Factos e curiosidades

Ano de 2020

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Agosto

Legenda: Arquivo de Ciência e Tecnologia da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
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Quem nos lê desse lado? Quem são os nossos utilizadores?

Nos últimos meses fomos obrigados a ficar em casa e a relação com os nossos utilizadores passou a fazer-se apenas online. Os pedidos de consulta ao Arquivo da FCT deixaram de ser presenciais e passaram a ser feitos à distância.

Apesar de sempre termos respondido a muitos pedidos de forma digital, sentimos falta da azáfama das pesquisas no arquivo físico e da recompensa imediata do dever cumprido. O contacto direto com quem nos procura permite-nos também ser úteis na ajuda à exploração de outras áreas, que podem complementar a pesquisa inicial, além de criarmos laços profissionais que se mantém durante anos.

Determinados em comunicar de uma forma mais eficaz com quem nos procura e em cumprir a nossa missão da melhor forma, nestas novas circunstâncias, procurámos conhecer através dos dados registados durante o acesso aos nossos sites, que páginas foram mais procuradas e que pesquisas foram feitas no inventário.

Desde março que tivemos mais de quatro mil e duzentos visitantes, na sua maioria novos utilizadores, que acederam através de um motor de busca na internet. Os acessos feitos diretamente na página estão logo em segundo lugar. A maioria dos visitantes fê-lo em Portugal, na zona da grande Lisboa, sendo o Porto a segunda cidade com mais acessos. Os países que se destacam também pela origem de novos visitantes são os Estados Unidos e o Brasil.

As pesquisas no inventário, que se destacaram nestes últimos meses, foram feitas nos fundos da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Os visitantes do site procuraram as páginas “Acervo documental”, “Registos de Autoridade arquivística”, “Documentos técnicos e normativos”, “Biografias” e os “Factos e curiosidades”.

Certos de que ainda temos muito trabalho a fazer e a melhorar, nomeadamente na digitalização de alguns fundos, para que o acesso possa ser ainda mais facilitado ficamos satisfeitos por continuar a ser úteis a quem nos procura.

Contamos estar de volta presencialmente em setembro, até lá continuamos online e contactáveis pelo e-mail arquivo@fct.pt. Boas férias!

Catarina Cândido

Julho

Legenda: Maria Velho da Costa. Imagem publicada na página web do Centro Nacional de Cultura
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Maria de Fátima Bívar Velho da Costa (Sedas Nunes), escritora consagrada com uma vida dedicada à literatura, nas suas palavras “um elemento fundamental da minha existência”, diversas vezes premiada e condecorada, a última das quais a 25 de abril de 2011 com a Ordem da Liberdade, alta distinção para “serviços prestados em defesa dos valores da Civilização, em prol da dignificação da Pessoa Humana e à causa da Liberdade”. Nasceu e viveu em Lisboa, onde faleceu no passado mês de maio. Faria a 26 de junho 82 anos.

Autora de uma obra literária notável, que inclui poesia e teatro, colaborou também com o cinema, nomeadamente na escrita e adaptação de argumentos para cineastas como João César Monteiro, Alberto Seixas Santos e Margarida Gil.

Durante os primeiros anos de criação literária, Maria Velho da Costa era também funcionária do Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII) onde trabalhou de 1970 até 1978, “durante muitos anos a vida era escrita no fim-de-semana ou ao fim de dia”, revela em entrevista dada ao jornal Público em 2013. Durante este período equilibrou uma vida profissional intensa no INII com a sua criação artística. Em 1972 publicou um ensaio sobre os manuais escolares na época de Salazar, com o nome Maria de Fátima Bívar, «Ensino Primário e Ideologia», no mesmo ano, juntamente com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno (sua colega no INII), publicaram «Novas Cartas Portuguesas», livro que daria origem a um processo judicial que ficou conhecido pelo caso das Três Marias e que terminou em 1974 com a absolvição das escritoras. No ano seguinte, em 1973, um conjunto de escritos vários e contos, intitulado «Desescrita», «Revolução e Mulheres» em 1975, «Cravo» em 1976 e «Casas Pardas» em 1977, pelo qual venceu o Prémio Cidade de Lisboa.

