Fernando Dias Agudo

Fotografia de Fernando Dias AgudoPresidente da JNICT entre 1974 e 1976.


Matemático e engenheiro, especialista em álgebra linear e geometria analítica, professor universitário, administrador público de ciência, Fernando Roldão Dias Agudo (Mouriscas, Abrantes, 1925 – 23 de fevereiro de 2019) estudou no Liceu de Santarém onde foi aluno do matemático Silva Paulo. Em 1943, ingressa na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde se licencia em ciências matemáticas com uma tese «Sobre um Teorema de Kakeya», logo em 1947, distinguida com o Prémio Nacional Francisco Gomes Teixeira e que viria a publicar, em 1952, na Gazeta de Matemática. Colabora com esta prestigiada publicação desde 1948, ali dando a lume a nota «Uma aplicação da Geometria Projectiva ao problema das imagens eléctricas», logo seguindo-se «Um teorema sobre a estrutura dos divisores de um grupo». É então assistente do Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa. Simultaneamente frequenta o curso de engenharia civil no Instituto Superior Técnico que conclui em 1951. Regressa à Universidade de Lisboa onde defende o Doutoramento em Matemática, em 1955, com o tema «Sobre a equação característica de uma matriz», participa no XXIIIº Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências (Coimbra, junho de 1956), com uma comunicação sobre «extremos condicionantes». Já então primeiro assistente de Matemática na Faculdade de Ciências, bolseiro da Fundação Gulbenkian entre 1957 e 1958, Fernando Dias Agudo passa uma temporada nos Estados Unidos da América como investigador visitante da Universidade de Berkeley. Em 1960, publica – novamente na Gazeta de Matemática – «Sobre a determinação analítica das direcções principais das secções planas de uma quádrica», síntese de «Introdução à Álgebra Linear e Geometria Analítica», obra que terá sucessivas reedições e reimpressões e, com António César de Freitas, «Métodos de resolução de equações com derivadas parciais», em 1961. Em 1963, concorre ao lugar de professor extraordinário de Análise e Geometria da Faculdade de Ciência, apresentando um trabalho sobre «Operadores lineares do espaço de Hilbert». Em 1964, é membro do Júri do Prémio Gazeta de Matemática/Fundação Calouste Gulbenkian.

No contexto do «Plano Intercalar» [de Fomento], de 1966-1968, Dias Agudo coordena a equipa-piloto encarregue de efetuar o levantamento das necessidades nacionais em matéria de Ciência e Tecnologia para o desenvolvimento económico e social. Embora reconheça a ciência como campo unificado, Fernando Dias Agudo assumirá sempre a importância da investigação universitária em particular, face às deficiências crónicas de escala, de financiamento, de planeamento e face às insuficientes estruturas industriais capazes de absorver e estimular por si só a investigação científica, o que fará em «As universidades portuguesas e a investigação científica e técnica», artigo que publica na revista «Análise Social» (volume 20/21, dedicado às Universidades), em 1968.

A seguir, parte para Moçambique onde, entre 1970 e 1972, leciona no Departamento de Matemática da Universidade de Lourenço Marques/Maputo. Ao regresso, retoma funções como professor catedrático na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, tomando posse como diretor desta Faculdade em 1973.

Nomeado em Comissão de Serviço para a presidência da JNICT, em 1974, poucos meses depois do 25 de Abril, Dias Agudo sucede a João Salgueiro, tendo que enfrentar a difícil tarefa de manter a integridade da Junta – órgão criado em 1967, ainda sob o Estado Novo – perante pressões externas e internas, modelos de governação divergentes, indecisões políticas várias que praticamente culminaram na extinção do organismo e em grande medida vieram comprometer a sua real capacidade de ação. Neste período e no plano internacional, todavia, novas dinâmicas nos modelos de gestão das ciências emergem, num quadro renovado de relações internacionais em que Portugal se inscreve. Dias Agudo assume a representação nacional em diversos fóruns de Ciência e Tecnologia, por inerência das funções que desempenha como presidente da Junta. Assim, em 1976, é nomeado «delegado do Ministério da Educação e da Investigação Científica para contactos e estudos relativos ao Convénio de Cooperação Cultural e Científica entre Portugal e a URSS…», sendo também «Delegado nacional no Comité para a política científica e tecnológica da OCDE», no mesmo período. É também Dias Agudo promotor de uma reforma dos organismos de ciência, de uma distribuição mais racional das funções partilhadas de administração de C&T, nos negócios públicos. Os tempos, porém, não são favoráveis. Em 1976, pede a exoneração do cargo de presidente da JNICT, ingressando em 1977 no Instituto Nacional de Investigação Científica, INIC, criado na sequência da extinção do Instituto de Alta Cultura, em 1976. É então primeiramente Secretário do «Conselho Consultivo das Ciências Exactas», um dos quatro Conselhos Consultivos que formavam o Instituto, coordenador da Subcomissão de Matemática.

