Factos e curiosidades

Ano de 2021

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Abril

Fonte: O Equilibrista. Gabinete de Física da Universidade de Coimbra. Capa do livro da coleção de instrumentos científicos.

Sabia que faz 30 anos que Portugal foi o país convidado da EUROPALIA 91?

A EUROPALIA constitui um festival bianual de carácter internacional, na qual o país convidado apresenta, sob as mais diversas facetas, o seu património cultural. A maior parte das manifestações tem lugar na Bélgica.

O Festival nascido após a Exposição Universal de Bruxelas em 1958, no contexto da integração europeia, vai buscar raízes etimológicas à festa que se realizava na Antiguidade Romana, aquando das colheitas para festejar a abundância, como refere Pedro Canavarro[1]. Assim, o Festival é a celebração da Europa, no qual se sucederam Itália, Holanda, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Bélgica, Grécia, Espanha e Áustria. Apenas em 1989 é convidado um país não europeu: o Japão.

Portugal foi o país convidado em 1991 na véspera da concretização do Mercado Único Europeu.

O Comissariado da Exposição EUROPALIA 91 – Portugal foi estabelecido pelo Decreto-lei 332-A/89, de 27 de setembro, no âmbito da Presidência do Conselho de Ministros. Este diploma determinou que a EUROPALIA 91 deveria visar a apresentação no “espaço privilegiado no contexto europeu como é a Bélgica, de uma imagem alargada dos valores culturais portugueses que têm circunstancialmente sido conhecidos através de aspetos sectoriais, veiculados, sobretudo, pelos fluxos da emigração e do turismo sazonal.”

Determinou ainda ser “particularmente oportuno que esta apresentação ocorra em 1991, véspera da concretização dos objetivos do Ato Único, uma vez que Portugal é um dos países de mais recente adesão às Comunidades Europeias e dos poucos que ainda não beneficiaram da apresentação europeia que as Europálias proporcionam”.

Ao Comissariado da EUROPALIA 91, assumido por Rui Vilar, foram conferidas competências, no âmbito da tutela da Presidência do Conselho de Ministros (PCM), de “preparação, organização e coordenação da representação portuguesa no referido Festival, em articulação com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, assegurando a respetiva participação de acordo com programa a aprovar pelo membro do Governo responsável pela área da cultura.”

Com o objetivo de divulgar a cultura portuguesa no estrangeiro, as Grandes Opções do Plano (GOP) para 1990 consignam a preparação da EUROPALIA Portugal, enquanto manifestação a realizar-se na Bélgica em 1991.

A EUROPALIA 91 foi um palco de exposições dedicadas a Amadeo de Souza Cardoso, Vieira da Silva, Eduardo Viana. Julião Sarmento e Cabrita Reis foram também nomes presentes, entre outros. O barroco português foi vivificado na sua singularidade europeia em o Triunfo do Barroco.

José Mariano Gago assumiu o Programa Científico da EUROPALIA 91. O programa científico compreendeu a elaboração de um volume de síntese sobre a ciência em Portugal, bem como a realização da conferência internacional de ciência em Portugal.  Era objetivo da conferência promover a cooperação científica internacional em Portugal.

Ambas as obras Manifesto para a Ciência em Portugal e O Estado das Ciências em Portugal emergem no âmbito do programa científico da EUROPALIA.

O programa científico da EUROPALIA Portugal destacou não apenas o presente, mas também o passado de Portugal na evocação da sua História. A exposição de instrumentos científicos dos séculos XVIII e XIX provenientes do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra obteve um enorme sucesso. Uma visão transversal emergiu de objetos como O Equilibrista, instrumento de demonstração do centro de gravidade de um corpo revelando assim não só a dimensão estética mas a função científica daquele objeto.

Para lá da função de apresentação europeia a EUROPALIA 91 marcou a internacionalização da cultura portuguesa.

Poderá aceder e consultar mais informação sobre esta iniciativa na Biblioteca e no Arquivo de Ciência e Tecnologia da FCT.

Rafaela Rodrigues

 

[1] Pedro Canavarro, Arte Namban: Os Portugueses no Japão. Fundação Oriente: Lisboa, 1990.

