igualmente muito relevante foi a colaboração do Gabinete de Comunicação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Fica por isso o nosso agradecimento a ambas a estruturas.

Cátia Matias Trindade

 

Fontes consultadas (em linha em agosto de 2020):

Sítio web do Conselho dos Laboratórios Associados
Sítio web do Ciência 2008
Sítio web do Ciência 2009
Sítio web do Ciência 2010
Sítio web do Ciência 2016
Sítio web do Ciência 2017
Sítio web do Ciência 2018
Sítio web do Ciência 2019
Sítio web do Ciência 2020
Instagram: página oficial de António Costa PM
Notícia RTP, 6 de julho de 2019
Notícia Público, 8 de julho de 2019

 

 

Agosto

Arquivo de Ciência e Tecnologia da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Ver imagem no formato original.

Quem nos lê desse lado? Quem são os nossos utilizadores?

Nos últimos meses fomos obrigados a ficar em casa e a relação com os nossos utilizadores passou a fazer-se apenas online. Os pedidos de consulta ao Arquivo da FCT deixaram de ser presenciais e passaram a ser feitos à distância.

Apesar de sempre termos respondido a muitos pedidos de forma digital, sentimos falta da azáfama das pesquisas no arquivo físico e da recompensa imediata do dever cumprido. O contacto direto com quem nos procura permite-nos também ser úteis na ajuda à exploração de outras áreas, que podem complementar a pesquisa inicial, além de criarmos laços profissionais que se mantém durante anos.

Determinados em comunicar de uma forma mais eficaz com quem nos procura e em cumprir a nossa missão da melhor forma, nestas novas circunstâncias, procurámos conhecer através dos dados registados durante o acesso aos nossos sites, que páginas foram mais procuradas e que pesquisas foram feitas no inventário.

Desde março que tivemos mais de quatro mil e duzentos visitantes, na sua maioria novos utilizadores, que acederam através de um motor de busca na internet. Os acessos feitos diretamente na página estão logo em segundo lugar. A maioria dos visitantes fê-lo em Portugal, na zona da grande Lisboa, sendo o Porto a segunda cidade com mais acessos. Os países que se destacam também pela origem de novos visitantes são os Estados Unidos e o Brasil.

As pesquisas no inventário, que se destacaram nestes últimos meses, foram feitas nos fundos da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Os visitantes do site procuraram as páginas “Acervo documental”, “Registos de Autoridade arquivística”, “Documentos técnicos e normativos”, “Biografias” e os “Factos e curiosidades”.

Certos de que ainda temos muito trabalho a fazer e a melhorar, nomeadamente na digitalização de alguns fundos, para que o acesso possa ser ainda mais facilitado ficamos satisfeitos por continuar a ser úteis a quem nos procura.

Contamos estar de volta presencialmente em setembro, até lá continuamos online e contactáveis pelo e-mail arquivo@fct.pt. Boas férias!

Catarina Cândido

 

Julho

Legenda: Maria Velho da Costa. Imagem publicada na página do Centro Nacional de Cultura

Maria de Fátima Bívar Velho da Costa (Sedas Nunes), escritora consagrada com uma vida dedicada à literatura, nas suas palavras “um elemento fundamental da minha existência”, diversas vezes premiada e condecorada, a última das quais a 25 de abril de 2011 com a Ordem da Liberdade, alta distinção para “serviços prestados em defesa dos valores da Civilização, em prol da dignificação da Pessoa Humana e à causa da Liberdade”. Nasceu e viveu em Lisboa, onde faleceu no passado mês de maio. Faria a 26 de junho 82 anos.

Autora de uma obra literária notável, que inclui poesia e teatro, colaborou também com o cinema, nomeadamente na escrita e adaptação de argumentos para cineastas como João César Monteiro, Alberto Seixas Santos e Margarida Gil.