Da sua atividade no INII é conhecida a sua participação em atividades de investigação em Ciências Humanas Aplicadas à Indústria, promovidas pelo Serviço de Produtividade do INII. Nesse âmbito, Maria Velho da Costa explica na entrevista que dá ao jornal Público em 2013, que participou num estudo em que entrevistou e recolheu os depoimentos de trabalhadores oriundos da indústria, internados no Hospital Miguel Bombarda com o diagnóstico de doença mental.  A análise das referidas entrevistas resultou numa publicação com o título «Português; Trabalhador; Doente Mental», publicado em 1976 pela editora Seara Nova – Temas e Debates. Neste livro estão reunidas as entrevistas que fez, entre 1972 e 1974, no âmbito do seu curso de Grupo-Análise da Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria, a doentes do hospital Miguel Bombarda. A análise das referidas entrevistas levou-a  a refletir sobre a função social e política dos hospitais psiquiátricos e escreve “«O meu estar ali sempre foi determinado pela percepção inicial de que aquele era um dos lugares onde a sociedade escondia e punia os seus membros atingidos do maior mal – a incapacidade de vender a sua força de trabalho, a incapacidade de conformar-se aos valores ideológicos que a classe dominante lhes impunha: trabalho alienante, troca de afectos pobre, resignação […]”[1].

A partir de 1978 Maria Velho da Costa segue um novo percurso profissional e sai do INII, a experiência que leva do seu trabalho no Hospital Miguel Bombarda acompanha-a na criação de novas personagens nos seus romances, como afirmam os estudiosos da sua obra, dando como exemplo a personagem Maria Isaura no romance «Lucialima» de 1983.

Publicou o seu último romance «Myra», em 2008, pelo qual recebeu os prémios P.E.N. Clube Português, Prémio Máxima da Literatura, Prémio Correntes de Escrita e Grande Prémio de Literatura do Grupo DST em 2010.

Foi casada com Adérito Sedas Nunes, Presidente da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (1976/77).

 

                                                                                               Catarina Cândido

Fontes:

Escrever é lutar – Entrevista biográfica a Maria Velho da Costa

Novas Cartas Portuguesas: 40 anos depois

“Maria Velho da Costa Uma flor no deserto”, entrevista à autora conduzida por Tiago Bartolomeu Costa, com fotografias de Rui Gaudêncio, publicada no caderno 2 do Jornal Público no dia 13 de janeiro de 2013.

Documentário “Fátima de A a Z”, de Margarida Gil, sobre Maria Velho da Costa.

VELHO DA COSTA, Maria de Fátima Bívar, Português, Trabalhador, Doente Mental, Lisboa, Seara Nova, coleção Temas actuais, 1976.

[1] Maria de Fátima Bívar Velho da Costa, Português, Trabalhador, Doente Mental, op. cit

Junho

Legenda: Fernando Roldão Dias Agudo: «Sobre um Teorema de Kakeya»; in Gazeta de Matemática, Ano XIII, nº 53, dezembro de 1952, pp. 1-2.
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Em 1947, Fernando Roldão Dias Agudo, matemático, engenheiro e especialista em álgebra linear recebe o Prémio Nacional Francisco Gomes Teixeira, pelo desenvolvimento da sua tese de licenciatura “Sobre um Teorema de Kakeya”, trabalho publicado na Gazeta de Matemática em dezembro de 1952.

A criação deste prémio surge em 1939, por Portaria do Ministério da Educação Nacional, na qual é criado o “Prémio Nacional Doutor Francisco Gomes Teixeira” em homenagem ao ilustre matemático Francisco Gomes Teixeira (1851-1933), cuja obra contribuiu fortemente para o progresso das ciências exatas em Portugal.

