Factos e Curiosidades

Ano de 2024

2024 | 2023| 2022 | 2021| 2020|  2019 | Anos anteriores

Março

Maria Isabel Barreno (1939-2016) e o Dia Internacional da Mulher

Neste mês de março assinala-se o Dia Internacional da Mulher no próximo dia 8 e por isso decidimos lembrar e homenagear uma mulher, que de alguma forma, esteve ligada à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Falamos de Maria Isabel Barreno de Faria Martins (1939-2016), que ficou conhecida como Maria Isabel Barreno, uma das autoras das Novas Cartas Portuguesas, publicadas em 1971, juntamente com Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta e cujo processo judicial que lhes esteve associado ficaria conhecido como o processo das «Três Marias».

Foi um processo que à época se transformou num processo mediático, nacional e internacional, de afirmação dos direitos das mulheres, não reconhecidos pelo ainda Estado Novo, apesar da «primavera Marcelista». Este processo teve repercussões internacionais tendo gerado críticas nos meios literários ingleses, franceses e americanos e só viria a ser concluído a 7 de maio de 1974, já depois do 25 de abril, com a absolvição das autoras e com o reconhecimento por parte do juiz, de que se tratava de uma obra de arte literária.

Numa entrevista para o Movimento Democrático de Mulheres (MDM) Maria Isabel Barreno viria a reconhecer a importância desta obra, sobretudo na influência da redação do texto da Constituição Portuguesa, onde se instituiu a «igualdade de direitos de todos os cidadãos, sem distinção de raça, sexo ou religião».

Curiosamente, faz este ano 20 anos que Maria Isabel Barreno foi agraciada com a Ordem do Infante D. Henrique, também a 8 de março, por serviços relevantes prestados ao país no âmbito da cultura portuguesa. Foi uma mulher, que pelo seu legado, sobretudo literário, ajudou a influenciar e transformar mentalidades num Portugal em transformação, muito pelas suas ideias feministas que viriam a ter uma maior expressão após o 25 de abril de 1974.

Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1962, inicia no mesmo ano, funções no então Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII), cujo fundo está à guarda do Arquivo de Ciência e Tecnologia (ACT) da FCT e onde trabalhou durante treze anos. Entrou como técnica de 3ª, tendo evoluído na carreira até técnica de 1ª e por fim como investigadora. Referiu, em entrevista ao MDM, que as desigualdades de género que sentiu não eram ao nível dos vencimentos ou promoções, apesar de os salários das mulheres serem inferiores aos dos homens, mas sim relacionadas com a dificuldade em conciliar a vida profissional com a vida familiar, referindo mesmo que o que havia naquela época eram as designadas «férias de parto», não mais do que quinze dias. Elaborou alguns estudos no INII, onde encontrava o papel das mulheres sempre relegado para a «invisibilidade» e que apesar de serem estudos inovadores, eram vistos como de pouca utilidade para a instituição.

Maria Isabel Barreno foi um dos rostos da luta pelos direitos das mulheres e do feminismo na segunda metade do século XX em Portugal. Publicou vasta obra literária, num total de 24 títulos, dos quais se destaca «A Morte da Mãe» ou «De Noite As Árvores são Negras», entre outros. Recebeu vários prémios, nomeadamente o prémio Camilo Castelo Branco e o prémio Pen Club para o livro de contos «Sensos Incomuns» e ainda, o prémio Fernando Namora para o romance «Crónica do Tempo».

Foi também jornalista, tendo sido chefe de redação da revista Marie Claire, assim como coordenadora a nível institucional do ensino da língua portuguesa em França e conselheira cultural da embaixada portuguesa em Paris entre 1997 e 2003.

Nascida a 10 de julho de 1939, viria a falecer em Lisboa a 3 de setembro de 2016.

Suzana Oliveira

Referências Bibliográficas

Cipriano, Rita (2016, setembro 03). Morreu Maria Isabel Barreno, feroz defensora dos direitos das mulheres. Observador

Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, CIG (2016, setembro 05). Maria Isabel Barreno (1939-2016).