Durante os primeiros anos de criação literária, Maria Velho da Costa era também funcionária do Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII) onde trabalhou de 1970 até 1978, “durante muitos anos a vida era escrita no fim-de-semana ou ao fim de dia”, revela em entrevista dada ao jornal Público em 2013. Durante este período equilibrou uma vida profissional intensa no INII com a sua criação artística. Em 1972 publicou um ensaio sobre os manuais escolares na época de Salazar, com o nome Maria de Fátima Bívar, «Ensino Primário e Ideologia», no mesmo ano, juntamente com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno (sua colega no INII), publicaram «Novas Cartas Portuguesas», livro que daria origem a um processo judicial que ficou conhecido pelo caso das Três Marias e que terminou em 1974 com a absolvição das escritoras. No ano seguinte, em 1973, um conjunto de escritos vários e contos, intitulado «Desescrita», «Revolução e Mulheres» em 1975, «Cravo» em 1976 e «Casas Pardas» em 1977, pelo qual venceu o Prémio Cidade de Lisboa.

Da sua atividade no INII é conhecida a sua participação em atividades de investigação em Ciências Humanas Aplicadas à Indústria, promovidas pelo Serviço de Produtividade do INII. Nesse âmbito, Maria Velho da Costa explica na entrevista que dá ao jornal Público em 2013, que participou num estudo em que entrevistou e recolheu os depoimentos de trabalhadores oriundos da indústria, internados no Hospital Miguel Bombarda com o diagnóstico de doença mental.  A análise das referidas entrevistas resultou numa publicação com o título «Português; Trabalhador; Doente Mental», publicado em 1976 pela editora Seara Nova – Temas e Debates. Neste livro estão reunidas as entrevistas que fez, entre 1972 e 1974, no âmbito do seu curso de Grupo-Análise da Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria, a doentes do hospital Miguel Bombarda. A análise das referidas entrevistas levou-a  a refletir sobre a função social e política dos hospitais psiquiátricos e escreve “«O meu estar ali sempre foi determinado pela percepção inicial de que aquele era um dos lugares onde a sociedade escondia e punia os seus membros atingidos do maior mal – a incapacidade de vender a sua força de trabalho, a incapacidade de conformar-se aos valores ideológicos que a classe dominante lhes impunha: trabalho alienante, troca de afectos pobre, resignação […]”[1].

A partir de 1978 Maria Velho da Costa segue um novo percurso profissional e sai do INII, a experiência que leva do seu trabalho no Hospital Miguel Bombarda acompanha-a na criação de novas personagens nos seus romances, como afirmam os estudiosos da sua obra, dando como exemplo a personagem Maria Isaura no romance «Lucialima» de 1983.

Publicou o seu último romance «Myra», em 2008, pelo qual recebeu os prémios P.E.N. Clube Português, Prémio Máxima da Literatura, Prémio Correntes de Escrita e Grande Prémio de Literatura do Grupo DST em 2010.

Foi casada com Adérito Sedas Nunes, Presidente da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (1976/77).

 

                                                                                               Catarina Cândido

 

Fontes:

Escrever é lutar – Entrevista biográfica a Maria Velho da Costa

Novas Cartas Portuguesas: 40 anos depois

“Maria Velho da Costa Uma flor no deserto”, entrevista à autora conduzida por Tiago Bartolomeu Costa, com fotografias de Rui Gaudêncio, publicada no caderno 2 do Jornal Público no dia 13 de janeiro de 2013.

Documentário “Fátima de A a Z”, de Margarida Gil, sobre Maria Velho da Costa.

VELHO DA COSTA, Maria de Fátima Bívar, Português, Trabalhador, Doente Mental, Lisboa, Seara Nova, coleção Temas actuais, 1976.

[1] Maria de Fátima Bívar Velho da Costa, Português, Trabalhador, Doente Mental, op. cit

Junho

Legenda: Fernando Roldão Dias Agudo: «Sobre um Teorema de Kakeya»; in Gazeta de Matemática, Ano XIII, nº 53, dezembro de 1952, pp. 1-2. Ver imagem no formato original.