Francisco Gomes Teixeira foi um importante e reconhecido professor e investigador em Matemática. Lecionou Matemática na Universidade de Coimbra, terminando com classificação máxima e, ainda durante o curso, escreveu o seu primeiro trabalho publicado na imprensa da Universidade, em 1871. Com uma brilhante carreira na vida académica e científica, relacionou-se com alguns dos mais destacados matemáticos de renome mundial da sua época, e publicou trabalhos em periódicos científicos de vários países. Em Portugal era considerado um sábio, tendo recebido vários prémios. Nos últimos anos do seu trabalho dedicou-se à História da Matemática em Portugal, tendo elaborado uma obra de referência para os estudiosos das ciências em Portugal, a História das Matemáticas em Portugal.

Voltemos ao prémio com o nome deste reconhecido matemático português. Na génese da portaria de 1939 está a Lei 1941, de 11 de abril de 1936, publicada pelo Ministério da Instrução Pública (que vê aqui alterado o seu nome para Ministério da Educação Nacional), que na sua base VII, prevê a “concessão de prémios nacionais aos melhores estudantes do ensino superior, para ao mesmo tempo se consagrarem professores que hajam sido exemplo de devoção ao ensino e ao bem comum e relevantemente contribuíram para o progresso das ciências”.

No texto do Regulamento (publicado a 2 de abril de 1941) é dito que o prémio é conferido mediante concurso “ao melhor trabalho de matemáticas puras elaborado em cada ano letivo por um aluno de qualquer estabelecimento de ensino universitário em que elas sejam professadas”, para alunos até aos 25 anos tendo os candidatos, para além de profundos conhecimentos na área da matemática, serem detentores de “irrepreensível conduta escolar e cívica”. O júri é composto pelo presidente da Junta Nacional da Educação e por dois professores de matemática de cada uma das Faculdades de Ciências, designados pelo Conselho da respetiva Faculdade.

Diz a Gazeta de Matemática: “A criação deste prémio tem grande interesse para o movimento matemático português porque ele é susceptível de criar uma atmosfera de emulação entre escolas superiores, em que as matemáticas puras são professadas, encorajando os estudantes na realização de trabalhos de investigação e estimulando os professores das mesmas escolas a fomentarem a realização dêsses trabalhos.”

Nos 2 anos seguintes à publicação do regulamento é referido pela mesma gazeta que terá aparecido apenas um concorrente com um trabalho que não seria de “matemáticas puras”. Em 1943, António Monteiro refere mesmo porque é que “não se tenha ainda criado uma atmosfera de interêsse pelo Prémio Gomes Teixeira?” e ainda “O superior interesse da cultura matemática portuguesa exige que lhe seja prestada a atenção que merece”.

O Prémio Gomes Teixeira foi atribuído pela primeira vez apenas em 1945 “destinado a um trabalho de matemática digno de ser galardoado por essa alta distinção científica”. O júri atribui-o por unanimidade a Fernando Soares David, licenciado em matemáticas pela Universidade do Porto, que recebe o prémio com um trabalho intitulado “Sobre a Comutabilidade de Operadores com Espectros contínuos”, publicado no n.º 50 de 1951 da Gazeta de Matemática, número publicado por ocasião da Comemoração do Centenário do Nascimento do Professor Doutor Francisco Gomes Teixeira.

Em 1947, o Prémio Nacional Gomes Teixeira foi atribuído ao ainda jovem estudante do Curso de Matemática da Faculdade de Ciências de Lisboa, Fernando Roldão Dias Agudo, pelo trabalho “Sobre um Teorema de Kakeya“, partindo de um problema lançado pelo matemático japonês Soichi Kakeya em 1917. O trabalho viria a ser publicado em 1952 na prestigiada publicação com a qual Dias Agudo colaborava desde 1948, a Gazeta de Matemática, que já tinha referido “Lastimamos porém não se ter dado há mais a publicidade devida a tão importante acontecimento da vida universitária portuguesa e admiramo-nos bastante por este facto ter passado desapercebido do nosso, infelizmente tão restricto, meio matemático.”