Em 3 de setembro de 1980, toma posse como presidente do INIC, sucedendo a Miller Guerra que entretanto se demitira. Em funções até dezembro de 1983, num contexto que se mantinha difícil e condicionante, a braços com numerosas indefinições em matéria de políticas de C&T, Dias Agudo manteve a sua posição em defesa da investigação científica nas universidades bem como da missão do INIC frente aos intentos agregadores da JNICT.

Ainda como presidente do Instituto e representante do então Ministério da Educação e Ciência, coube a Dias Agudo acompanhar o «Exame à política científica nacional» da OCDE, entre 1981 e 1983, pela parte da investigação universitária. Fez igualmente parte do Conselho Geral da Comissão Nacional da UNESCO, integrou uma «Comissão Nacional para a Investigação Científica e Tecnológica» criada por Despacho do Ministro da Cultura e da Coordenação Científica do VIII Governo Constitucional (1982-1983), representou Portugal em diversas conferências internacionais sobre investigação científica, como o «2º Congresso pan-europeu de instituições de investigação científica»(Roma, maio de 1981), ou a «V Conferência do Conselho da Europa sobre Ciência Tecnologia e Democracia – Impactos das mudanças tecnológicas na Civilização e nas Sociedades Europeias» (Helsínquia/Estrasburgo, junho de 1981).

Sócio efetivo da Academia das Ciências desde 1979, membro do Conselho Executivo da Fundação Europeia de Ciência, da Sociedade Portuguesa de Matemática, Dias Agudo regressará à vida académica após o termo da sua comissão de serviço como presidente do INIC. Eleito para a presidência da Comissão Nacional de Matemática, em 1982, será delegado nacional ad hoc às assembleias gerais da International Mathematical Union, ao longo dos anos 80 e 90.

Dias Agudo manifestou desde cedo e em várias ocasiões o seu interesse pela pedagogia das ciências e, em particular, das matemáticas, pela história da ciência, tendo publicado «A matemática e o mundo contemporâneo» (1980), «Matemática de ontem – Matemática de Hoje – A Escola Politécnica … e as matemáticas em Portugal» (1988), e, em colaboração com José Pinto Peixoto e José Tiago de Oliveira, uma «História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal no século XX», em 1990. Entre a sua produção bibliográfica avultam assim trabalhos de reflexão sobre as condições necessárias ao exercício da investigação científica no contexto nacional («As universidades portuguesas e a investigação científica e técnica», acima referido, «Scientific Research in Portugal», Academia das Ciências, 1984, «O papel das academias», 1991, ou «Ciência Tecnologia Sociedade: as lições da História», Coimbra, 1990…).

Professor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa, em 1996, sócio honorário da Sociedade Portuguesa de Matemática, Fernando Dias Agudo foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública em 2004. Publicou, em 2017, a obra «As minhas memórias, uma vida dedicada à ciência».


Fontes:

Arquivo de Ciência e Tecnologia: Processo individual de Fernando Roldão Dias Agudo [PT/FCT/JNICT/DSGA-RPE-SP/001/0017/69].

Fernando Roldão Dias Agudo (1968): As Universidades portuguesas e a investigação científica e técnica in: «Análise Social» nº 20-21, Vol. VI.

(disponível na coleção ACT)

2ª versão, dezembro de 2018