 

Em 1947, Fernando Roldão Dias Agudo, matemático, engenheiro e especialista em álgebra linear recebe o Prémio Nacional Francisco Gomes Teixeira, pelo desenvolvimento da sua tese de licenciatura “Sobre um Teorema de Kakeya”, trabalho publicado na Gazeta de Matemática em dezembro de 1952.

A criação deste prémio surge em 1939, por Portaria do Ministério da Educação Nacional, na qual é criado o “Prémio Nacional Doutor Francisco Gomes Teixeira” em homenagem ao ilustre matemático Francisco Gomes Teixeira (1851-1933), cuja obra contribuiu fortemente para o progresso das ciências exatas em Portugal.

Francisco Gomes Teixeira foi um importante e reconhecido professor e investigador em Matemática. Lecionou Matemática na Universidade de Coimbra, terminando com classificação máxima e, ainda durante o curso, escreveu o seu primeiro trabalho publicado na imprensa da Universidade, em 1871. Com uma brilhante carreira na vida académica e científica, relacionou-se com alguns dos mais destacados matemáticos de renome mundial da sua época, e publicou trabalhos em periódicos científicos de vários países. Em Portugal era considerado um sábio, tendo recebido vários prémios. Nos últimos anos do seu trabalho dedicou-se à História da Matemática em Portugal, tendo elaborado uma obra de referência para os estudiosos das ciências em Portugal, a História das Matemáticas em Portugal.

Voltemos ao prémio com o nome deste reconhecido matemático português. Na génese da portaria de 1939 está a Lei 1941, de 11 de abril de 1936, publicada pelo Ministério da Instrução Pública (que vê aqui alterado o seu nome para Ministério da Educação Nacional), que na sua base VII, prevê a “concessão de prémios nacionais aos melhores estudantes do ensino superior, para ao mesmo tempo se consagrarem professores que hajam sido exemplo de devoção ao ensino e ao bem comum e relevantemente contribuíram para o progresso das ciências”.

No texto do Regulamento (publicado a 2 de abril de 1941) é dito que o prémio é conferido mediante concurso “ao melhor trabalho de matemáticas puras elaborado em cada ano letivo por um aluno de qualquer estabelecimento de ensino universitário em que elas sejam professadas”, para alunos até aos 25 anos tendo os candidatos, para além de profundos conhecimentos na área da matemática, serem detentores de “irrepreensível conduta escolar e cívica”. O júri é composto pelo presidente da Junta Nacional da Educação e por dois professores de matemática de cada uma das Faculdades de Ciências, designados pelo Conselho da respetiva Faculdade.

Diz a Gazeta de Matemática: “A criação deste prémio tem grande interesse para o movimento matemático português porque ele é susceptível de criar uma atmosfera de emulação entre escolas superiores, em que as matemáticas puras são professadas, encorajando os estudantes na realização de trabalhos de investigação e estimulando os professores das mesmas escolas a fomentarem a realização dêsses trabalhos.”

Nos 2 anos seguintes à publicação do regulamento é referido pela mesma gazeta que terá aparecido apenas um concorrente com um trabalho que não seria de “matemáticas puras”. Em 1943, António Monteiro refere mesmo porque é que “não se tenha ainda criado uma atmosfera de interêsse pelo Prémio Gomes Teixeira?” e ainda “O superior interesse da cultura matemática portuguesa exige que lhe seja prestada a atenção que merece”.

O Prémio Gomes Teixeira foi atribuído pela primeira vez apenas em 1945 “destinado a um trabalho de matemática digno de ser galardoado por essa alta distinção científica”. O júri atribui-o por unanimidade a Fernando Soares David, licenciado em matemáticas pela Universidade do Porto, que recebe o prémio com um trabalho intitulado “Sobre a Comutabilidade de Operadores com Espectros contínuos”, publicado no n.º 50 de 1951 da Gazeta de Matemática, número publicado por ocasião da Comemoração do Centenário do Nascimento do Professor Doutor Francisco Gomes Teixeira.