Ambos os trabalhos foram também publicados na Mathematical Reviews, em 1956 e 1953, respetivamente.

Dias Agudo, para além de matemático, engenheiro, especialista em álgebra linear e geometria analítica e professor universitário foi também administrador público de ciência, tendo sido presidente da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) entre 1974 e 1976, período conturbado em que teve a difícil tarefa de manter a instituição unida e em funcionamento numa altura de desbravar novos modelos de governação nem sempre convergentes. Em 1977 lança-se num novo desafio, entrando no Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC) instituição da qual foi presidente entre setembro de 1980 e dezembro de 1983. Mantendo-se fiel defensor da investigação científica nas universidades, consolida a missão e a existência do INIC.

Desde sempre ligado à Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), colabora e participa nas mais diversas atividades, como por exemplo, no encontro «O futuro da investigação da matemática em Portugal», realizado em Coimbra, a 21 de outubro de 1983.

Ainda em vida, Dias Agudo, doou ao Arquivo de Ciência e Tecnologia parte do seu espólio pessoal, onde podemos encontrar documentação relativa ao período em que dirigiu estas duas importantes instituições de gestão e política de ciência e onde ficamos a conhecer mais da brilhante carreira deste professor e cientista. Dias Agudo faleceu o ano passado, a 23 de fevereiro de 2019, aos 93 anos de vida.

Em termos de reconhecimento e mérito científico a Matemática conta, desde 1936, com a atribuição de um conceituado prémio, o Medalha Fields, concedido a matemáticos com menos de 40 anos e referido por muitos como “o Nobel da Matemática” pelo facto de Alfred Nobel não ter incluído esta categoria na importante distinção Nobel. Apesar do prémio Medalhas Fields ter sido criado com um conjunto de regras específicas, a grande diferença é que o primeiro procura premiar jovens e promissores matemáticos e o Nobel tem em conta a carreira do premiado.

Paula Meireles

 

Webgrafia (acedida em maio de 2020):

Arquivo de Ciência e Tecnologia
Arquivo.pt
Sociedade Portuguesa de Matemática
Gazeta de Matemática (vários números)
Instituto Camões 
Teixeira, Francisco Gomes. História das Matemáticas em Portugal

 

Maio

Legenda: Maria de Sousa a ser entrevistada nas Jornadas Nacionais de Investigação Científica e Tecnológica, no Fórum Picoas, em Lisboa, no ano de 1987. Fotografia existente no Arquivo de Ciência e Tecnologia da  FCT.
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Cientista, imunologista, médica, professora universitária, mas também escritora e humanista, Maria de Sousa é inequivocamente uma referência marcante da Ciência em Portugal e uma referência internacional na área da Imunologia.

Após terminar a licenciatura em Medicina na Faculdade de Medicina de Lisboa, optou por não seguir a carreira médica em Portugal e foi viver para Londres. Com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para fazer investigação no laboratório Experimental Biology no Imperial Cancer Research Fund em Mill Hill, em 1964 era praticamente a única jovem bolseira estrangeira.

Foi neste laboratório que fez as suas descobertas sobre a distribuição dos linfócitos T nos órgãos linfoides de mamíferos e publicou o relato das descobertas em revistas científicas internacionais. A investigação de Maria de Sousa veio redefinir a compreensão que se tinha da estrutura básica do sistema imunológico.

As suas descobertas estão documentadas e firmadas nos livros de Imunologia. O seu percurso é sobejamente conhecido, assim como o seu percurso geográfico. Cidadã do mundo, depois de viver em Londres seguiu para Glasgow, Nova Iorque, Lisboa depois Porto e, por fim, novamente Lisboa.