 

Fontes:
Arquivo José Mariano Gago

Webgrafia (acedida em março de 2021):
– Bruxelas, 11º edição da bienal de arte e cultura, Exposição Europália 91, dedicada a Portugal. Arquivos RTP.
Europália 91 / Expo 98. Arquivos RTP.
Festival EUROPALIA

 

Março

Fonte: UNICEF Photo/UN0145554/Karin Schermbrucker.

Sabia que no passado dia 11 de fevereiro se comemorou o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência?

Este dia surge na sequência da aprovação da Agenda 2030 e dos 17 objetivos para o Desenvolvimento Sustentável, aprovados pela ONU em 2015 e cujas metas são para atingir até 2030. É proposto com base no objetivo 5 que visa a igualdade de género como um dos objetivos.

A ideia foi apresentada originalmente no “World Women’s Health and Development Forum” organizado pela Royal Academy of Science International Trust (RASIT) e pelo Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas (DESA) em fevereiro de 2015. Este dia viria a ser instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas a 22 de dezembro de 2015, pela resolução A/RES/70/212.

Este ano, o tema para a comemoração nas Nações Unidas foi 2021 Tema: Mulheres Cientistas na Vanguarda da Luta contra a COVID-19 e revelou diversos aspetos do papel das mulheres na Ciência, desde logo o seu papel enquanto investigadoras nos diferentes níveis da luta contra a doença, desde o avanço no seu conhecimento até à criação da própria vacina. Por outro lado, a pandemia também revelou algumas fragilidades sobre o exercício da investigação por parte das mulheres, sobretudo em início de carreira, uma vez que se verificou o aumento da lacuna de género revelando diferenças significativas sobre quem pratica ciência. Neste contexto, Ciência e Igualdade de Género são fundamentais para o cumprimento das metas de desenvolvimento acordadas no âmbito da Agenda 2030.

Segundo as Nações Unidas, atualmente menos de 30% dos investigadores em todo o mundo são mulheres. Por outro lado, apenas 30% das mulheres e raparigas alunas, selecionam áreas de investigação ligadas a Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (CTEM) no Ensino Superior, número longe da igualdade que se pretende.

Em Portugal, o Governo Português tem desenvolvido algumas iniciativas no sentido do combate à desigualdade de género, como por exemplo a publicação da Lei nº 26/2019 que estabelece o regime da representação equilibrada entre homens e mulheres no pessoal dirigente e nos órgãos da Administração Pública.

A grande preocupação tem sido uma crescente redução de participação de mulheres e raparigas em áreas de Tecnologia, Inovação e Ciência (TIC) e nas Engenharias que tem vindo a perder representação desde 1999, de 26% para 17,4% em 2009 e só em 2018 recupera para os 21%, ainda assim um número muito baixo. Para ajudar a combater esta tendência, desde 2017 que foi criado o projeto “Engenheiras por um dia”, dirigido a raparigas do 3º Ciclo e do Ensino Secundário e visa a partilha de conhecimentos, experiências e esclarecimento de dúvidas no sentido de valorizar e dar a conhecer o trabalho de mulheres profissionais nas áreas CTEM.[1]

É neste contexto que destacamos o papel de quatro mulheres investigadoras e cientistas, todas elas ligadas à FCT e onde desempenharam um papel preponderante.

Falamos de  Maria de Sousa (1939 – 2020), falecida em abril de 2020, vítima de COVID-19, era médica de formação e dedicou a sua vida à investigação na área da Imunologia primeiro no Reino Unido, onde se doutorou, e depois nos Estados Unidos. Em 1966 publica os resultados de uma descoberta referente à distribuição de linfócitos do timo (linfócitos T) nos órgãos linfóides de mamíferos e em 1971, descobre um mecanismo a que dá o nome de ecotaxis, termo proposto para designar a capacidade das células de diferentes origens migrarem e organizarem-se em áreas bem delineadas dos órgãos linfoides periféricos. Em 1984 regressa a Portugal para estudar a Hemocromatose, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, onde foi Professora Catedrática e após a sua jubilação, Professora Emérita. Foi membro do Conselho Consultivo da JNICT/FCT nas décadas de 80 e 90.