Em 1947, o Prémio Nacional Gomes Teixeira foi atribuído ao ainda jovem estudante do Curso de Matemática da Faculdade de Ciências de Lisboa, Fernando Roldão Dias Agudo, pelo trabalho “Sobre um Teorema de Kakeya“, partindo de um problema lançado pelo matemático japonês Soichi Kakeya em 1917. O trabalho viria a ser publicado em 1952 na prestigiada publicação com a qual Dias Agudo colaborava desde 1948, a Gazeta de Matemática, que já tinha referido “Lastimamos porém não se ter dado há mais a publicidade devida a tão importante acontecimento da vida universitária portuguesa e admiramo-nos bastante por este facto ter passado desapercebido do nosso, infelizmente tão restricto, meio matemático.”

Ambos os trabalhos foram também publicados na Mathematical Reviews, em 1956 e 1953, respetivamente.

Dias Agudo, para além de matemático, engenheiro, especialista em álgebra linear e geometria analítica e professor universitário foi também administrador público de ciência, tendo sido presidente da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) entre 1974 e 1976, período conturbado em que teve a difícil tarefa de manter a instituição unida e em funcionamento numa altura de desbravar novos modelos de governação nem sempre convergentes. Em 1977 lança-se num novo desafio, entrando no Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC) instituição da qual foi presidente entre setembro de 1980 e dezembro de 1983. Mantendo-se fiel defensor da investigação científica nas universidades, consolida a missão e a existência do INIC.

Desde sempre ligado à Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), colabora e participa nas mais diversas atividades, como por exemplo, no encontro «O futuro da investigação da matemática em Portugal», realizado em Coimbra, a 21 de outubro de 1983.

Ainda em vida, Dias Agudo, doou ao Arquivo de Ciência e Tecnologia parte do seu espólio pessoal, onde podemos encontrar documentação relativa ao período em que dirigiu estas duas importantes instituições de gestão e política de ciência e onde ficamos a conhecer mais da brilhante carreira deste professor e cientista. Dias Agudo faleceu o ano passado, a 23 de fevereiro de 2019, aos 93 anos de vida.

Em termos de reconhecimento e mérito científico a Matemática conta, desde 1936, com a atribuição de um conceituado prémio, o Medalha Fields, concedido a matemáticos com menos de 40 anos e referido por muitos como “o Nobel da Matemática” pelo facto de Alfred Nobel não ter incluído esta categoria na importante distinção Nobel. Apesar do prémio Medalhas Fields ter sido criado com um conjunto de regras específicas, a grande diferença é que o primeiro procura premiar jovens e promissores matemáticos e o Nobel tem em conta a carreira do premiado.

Paula Meireles

 

Webgrafia (acedida em maio de 2020):

Arquivo de Ciência e Tecnologia
Arquivo.pt
Sociedade Portuguesa de Matemática
Gazeta de matemática (vários números)
Instituto Camões 
Teixeira, Francisco Gomes. História das Matemáticas em Portugal

Maio

Legenda: Maria de Sousa a ser entrevistada nas Jornadas Nacionais de Investigação Científica e Tecnológica, no Fórum Picoas, em Lisboa, no ano de 1987. Fotografia existente no Arquivo de Ciência e Tecnologia da  FCT.

Cientista, imunologista, médica, professora universitária, mas também escritora e humanista, Maria de Sousa é inequivocamente uma referência marcante da Ciência em Portugal e uma referência internacional na área da Imunologia.

Após terminar a licenciatura em Medicina na Faculdade de Medicina de Lisboa, optou por não seguir a carreira médica em Portugal e foi viver para Londres. Com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para fazer investigação no laboratório Experimental Biology no Imperial Cancer Research Fund em Mill Hill, em 1964 era praticamente a única jovem bolseira estrangeira.

Foi neste laboratório que fez as suas descobertas sobre a distribuição dos linfócitos T nos órgãos linfoides de mamíferos e publicou o relato das descobertas em revistas científicas internacionais. A investigação de Maria de Sousa veio redefinir a compreensão que se tinha da estrutura básica do sistema imunológico.