A opção de se dedicar a uma carreira de investigação foi explicada numa entrevista dada a Maria Fernanda Rollo, em que partilhou as suas memórias no contexto do projeto “Memória para Todos”. Disse então “o que me vai impressionar sempre é o que não se sabe”; esta procura persistente do conhecimento e a curiosidade eram os seus pilares, assim como a capacidade de continuar a ouvir a criança que tinha dentro de si e continuar a fazer perguntas. E eram exatamente as perguntas, as dúvidas e o desconhecimento que faziam brotar em si uma insatisfação permanente, querendo sempre alcançar mais respostas e mais saber.

A arte acompanhou-a sempre, mesmo quando optou pela licenciatura em Medicina e deixou o curso de piano no Conservatório Nacional. “A arte aproxima-nos da Ciência”, e “a melhor Ciência tem que ter o toque da poesia, que é com uma enorme economia de forma ir à substância”, nas suas palavras.

Tinha a poesia dentro de si e optava por se exprimir em inglês quando a escrevia. Queremos deixar neste espaço um poema seu, que ilustra a relação que para ela existia entre a ciência e a poesia.

“Poets open doors with words, scientists with questions.

Poems last forever.

Scientific answers last only to the next closed door.”

Este poema termina a entrevista que deu a IoavCabantchik em junho de 2018, publicada na página da FCT no dia 14 de abril de 2020.

Para além do legado científico e literário, Maria de Sousa deixou ainda outro: o pedagógico. Há uma geração de cientistas portugueses que são como que extensões de Maria de Sousa. Maria Manuel Mota, diretora do Instituto de Medicina Molecular, laboratório que criou os kits de testes de diagnóstico ao novo coronavírus feitos em Portugal e que estão já a ser produzidos, é um exemplo entre muitos outros.

Foi uma das impulsionadoras da ciência e do desenvolvimento do sistema científico nacional e foi uma das impulsionadoras da criação de um dos primeiros mestrados de Portugal: o Programa Graduado em Áreas da Biologia Básica e Aplicada (GABBA, na sigla em inglês), em 1996, na Universidade do Porto.

À data de criação do programa, em 1996, era José Mariano Gago (1948 – 2015) o Ministro da Ciência e Tecnologia e a Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), antecessora da FCT, a entidade financiadora do Programa. No Arquivo de Ciência e Tecnologia da FCT pode consultar-se documentação relativa a este programa de apoio, que é considerado uma das mais inovadoras e bem-sucedidas experiências de ensino pós-graduado em Portugal, tendo permitido a centenas de investigadores fazerem o doutoramento.

Na jubilação como Professora Catedrática do ICBAS, em outubro de 2009, deu uma última aula no Salão Nobre da Reitoria e  deixou como trabalho de casa as seguintes mensagens “em Ciência, como na Fórmula1, nada se faz sem ser em equipa; são todas as pessoas que trabalham e não se sabe quem são” […]”, “o maior investimento tem de ser na Educação” e, por fim, “quando se vai, só se leva o que se deixa, mas por outro lado [só] se deixa a quem queira ter a amabilidade de receber”.

O seu espólio pessoal foi doado por si mesma à Câmara de Cascais para integração na Casa Reynaldo dos Santos, na Parede, com o propósito de ser tratado e disponibilizado num espaço dedicado à ciência e aos cientistas. “Porque a ciência faz-se pelo conhecimento e não para se ser lembrado” (Maria de Sousa).

Esta forma distinta como deixa a sua marca tem por certo que ver com as características humanas que muitos lhe reconhecem. Teve uma existência pautada por descobertas, rigor e exigência, não perdendo nunca a empatia pelo próximo e a preocupação que demonstrava ter pelos outros.

Com simplicidade, o Arquivo de Ciência e Tecnologia homenageia Maria de Sousa neste mês de maio, não esquecendo também a generosidade com que apoiou a abertura ao público do Arquivo, estando presente na sua inauguração, no dia 16 de dezembro de 2011. Destacamos algumas datas, ditos e feitos sem a pretensão de esgotar ou sequer tocar toda a sua vida e obra.

