Factos e curiosidades

Ano de 2021

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Janeiro

Legenda: Folheto do Curso de História da Civilização (1930-31). Universidade Popular Portuguesa. Arquivo Luís Ernani Dias Amado.

A 27 de abril  de 1919 era inaugurada a Universidade Popular Portuguesa por um grupo de intelectuais da época [1] dos quais se destaca Ferreira de Macedo, o seu principal impulsionador.

Instalada na Cooperativa Padaria do Povo, em Campo de Ourique, destinava-se a um público adulto, composto por cidadãos de qualquer profissão ou estatuto social e não se tratava de “um centro de investigação científica, mas somente um centro de difusão de conhecimentos e de cultura espiritual entre o povo”. [2]

Devido à sua atividade, ainda em 1919, a 10 de maio, o Governo de então declara a Universidade Popular Portuguesa como instituição de utilidade nacional (Decreto nº 5781) e é lhe atribuído um “subsídio mensal de 400$00 destinado ao desenvolvimento da sua biblioteca, dos seus programas cinematográficos educativos e publicações de vulgarização”.

A Universidade Popular Portuguesa funcionou entre 1919 e 1950, data da sua extinção formal, e foi marcada pelos acontecimentos sociais e políticos, destacando-se a sua atividade principalmente durante a década de 1920. Foi lugar agregador de intervenções e participações de notáveis da época, assim como de trabalhadores e operários, a quem se destinava a sua atuação, que fazendo parte da sua estrutura orgânica ou apenas colaboradores, dinamizaram a ideia de Educação Popular, e que deu nome à Revista que viria a ser publicada pela Instituição.

A Universidade Popular Portuguesa não foi caso único. Antes da sua fundação antecederam-lhe, a Academia de Estudos Livres (1889-1914) e a Universidade Livre (1912-1927) [3] em Lisboa e entre 1912 e 1915 as Universidades Populares do Porto, Póvoa do Varzim, Vila Real e Coimbra.

As Universidades Populares aparecem no âmbito dos ideais republicanos cuja ideia foi importada de França e tinha como objetivo o ensino, a educação e Instrução Popular [4]. A forma de intervenção destas Universidades baseava-se na apresentação de Cursos Livres, Palestras, Conferências, Visitas de Estudo e, no caso da UPP, Sessões Cinematográficas, entre outras.

A sua atuação depressa se disseminou entre a classe operária lisboeta e em 1921, entre janeiro e maio, abriram-se as três primeiras “Secções” da UPP, nomeadamente na Associação da Classe dos Caixeiros de Lisboa, na Associação dos Corticeiros no Barreiro e na Associação do Pessoal do Arsenal do Exército. Até 1925 abriram-se mais Secções, chegando a ser onze, nomeadamente no Sindicato Único das Classes Metalúrgicas, Sindicato dos Operários Chapeleiros, Construção Civil de Belém, Associação de Trabalhadores do Mar em Setúbal, Sindicato Único da Construção Civil e Metalúrgica do Alto do Pina e Sindicato dos Chauffeurs.[5]

Ainda em 1921, a imagem da UPP consolida-se em torno do pressuposto de ser um estabelecimento de ensino moderno e que apesar de não resultar de uma iniciativa operária é destinada aos trabalhadores, onde não se falam de fenómenos incompreensíveis pela erudição científica, tem sim o seu propósito de fornecer sínteses numa linguagem acessível utilizando a leitura e a projeção cinematográfica como elementos ilustrativos dos assuntos abordados.[6]

No biénio 1923/1924 a Universidade enfrenta a sua primeira crise devido à falta de financiamento do Estado, mantendo apenas em funcionamento a sua biblioteca, mas retomaria a sua atividade no biénio seguinte, inclusive com a abertura de novas Secções.

No biénio 1926/1927, a sua atividade reduz-se novamente devido à conjuntura política e social da época e em 1928, Bento de Jesus Caraça, eleito presidente da UPP, procura promover a sua reativação reorganizando a sua biblioteca e nomeando um novo Conselho Pedagógico. Novos cursos são apresentados e estruturados para os biénios seguintes.

Em 1931, Bento de Jesus Caraça profere uma conferência sobre “Universidades Populares e Cultura” onde procura esclarecer o papel da Universidade Popular Portuguesa como forma de eliminar o conceito de cultura de elite e cultura popular, sendo a cultura única, humana e revolucionária.

Em 1933 a Universidade Popular Portuguesa era tolerada pelo Estado Novo, mas cada vez com menor linha de atuação, uma vez que, e como escreveria em Julho de 1934 José Carlos Sousa “pena é que a crise económica sirva de pretexto para se não aumentar a população associativa da nossa Instituição com o ingresso de novos associados, os quais não podendo ou não querendo dar a cota insignificante de Esc. 2$50 por mês, não regateiam, muitos deles, pagar rios de dinheiro por um lugar num espetáculo embrutecedor de boxe ou tourada, esquecidos que devem  à sua dignidade de ser humano e à sociedade”. [7]

Devido à sua diminuição de atividade, em 1950 os responsáveis à época pronunciam-se pela sua extinção, através de uma comissão liquidatária, conforme consta dos seus estatutos, entre eles está Ferreira de Macedo.

O Arquivo de Ciência e Tecnologia conserva alguma documentação sobre a Universidade Popular Portuguesa no Arquivo de Luís Ernani Dias Amado, colega e amigo pessoal de Bento de Jesus Caraça.

 

Suzana Oliveira

 

[1] Entre eles, Faria de Vasconcelos, Câmara Reis, João Camoesas, Emílio Costa, Adolfo Lima, António Sérgio, Raul Proença, entre outros.
[2] Vasconcelos, Faria de (1921).
[3] Bandeira, Filomena (1994), Vol I, p.33.
[4] Vasconcelos, Faria de (1921).
[5] Bandeira, Filomena (1994), Vol. I, p.71.
[6] Idem, Vol. I, p.81.
[7] Idem, Vol. II, p.156.

 

Fontes:

Arquivo de Ciência e Tecnologia: Arquivo Luís Ernani Dias Amado

Vasconcelos, Faria de (1921): “O que deve ser a Universidade Popular Portuguesa”. In Investigar em Educação, Revista da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação, IIª Série, número 1, 2014. Em linha.

Bandeira, Filomena (1994): “A universidade popular portuguesa nos anos 20, os intelectuais e a educação do povo: entre a salvação da república e a revolução social, Lisboa, Dissertação de Mestrado, FCSH – Universidade Nova de Lisboa, Vol. I e Vol. II. Em linha.

Pombo, Olga (s.d.): “Universidade Popular Portuguesa”. Artigo em linha.

Webgrafia (acedida em dezembro de 2020):
Arquivo Casa Comum da Fundação Mário Soares: Arquivo Bento de Jesus Caraça.
Arquivo Histórico – Social (U. Évora), Projeto Mosca.
Universidade Popular Portuguesa