As suas descobertas estão documentadas e firmadas nos livros de Imunologia. O seu percurso é sobejamente conhecido, assim como o seu percurso geográfico. Cidadã do mundo, depois de viver em Londres seguiu para Glasgow, Nova Iorque, Lisboa depois Porto e, por fim, novamente Lisboa.

A opção de se dedicar a uma carreira de investigação foi explicada numa entrevista dada a Maria Fernanda Rollo, em que partilhou as suas memórias no contexto do projeto “Memória para Todos”. Disse então “o que me vai impressionar sempre é o que não se sabe”; esta procura persistente do conhecimento e a curiosidade eram os seus pilares, assim como a capacidade de continuar a ouvir a criança que tinha dentro de si e continuar a fazer perguntas. E eram exatamente as perguntas, as dúvidas e o desconhecimento que faziam brotar em si uma insatisfação permanente, querendo sempre alcançar mais respostas e mais saber.

A arte acompanhou-a sempre, mesmo quando optou pela licenciatura em Medicina e deixou o curso de piano no Conservatório Nacional. “A arte aproxima-nos da Ciência”, e “a melhor Ciência tem que ter o toque da poesia, que é com uma enorme economia de forma ir à substância”, nas suas palavras.

Tinha a poesia dentro de si e optava por se exprimir em inglês quando a escrevia. Queremos deixar neste espaço um poema seu, que ilustra a relação que para ela existia entre a ciência e a poesia.

“Poets open doors with words, scientists with questions.

Poems last forever.

Scientific answers last only to the next closed door.”

Este poema termina a entrevista que deu a IoavCabantchik em junho de 2018, publicada na página da FCT no dia 14 de abril de 2020.

Para além do legado científico e literário, Maria de Sousa deixou ainda outro: o pedagógico. Há uma geração de cientistas portugueses que são como que extensões de Maria de Sousa. Maria Manuel Mota, diretora do Instituto de Medicina Molecular, laboratório que criou os kits de testes de diagnóstico ao novo coronavírus feitos em Portugal e que estão já a ser produzidos, é um exemplo entre muitos outros.

Foi uma das impulsionadoras da ciência e do desenvolvimento do sistema científico nacional e foi uma das impulsionadoras da criação de um dos primeiros mestrados de Portugal: o Programa Graduado em Áreas da Biologia Básica e Aplicada (GABBA, na sigla em inglês), em 1996, na Universidade do Porto.

À data de criação do programa, em 1996, era José Mariano Gago (1948 – 2015) o Ministro da Ciência e Tecnologia e a Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), antecessora da FCT, a entidade financiadora do Programa. No Arquivo de Ciência e Tecnologia da FCT pode consultar-se documentação relativa a este programa de apoio, que é considerado uma das mais inovadoras e bem-sucedidas experiências de ensino pós-graduado em Portugal, tendo permitido a centenas de investigadores fazerem o doutoramento.

Na jubilação como Professora Catedrática do ICBAS, em outubro de 2009, deu uma última aula no Salão Nobre da Reitoria e  deixou como trabalho de casa as seguintes mensagens “em Ciência, como na Fórmula1, nada se faz sem ser em equipa; são todas as pessoas que trabalham e não se sabe quem são” […]”, “o maior investimento tem de ser na Educação” e, por fim, “quando se vai, só se leva o que se deixa, mas por outro lado [só] se deixa a quem queira ter a amabilidade de receber”.

O seu espólio pessoal foi doado por si mesma à Câmara de Cascais para integração na Casa Reynaldo dos Santos, na Parede, com o propósito de ser tratado e disponibilizado num espaço dedicado à ciência e aos cientistas. “Porque a ciência faz-se pelo conhecimento e não para se ser lembrado” (Maria de Sousa).

Esta forma distinta como deixa a sua marca tem por certo que ver com as características humanas que muitos lhe reconhecem. Teve uma existência pautada por descobertas, rigor e exigência, não perdendo nunca a empatia pelo próximo e a preocupação que demonstrava ter pelos outros.