Como Maria de Sousa escreveu no seu último poema, poucos dias antes de morrer vítima de Covid-19, “momentos então, eternidades agora”.

Obrigada, Maria de Sousa! Que a comunidade saiba receber o que deixou e que as eternidades de agora o possam ser também de futuro.

Catarina Cândido & Cátia Matias Trindade

Abril

Legenda: Louis Pasteur. Imagem retirada da página web do Institut Pasteur.
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Abril de 2020. O mundo enfrenta um inimigo invisível que nos obriga a refletir, a redefinir prioridades e a alterar hábitos que julgávamos garantidos. Não é a primeira vez que a humanidade enfrenta uma pandemia à escala mundial, os nossos antepassados foram também eles vítimas de outras pandemias e provações. Tal como eles, somos desafiados a ser destemidos e resilientes para vencer mais esta batalha.

É nestes momentos que louvamos o trabalho de médicos e investigadores que dedicam a sua vida a encontrar a cura e a salvar vidas. Enquanto serviço que promove a preservação e a divulgação do conhecimento, honremos a memória daqueles que no passado contribuíram com o seu trabalho e nos deixaram esse legado.

Recordamos, por isso, o médico, professor e investigador Augusto Celestino da Costa (Lisboa, 16 de Abril de 1884 — Lisboa, 27 de Março de 1956), de quem o Arquivo de Ciência e Tecnologia guarda uma parte do seu arquivo pessoal e também Louis Pasteur (Dole, 27 de dezembro de 1822 – Marnes-la-Coquette, 28 de setembro de 1895) um homem que revolucionou a história da humanidade com as suas notáveis descobertas.

Encontrámos no arquivo pessoal de Celestino da Costa um documento que nos prendeu a atenção e nos impeliu a recordar o contributo que Pasteur nos deixou.

O documento que vos convidamos a descobrir este mês é o discurso datilografado, que Augusto Celestino da Costa proferiu na Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, enquanto seu presidente, na cerimónia de homenagem a Louis Pasteur, por altura do cinquentenário da sua morte.

Neste discurso, Celestino da Costa enaltece uma das mais maravilhosas vidas de que pode honrar-se a história”, relembra-nos a inspiração que foi a sua doutrina para outros, nomeadamente para Câmara Pestana, na criação da Bacteriologia em Portugal, assim como a renovação da Epidemiologia, que em Portugal, Ricardo Jorge “ilustrou esse capítulo da higiene” com a descoberta da epidemia de peste bubónica no Porto em 1899 e que vitimou Câmara Pestana.

Terminamos dando destaque a estas palavras de Celestino da Costa sobre Pasteur, desvendou o mistério do contágio e da infeção […] Milhões de vidas se salvaram pelo seu génio. Incontáveis sofrimentos se atenuaram ou suprimiram e a esperança nasceu sólida e confiante de nos tempos seguintes se debelarem os males que ainda resistiram aos primeiros embates das descobertas pastorianas […]”na expectativa, de que 75 anos depois de terem sido proferidas, nos possam trazer esperança de que tudo vai ficar bem.

Catarina Cândido

Março

Legenda: Imagem retirada do sítio web da ESA.

Neste espaço dedicado à divulgação do Arquivo da FCT, relembramos o início da preparação da adesão de Portugal à Agência Espacial Europeia (ESA) em 1989. «A ESA representou para Portugal o principal portal de acesso ao espaço, constituindo-se para todos os efeitos, como a nossa Agência Espacial». Portugal tornou-se membro a 14 de novembro de 2000.

O espaço sideral foi sempre motivo de encantamento para o Homem, visto da Terra, um céu escuro, tem sido desde os primórdios da humanidade motivo de fascínio. O sonho de chegar ao espaço foi-se tornando realidade à medida que os avanços tecnológicos o permitiram alcançar. A antiga crença de que quem dominasse os mares dominava a Terra, deu lugar ao facto de que quem dominasse os ares, conquistaria também a Terra.