Coutinho, Isabel (2016, setembro 03). Morreu Maria Isabel Barreno, que foi mais do que uma das «Três Marias». Público

Movimento Democrático de Mulheres, MDM (2017, novembro). Mulheres de Abril, Maria Isabel Barreno.

Porto Editora (s.d.). Maria Isabel Barreno. Biografia.

Silva, João Céu e (2016, setembro 04). Morre Isabel Barreno, uma das Três Marias que mudaram Portugal. Diário de Notícias.

Fonte

Arquivo do Instituto Nacional de Investigação Industrial. (1959 – 1980). (PT/FCT/INII), Arquivo de Ciência e Tecnologia, Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Fevereiro

Sabia que os Planos de Fomento fizeram 70 anos?

Os Planos de Fomento foram os mecanicismos dinamizadores da economia nacional do Pós-II Guerra Mundial e da descolonização e tiveram um impacto muito grande na economia portuguesa da época contribuindo para o crescimento económico e para a industrialização do país.

Incorporavam planos de investimentos de obras públicas, como por exemplo portos, aeroportos, etc., e também a criação de empresas que incluíam capitais privados tais como a TAP, a RTP, entre outras.  Contemplavam um conjunto de medidas obrigatórias para o sector público e medidas de enquadramento para o sector privado com um caráter meramente indicativo (Carlos & Escorrega, 2015).

Foram implementados 4 planos de fomento com uma duração de seis anos e um plano intercalar com uma duração de três anos, sendo que o primeiro foi estabelecido em 1953. Os planos de fomento tiveram uma abrangência de 26 anos com a seguinte distribuição:

  • I Plano de Fomento (vigorou entre 1953 e 1958):

Este plano, aprovado pela lei nº 2058, de 29 de dezembro de 1952, apresentou um conjunto de investimentos direcionados para a construção de infraestruturas e indústrias de base. Contudo não representava, ainda, um corte profundo com os interesses rurais porque nesta fase a industrialização ainda estava dependente do crescimento da agricultura (Caeiro, 2005). Esta estratégia começou a ser esboçada com a Lei de Fomento e Reorganização Industrial, em 1945, e ganhou estrutura neste Primeiro Plano de Fomento (Bastien & Nunes, 2019).

Não foi muito além de uma lista de investimentos tal como havia acontecido com a Lei de Reconstituição Económica que vigorou entre 1935 e 1950 (Gonçalves, 2020) e , no programa de investimentos não contemplou qualquer investimento de apoio à investigação.

  • II Plano de Fomento (compreendeu o período entre 1959 e 1964):

O segundo plano não introduziu grandes novidades em relação ao plano anterior, apesar de prever mais investimentos em novos setores (por exemplo, o setor pesqueiro na metrópole) (Ferraz, 2019). Este plano foi aprovado pela Lei nº 2094, de 25 de novembro de 1958.
Veio associado a uma maior abertura da economia portuguesa, que passou pela adesão de Portugal à Associação Europeia do Comércio Livre (EFTA), ao Fundo Monetário Internacional (FMI), ao Banco Mundial (BM) e ao Acordo geral de Tarifas e Comércio (GATT), contribuindo para a aceleração do crescimento e do processo de industrialização, sem deixar de acentuar algumas fragilidades normais de uma economia dependente, nomeadamente em termos financeiros e tecnológicos (Bastien & Nunes, 2019).

O orçamento do II plano contemplava uma rubrica para investigação e ensino técnico dedicando um total de 238.000 contos para investigação aplicada.

  • O Plano Intercalar (decorreu entre 1965 e 1967):

Com o plano intercalar surge pela primeira vez a preocupação com o planeamento regional e com uma distribuição mais equitativa do rendimento (Bastien & Nunes, 2019).
Aprovado pela Lei nº 2123, de 14 de dezembro de 1964, representa o despertar da necessidade de liberalização do comércio externo e de as empresas enfrentarem a concorrência externa, estratégia que estava alinhada com o sistema económico misto presente nas economias europeias mais desenvolvidas. Contudo, este período de grande abertura externa sustentou o crescimento económico havendo uma notória aproximação económica relativamente aos países europeus mais desenvolvidos (Bastien & Nunes, 2019).