Com simplicidade, o Arquivo de Ciência e Tecnologia homenageia Maria de Sousa neste mês de maio, não esquecendo também a generosidade com que apoiou a abertura ao público do Arquivo, estando presente na sua inauguração, no dia 16 de dezembro de 2011. Destacamos algumas datas, ditos e feitos sem a pretensão de esgotar ou sequer tocar toda a sua vida e obra.

Como Maria de Sousa escreveu no seu último poema, poucos dias antes de morrer vítima de Covid-19, “momentos então, eternidades agora”.

Obrigada, Maria de Sousa! Que a comunidade saiba receber o que deixou e que as eternidades de agora o possam ser também de futuro.

Catarina Cândido & Cátia Matias Trindade 

Abril

Legenda: Louis Pasteur. Imagem retirada da página web do Institut Pasteur.

Abril de 2020. O mundo enfrenta um inimigo invisível que nos obriga a refletir, a redefinir prioridades e a alterar hábitos que julgávamos garantidos. Não é a primeira vez que a humanidade enfrenta uma pandemia à escala mundial, os nossos antepassados foram também eles vítimas de outras pandemias e provações. Tal como eles, somos desafiados a ser destemidos e resilientes para vencer mais esta batalha.

É nestes momentos que louvamos o trabalho de médicos e investigadores que dedicam a sua vida a encontrar a cura e a salvar vidas. Enquanto serviço que promove a preservação e a divulgação do conhecimento, honremos a memória daqueles que no passado contribuíram com o seu trabalho e nos deixaram esse legado.

Recordamos, por isso, o médico, professor e investigador Augusto Celestino da Costa (Lisboa, 16 de Abril de 1884 — Lisboa, 27 de Março de 1956), de quem o Arquivo de Ciência e Tecnologia guarda uma parte do seu arquivo pessoal e também Louis Pasteur (Dole, 27 de dezembro de 1822 – Marnes-la-Coquette, 28 de setembro de 1895) um homem que revolucionou a história da humanidade com as suas notáveis descobertas.

Encontrámos no arquivo pessoal de Celestino da Costa um documento que nos prendeu a atenção e nos impeliu a recordar o contributo que Pasteur nos deixou.

O documento que vos convidamos a descobrir este mês é o discurso datilografado, que Augusto Celestino da Costa proferiu na Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, enquanto seu presidente, na cerimónia de homenagem a Louis Pasteur, por altura do cinquentenário da sua morte.

Neste discurso, Celestino da Costa enaltece uma das mais maravilhosas vidas de que pode honrar-se a história”, relembra-nos a inspiração que foi a sua doutrina para outros, nomeadamente para Câmara Pestana, na criação da Bacteriologia em Portugal, assim como a renovação da Epidemiologia, que em Portugal, Ricardo Jorge “ilustrou esse capítulo da higiene” com a descoberta da epidemia de peste bubónica no Porto em 1899 e que vitimou Câmara Pestana.

Terminamos dando destaque a estas palavras de Celestino da Costa sobre Pasteur, desvendou o mistério do contágio e da infeção […] Milhões de vidas se salvaram pelo seu génio. Incontáveis sofrimentos se atenuaram ou suprimiram e a esperança nasceu sólida e confiante de nos tempos seguintes se debelarem os males que ainda resistiram aos primeiros embates das descobertas pastorianas […]”na expectativa, de que 75 anos depois de terem sido proferidas, nos possam trazer esperança de que tudo vai ficar bem.

Catarina Cândido

Março

Legenda: Imagem retirada do sítio web da ESA.

Neste espaço dedicado à divulgação do Arquivo da FCT, relembramos o início da preparação da adesão de Portugal à Agência Espacial Europeia (ESA) em 1989. «A ESA representou para Portugal o principal portal de acesso ao espaço, constituindo-se para todos os efeitos, como a nossa Agência Espacial». Portugal tornou-se membro a 14 de novembro de 2000.

O espaço sideral foi sempre motivo de encantamento para o Homem, visto da Terra, um céu escuro, tem sido desde os primórdios da humanidade motivo de fascínio. O sonho de chegar ao espaço foi-se tornando realidade à medida que os avanços tecnológicos o permitiram alcançar. A antiga crença de que quem dominasse os mares dominava a Terra, deu lugar ao facto de que quem dominasse os ares, conquistaria também a Terra.