Portugal compreendeu que as atividades espaciais e em particular as concretizadas pela ESA eram de grande relevância, nomeadamente pela possibilidade dos centros de investigação e empresas portuguesas poderem vir a ser fornecedores ou subcontratantes na produção de equipamentos espaciais, o que traria desenvolvimento científico e tecnológico ao país.

Em 1989 foi criado no âmbito da Secretaria de Estado da Ciência e da Tecnologia, através do despacho conjunto dos ministros da Defesa Nacional, do Planeamento e da Administração do Território, dos Negócios Estrangeiros, da Industria e da Energia e das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, um grupo de trabalho com o objetivo de conduzir as negociações da adesão. A presidência estava entregue à Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), sendo o presidente Carlos Eduardo da Costa Salema o representante que presidiu ao grupo de trabalho. Atualmente a representação de Portugal ao nível do Conselho está entregue à Fundação Para a Ciência e a Tecnologia (FCT), sob a dependência do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Na perspetiva da União Europeia acredita-se que o Espaço é facilitador de uma maior competitividade da economia da UE, com o apelo ao aumento do investimento comunitário na investigação e inovação relacionadas com o espaço.

O trabalho realizado no final dos anos 80 início de 2000, serviu de base para que Portugal desse um novo passo em 2019 com a criação da Agência Espacial Portuguesa – Portugal Space, sediada na ilha de Santa Maria, nos Açores.

Catarina Cândido & Helena Baltazar

Fevereiro

Legenda: Luís Ernani Dias Amado. Imagem retirada do blog Almanaque Republicano.
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Em fevereiro dedicamos este espaço à memória de uma importante figura da oposição ao Estado Novo. Recordamos Luís Ernani Dias Amado (1900 – 1981), nascido a 19 de janeiro de 1901 na freguesia de S. Paulo em Lisboa. Médico, histologista, analista, investigador e professor catedrático na Faculdade de Medicina de Lisboa, muito ativo politicamente desde jovem, foi um dos fundadores e dirigente da Liga da Mocidade Republicana e da União Socialista e empenhou-se ativamente no Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) e no Movimento de Unidade Democrática (MUD).

Detido várias vezes pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), mais tarde PIDE, esteve preso em isolamento na cadeia do Aljube. Em 1947, na grande depuração política de intelectuais, cientistas e universitários oposicionistas do regime foi demitido compulsivamente da Faculdade de Medicina de Lisboa e destituído do cargo de Chefe de Serviços de Análises Clínicas dos Hospitais Civis de Lisboa. Seria reintegrado em 1975, simbolicamente, aos 74 anos como Professor Catedrático na mesma Faculdade.

Voltou a ser preso pela PIDE em 1961, na sequência de ter sido um dos signatários do «Programa para a Democratização da República» com data de 31 de janeiro de 1961, documento elaborado pela Acção Democrato-Social com a colaboração da Resistência Republicana, subscrito por 62 personalidades da oposição republicana e socialista.

Parte do seu arquivo pessoal foi doado ao Arquivo de Ciência e Tecnologia, pela sua filha Luísa Irene Dias Amado, também ela ativista política na luta antifascista. Através dos documentos do seu Arquivo ficamos a conhecer as duas facetas públicas deste homem, a sua atividade profissional e também a sua atividade política de oposição ao Estado Novo. Comprovam-no, alguns dos processos conservados no ACT, como o processo judicial onde se destacam dois recortes do jornal «República», de 23 e 28 de outubro de 1964 relativos ao “julgamento político” de Dias Amado no Tribunal Plenário da Boa-Hora, em Lisboa, «acusado de actividades subversivas» (sic) e à leitura da sentença, «após cerca de um ano de detenção». Os recortes foram rasurados pelos «Serviços de Censura», antes de receberem o visto de “autorizado com cortes”.