O plano intercalar dedicou o capítulo VII ao ensino e investigação contemplando um investimento total de 874.000 contos.

  • III Plano de Fomento (abrangeu os anos de 1968 a 73):

O terceiro Plano de Fomento, no qual emergiu uma nova política industrial, foi aprovado pela Lei nº 2133, de 20 de dezembro de 1967, inicia-se durante o governo de Marcelo Caetano e surge como uma continuidade do plano intercalar.

Neste plano reconhece-se a necessidade de deixar cair o modelo de crescimento que tinha por base a orientação interna denominada de inward orientation, substituindo-a por uma visão focada nas vantagens comparativas e na concorrência internacional, numa tentativa de modernização do tecido industrial e redefinição do sector industrial (Carlos & Escorrega, 2015).

Neste plano mantém-se a preocupação com o investimento em investigação sendo o capítulo X dedicado ao ensino e investigação. Neste caso este capítulo divide-se em secções sendo a primeira dedicada à educação e investigação ligada ao ensino e a segunda à investigação não ligada ao ensino.

  • IV Plano de Fomento (destinava-se ao período de 1974 a 1979, mas apenas teve um ano de execução):

O quarto plano estipulou maiores investimentos em diversos setores da metrópole e das províncias ultramarinas, mas também apresentou previsões económicas mais detalhadas para uma gama mais ampla de indicadores. Incluiu também vários estudos que analisaram as questões das assimetrias regionais e das relações externas de Portugal no contexto da integração europeia (Ferraz, 2019).

Este último plano, aprovado pela Lei nº 8, de 26 de dezembro de 1973, foi o mais elaborado de todos, embora tenha sido o único que não teve praticamente nenhuma implementação financeira, uma vez que, depois do 25 de Abril de 1974, que derrubou o regime do Estado Novo, foi promulgado o Decreto-Lei nº 203/74, prevendo a imediata revisão deste plano. Contudo, em vez de uma revisão, que consiste numa atualização à luz de acontecimentos internos e externos, o quarto plano foi abandonado. Esta decisão marcou o fim dos planos de desenvolvimento em Portugal (Ferraz, 2019).

Neste plano o capítulo XII era dedicado à investigação e desenvolvimento tecnológico e estava dividido em alíneas que contemplavam estratégias de desenvolvimento, programação de ações a desenvolver, os domínios prioritários de investigação e a informação científica e técnica.

A Biblioteca da FCT possui uma coleção bibliográfica dos Planos de Fomento, constituída, na sua maioria, por relatórios e estudos relativos ao planeamento, à execução e ao acompanhamento dos Planos de Fomento. Podem pesquisar no nosso catálogo toda a documentação que integra esta coleção.

A biblioteca da FCT criou uma lista pública que engloba toda a documentação que compõe a coleção Planos de Fomento. Pode consultar os registos, fazer download da lista ou imprimir. Todos os recursos bibliográficos que integram a lista estão disponíveis para consulta na Biblioteca.

Paula Seguro de Carvalho

Referências Bibliográficas

Bastien, C., & Nunes, A. B. (2019). A evolução da economia do desenvolvimento: ensaio sobre o caso português (61; Série Documentos de Trabalho. Working Papers Series).

Caeiro, J. (2005). Os planos de fomento nacional no contexto do desenvolvimento económico nacional no pós guerra. Intervenção Social, 31, 193–219.

Carlos, L., & Escorrega, F. (2015). Da evolução da economia portuguesa no período da guerra do ultramar. Revista de Ciências Militares, III(1), 411–430.

Ferraz, R. (2019). The Portuguese development plans in the postwar period: How much was spent and where? Investigaciones de Historia Económica, 15(3), 1–11.

Gonçalves, N. I. (2020, August 26). Saudades do Plano de Fomento. Jornal Tornado Online.

Janeiro

Sabia que…

A 8 de janeiro de 1851 ficou demonstrado publicamente o movimento de rotação da terra?