Portugal compreendeu que as atividades espaciais e em particular as concretizadas pela ESA eram de grande relevância, nomeadamente pela possibilidade dos centros de investigação e empresas portuguesas poderem vir a ser fornecedores ou subcontratantes na produção de equipamentos espaciais, o que traria desenvolvimento científico e tecnológico ao país.

Em 1989 foi criado no âmbito da Secretaria de Estado da Ciência e da Tecnologia, através do despacho conjunto dos ministros da Defesa Nacional, do Planeamento e da Administração do Território, dos Negócios Estrangeiros, da Industria e da Energia e das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, um grupo de trabalho com o objetivo de conduzir as negociações da adesão. A presidência estava entregue à Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), sendo o presidente Carlos Eduardo da Costa Salema o representante que presidiu ao grupo de trabalho. Atualmente a representação de Portugal ao nível do Conselho está entregue à Fundação Para a Ciência e a Tecnologia (FCT), sob a dependência do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Na perspetiva da União Europeia acredita-se que o Espaço é facilitador de uma maior competitividade da economia da UE, com o apelo ao aumento do investimento comunitário na investigação e inovação relacionadas com o espaço.

O trabalho realizado no final dos anos 80 início de 2000, serviu de base para que Portugal desse um novo passo em 2019 com a criação da Agência Espacial Portuguesa – Portugal Space, sediada na ilha de Santa Maria, nos Açores.

Catarina Cândido & Helena Baltazar

Fevereiro

Legenda: Luís Ernani Dias Amado. Imagem retirada do blog Almanaque Republicano.
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Em fevereiro dedicamos este espaço à memória de uma importante figura da oposição ao Estado Novo. Recordamos Luís Ernani Dias Amado (1900 – 1981), nascido a 19 de janeiro de 1901 na freguesia de S. Paulo em Lisboa. Médico, histologista, analista, investigador e professor catedrático na Faculdade de Medicina de Lisboa, muito ativo politicamente desde jovem, foi um dos fundadores e dirigente da Liga da Mocidade Republicana e da União Socialista e empenhou-se ativamente no Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) e no Movimento de Unidade Democrática (MUD).

Detido várias vezes pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), mais tarde PIDE, esteve preso em isolamento na cadeia do Aljube. Em 1947, na grande depuração política de intelectuais, cientistas e universitários oposicionistas do regime foi demitido compulsivamente da Faculdade de Medicina de Lisboa e destituído do cargo de Chefe de Serviços de Análises Clínicas dos Hospitais Civis de Lisboa. Seria reintegrado em 1975, simbolicamente, aos 74 anos como Professor Catedrático na mesma Faculdade.

Voltou a ser preso pela PIDE em 1961, na sequência de ter sido um dos signatários do «Programa para a Democratização da República» com data de 31 de janeiro de 1961, documento elaborado pela Acção Democrato-Social com a colaboração da Resistência Republicana, subscrito por 62 personalidades da oposição republicana e socialista.

Parte do seu arquivo pessoal foi doado ao Arquivo de Ciência e Tecnologia, pela sua filha Luísa Irene Dias Amado, também ela ativista política na luta antifascista. Através dos documentos do seu Arquivo ficamos a conhecer as duas facetas públicas deste homem, a sua atividade profissional e também a sua atividade política de oposição ao Estado Novo. Comprovam-no, alguns dos processos conservados no ACT, como o processo judicial onde se destacam dois recortes do jornal «República», de 23 e 28 de outubro de 1964 relativos ao “julgamento político” de Dias Amado no Tribunal Plenário da Boa-Hora, em Lisboa, «acusado de actividades subversivas» (sic) e à leitura da sentença, «após cerca de um ano de detenção». Os recortes foram rasurados pelos «Serviços de Censura», antes de receberem o visto de “autorizado com cortes”.