Catarina Cândido

 

Fonte consultada (disponível para consulta no Arquivo de Ciência e Tecnologia da FCT):
Arquivo Luís Ernani Dias Amado: PT/FCT/LEDA
Webgrafia:
Acedido em janeiro de 2020; Fundação Mário Soares
Acedido em janeiro de 2020; Casa comum

 

Janeiro

Legenda; Imagem do depósito de arquivo do ACT.
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O ano em revista do Arquivo de Ciência e Tecnologia é o mote que propomos para a rúbrica Factos e curiosidades do primeiro mês de 2020. Vamos contabilizar, assinalar e comunicar aquilo que foi feito pela equipa do ACT, de janeiro a dezembro de 2019, nas suas grandes áreas de atuação: tratamento e disponibilização de arquivo histórico, gestão do arquivo intermédio e arquivo corrente.

É missão do ACT o tratamento e a disponibilização do arquivo histórico à guarda da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Para o efeito, a equipa de técnicos especialistas em Ciências da Informação e da Documentação, desenvolveu ao longo do ano de 2019 várias ações de reacondicionamento, higienização e descrição arquivística em aplicação informática normalizada, tendo sido criados cerca de 2 mil registos.

Focada na importância de disponibilização de documentação para consulta, a equipa do ACT recebeu e deu resposta a pedidos de requisição externa – na sua maior parte para fins académicos, necessários no âmbito da realização de trabalhos científicos –, e a pedidos de requisição interna – de natureza vária, como por exemplo, para emissão de segunda via de documento, para consulta e apoio no âmbito de processos em curso, para contagem de tempo de serviço para efeitos de cálculo de pensão, entre outros.

Os arquivos mais consultados foram os da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), do Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC), da Junta de Energia Nuclear (JEN), do Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII), da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e do médico e cientista Luís Ernani Dias Amado.

Destacamos no contexto das requisições internas, que, maioritariamente, disponibilizámos arquivo para a satisfação de interesses e necessidades do cidadão. Também o tempo médio de resposta superou as expectativas planeadas pelo ACT, sendo em média de 2 dias após a receção do pedido.

Outra área de atuação do ACT que mereceu uma forte aposta no ano de 2019 foi a implementação e monitorização de um novo sistema eletrónico para a gestão de documentos e processos em ambiente digital. Este é um projeto que visa promover a desmaterialização e, simultaneamente, a simplificação dos processos de negócio. O ano de 2020 será determinante para a prossecução deste projeto. Interoperabilidade, partilha de informação, centralização, reutilização, recuperação, disseminação e preservação da informação, são temas a tratar e que necessariamente irão levar a novos projetos na instituição. Um caminho necessário para a constituição de um Arquivo Digital, para salvaguarda da nossa história e memória coletiva.

No decorrer do ano passado, o Arquivo de Ciência e Tecnologia assinalou datas comemorativas e participou em eventos com o objetivo de dar a conhecer e promover os acervos documentais à guarda da FCT, bem como a missão, trabalhos realizados e trabalhos em curso. A comunicação daquilo que existe no ACT e do que este Arquivo se propõe fazer tem merecido a melhor atenção por parte da equipa.

Destaca-se a participação no evento de ciência anual, o CIÊNCIA 2019, encontro que tem como principal objetivo estimular a participação e a interação entre investigadores e público em geral; a organização de uma iniciativa de troca de livros nas instalações da FCT, para assinalar o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, comemorado em abril; a visita da turma de mestrado em Comunicação da Ciência, da FCSH-UNL, no âmbito do seminário «Ciência e Sociedade»; a realização de uma pequena mostra comemorativa para assinalar os 8 anos de atividade do ACT, cumpridos a 16 de dezembro, em género de Conta-me como foi na JNICT.

Para 2020 o objetivo mantem-se: tratar e preservar a informação produzida pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia no exercício da sua atividade, assim como promover, divulgar e permitir o acesso ao acervo documental depositado no Arquivo de Ciência e Tecnologia.

 

Cátia Matias Trindade