O responsável por esta demonstração científica foi um físico francês chamado Jean Bernard León Foucault (1819-1868) que desenvolveu o seu trabalho com base em experiências científicas e tecnológicas, sobretudo no domínio da eletricidade, tendo desenvolvido técnicas para uma atividade que veio a ser conhecida como a Eletrotecnia.

Os trabalhos que desenvolveu, envolvendo eletricidade, correspondem a uma pequena parte de um conjunto de experiências e estudos que efetuou ao longo da sua vida. Nascido a 18 de setembro de 1819 em Paris, recebeu formação através de professores particulares e em 1839 inscreve-se na Escola de Medicina e da qual viria a desistir após ter frequentado um curso de Microscopia com aplicação de fotografia, através da utilização do daguerreótipo em experiências científicas. Inicia então um período de formação autodidata em Física e Mecânica sob influência de Alfred Donné com quem vem a publicar um Atlas para o curso de microscopia.

Em 1844 Alfred Donné e Foucault apresentam à Academia de Ciências de Paris um aparelho destinado a demonstrações microscópicas que era iluminado por ação do arco voltaico, tendo sido designado por microscópio fotoelétrico. Para além da utilização do microscópio fotoelétrico, desenvolveu também, a par com Hippolyte Fizeau, um aparelho de iluminação com arco elétrico que ficou conhecido por lâmpada fotoelétrica e que foi adaptado a outros instrumentos no âmbito de estudos desenvolvidos na área da Ótica entre 1843 e 1849.

De entre muitas experiências e desenvolvimento de técnicas exploradas por Foucault, o que lhe veio a dar notoriedade pública foi, por um lado, em 1851, a demonstração pública do movimento diurno da terra, e por outro, em 1862 a determinação da velocidade da luz.

De facto, a experiência de que falamos realizou-se primeiro numa sala do Observatório de Paris, para uma audiência de membros da Academia de Ciências de Paris e só depois a demonstração pública, já no Pantheón, durante a Feira Mundial de 1851, o que transformou a experiência num acontecimento nacional. A ideia surgiu enquanto empregava um pêndulo para criar um relógio usado para controlar telescópios, deparou-se então com a ideia de aplicar a técnica para provar que a Terra gira em torno do seu próprio eixo. Para esse efeito, Foucault na sua demonstração, utilizou um cabo de aço de 67 metros e uma esfera de bronze de 28 quilos, instrumento que ficaria conhecido como «Pêndulo de Foucault» e cujo original está exposto no Musée des Arts e Métiers em França.

Foucault baseou a sua demonstração numa das Leis de Newton que refere que um corpo, quando colocado em movimento, move-se em linha reta a partir da sua origem, desde que não seja influenciado por forças externas. Conseguiu desta forma, demonstrar pela primeira vez em público, que apesar de o pêndulo parecer mudar de direção durante o dia, era na realidade o chão que girava sob o pêndulo.

León Foucault foi um homem do seu tempo, onde a experimentação e descobertas científicas aconteciam com alguma relevância. Realizou inúmeras experiências importantes e contribuiu e criou alguns instrumentos, a que se associa, por exemplo, o giroscópio em 1852, tendo dado um enorme contributo no estudo e aplicação da eletricidade e outros domínios da Física, no século XIX.

Bom Ano a todos.

Suzana Oliveira

Webgrafia:

Camenietzki, Carlos Ziller (2001, abril). A Incessante mobilidade da terra. Ciência Hoje, 29, 78-79.

Davidson, Michael W. (2015, maio 13). Jean Bernard León Foucault (1819-1868). Molecular expressions. Science, optics & you. Pioneers in optics.

EnsinoTv (2018, novembro 10). Experiência do Pêndulo de Foucault [Vídeo]. Youtube.

Guedes, Manuel Vaz (2001, dezembro 5). León Foucault: um electrotécnico precursor. Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

Oxford Reference (2024). Jean Bernard León Foucault (1818-1868) French physicist. Oxford University Press.

Portal São Francisco (s.d.). Pêndulo de Foucault. Recuperado a 20 de dezembro de 2023.