Catarina Cândido

 

Fonte consultada (disponível para consulta no Arquivo de Ciência e Tecnologia da FCT):
Arquivo Luís Ernani Dias Amado: PT/FCT/LEDA
Webgrafia:
Acedido em janeiro de 2020; Fundação Mário Soares
Acedido em janeiro de 2020; Casa comum

 

Janeiro

Legenda; Imagem do depósito de arquivo do ACT.
Ver imagem no formato original.

O ano em revista do Arquivo de Ciência e Tecnologia é o mote que propomos para a rúbrica Factos e curiosidades do primeiro mês de 2020. Vamos contabilizar, assinalar e comunicar aquilo que foi feito pela equipa do ACT, de janeiro a dezembro de 2019, nas suas grandes áreas de atuação: tratamento e disponibilização de arquivo histórico, gestão do arquivo intermédio e arquivo corrente.

É missão do ACT o tratamento e a disponibilização do arquivo histórico à guarda da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Para o efeito, a equipa de técnicos especialistas em Ciências da Informação e da Documentação, desenvolveu ao longo do ano de 2019 várias ações de reacondicionamento, higienização e descrição arquivística em aplicação informática normalizada, tendo sido criados cerca de 2 mil registos.

Focada na importância de disponibilização de documentação para consulta, a equipa do ACT recebeu e deu resposta a pedidos de requisição externa – na sua maior parte para fins académicos, necessários no âmbito da realização de trabalhos científicos –, e a pedidos de requisição interna – de natureza vária, como por exemplo, para emissão de segunda via de documento, para consulta e apoio no âmbito de processos em curso, para contagem de tempo de serviço para efeitos de cálculo de pensão, entre outros.

Os arquivos mais consultados foram os da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), do Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC), da Junta de Energia Nuclear (JEN), do Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII), da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e do médico e cientista Luís Ernani Dias Amado.

Destacamos no contexto das requisições internas, que, maioritariamente, disponibilizámos arquivo para a satisfação de interesses e necessidades do cidadão. Também o tempo médio de resposta superou as expectativas planeadas pelo ACT, sendo em média de 2 dias após a receção do pedido.

Outra área de atuação do ACT que mereceu uma forte aposta no ano de 2019 foi a implementação e monitorização de um novo sistema eletrónico para a gestão de documentos e processos em ambiente digital. Este é um projeto que visa promover a desmaterialização e, simultaneamente, a simplificação dos processos de negócio. O ano de 2020 será determinante para a prossecução deste projeto. Interoperabilidade, partilha de informação, centralização, reutilização, recuperação, disseminação e preservação da informação, são temas a tratar e que necessariamente irão levar a novos projetos na instituição. Um caminho necessário para a constituição de um Arquivo Digital, para salvaguarda da nossa história e memória coletiva.

No decorrer do ano passado, o Arquivo de Ciência e Tecnologia assinalou datas comemorativas e participou em eventos com o objetivo de dar a conhecer e promover os acervos documentais à guarda da FCT, bem como a missão, trabalhos realizados e trabalhos em curso. A comunicação daquilo que existe no ACT e do que este Arquivo se propõe fazer tem merecido a melhor atenção por parte da equipa.

Destaca-se a participação no evento de ciência anual, o CIÊNCIA 2019, encontro que tem como principal objetivo estimular a participação e a interação entre investigadores e público em geral; a organização de uma iniciativa de troca de livros nas instalações da FCT, para assinalar o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, comemorado em abril; a visita da turma de mestrado em Comunicação da Ciência, da FCSH-UNL, no âmbito do seminário «Ciência e Sociedade»; a realização de uma pequena mostra comemorativa para assinalar os 8 anos de atividade do ACT, cumpridos a 16 de dezembro, em género de Conta-me como foi na JNICT.

Para 2020 o objetivo mantem-se: tratar e preservar a informação produzida pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia no exercício da sua atividade, assim como promover, divulgar e permitir o acesso ao acervo documental depositado no Arquivo de Ciência e Tecnologia.

 

Cátia Matias Trindade