Lígia Amâncio, Professora Catedrática no ISCTE, desde 2018 Professora Emérita, é uma das primeiras investigadoras no estudo das questões de género em Portugal, tendo centrado o seu estudo nos processos de construção social do masculino e do feminino e das suas implicações para a discriminação baseada no género, sobretudo a integração de mulheres em profissões de destaque, ligadas por exemplo à política, ciência e medicina. Foi Vice-Presidente da FCT entre 2006 e 2012.

Maria Arménia Carrondo, Engenheira Química de formação, fez doutoramento em Londres em Cristalografia. Em 1988 ingressou no recém-criado Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa, onde foi Professora Catedrática, criou um grupo de pesquisa em Cristalografia e que viria a dar lugar à Unidade de Cristalografia Macromolecular do Laboratório de Genoma Estrutural, onde são realizados estudos de proteínas envolvidas em diversos processos biológicos, e que tem hoje o seu nome. Foi a primeira mulher Presidente da FCT, entre 2015 e 2016.

Helena Pereira, atual Presidente da FCT desde 2019 e Professora Catedrática no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, Engenheira Química de formação é doutorada pela Faculdade de Biologia da Universidade de Hamburgo, Alemanha. A sua área de investigação são as florestas, na área da biomassa, produtos florestais e biorefinarias e cujos resultados do seu trabalho estão publicados em revistas de referência. Dedicou-se ao estudo da cortiça e dos sobreiros procurando perceber a sua formação, a química e as suas propriedades. Foi Vice-Presidente da FCT entre 2017 e 2019.

Quatro mulheres que representam e homenageiam tantas outras. O Arquivo de Ciência e Tecnologia é detentor de um acervo onde poderá encontrar muito do trabalho desenvolvido por estas mulheres, enquanto investigadoras e enquanto gestoras de ciência.

Suzana Oliveira

 

[1] Informação consultada no site da Secretaria-Geral da Educação e Ciência (em linha, fevereiro 2021)

 

Fontes:
Arquivo da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT)
Arquivo da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)

Webgrafia (acedida em fevereiro de 2021):
Ciência Viva – Mulheres na Ciência (cienciaviva.pt)
Eurocid: Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência 2021
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
Secretaria – Geral da Educação e Ciência
Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género: Workshops Engenheiras por um dia

 

Fevereiro

Fonte: Observador, 13 de novembro de 2020.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), que conta desde janeiro com a colaboração de mais um português, o professor catedrático Rogério Gaspar, determinou 2021 como Ano Internacional dos Trabalhadores da Saúde e Cuidadores, em reconhecimento a todos os profissionais de saúde.

A OMS é a autoridade diretora e coordenadora em saúde internacional que decide, em Assembleia Mundial da Saúde, realizada anualmente em Genebra, Suíça, sobre as iniciativas que o Conselho Executivo tem de assegurar. Desde a sua criação, em 1948, que se tem vindo a coordenar esforços internacionais para a erradicação de doenças com o desenvolvimento de medicamentos e vacinas, validados por comités de cientistas e especialistas em padronização biológica, educação interprofissional e prática colaborativa.

Em reconhecimento à dedicação, ao compromisso e ao sacrifício extremo dos milhões de trabalhadores da saúde e cuidadores que têm estado na linha da frente da pandemia COVID-19, os estados membros da 73ª Assembleia Mundial de Saúde designaram, por unanimidade, 2021 Ano Internacional dos Trabalhadores de Saúde e Cuidadores como forma de elogiar o seu trabalho, salientar as suas difíceis condições de trabalho e recomendar mais investimento para melhorar os sistemas de saúde.

Os profissionais da saúde e os cuidadores são todos os que contribuem para o suporte e concretização das atividades de cura da doença e de bem-estar. É com a sua entrega e dedicação que asseguram o funcionamento dos sistemas de saúde e a proteção dos que se encontram em situação de urgência sanitária.

A OMS pretende com esta iniciativa exortar os estados membros, e as instituições financeiras internacionais, a promoverem iniciativas concertadas para a educação e formação dos profissionais de saúde e cuidadores na gestão da pandemia COVID-19; a manutenção dos sistemas públicos de saúde; e o desenvolvimento de vacinas.

Nesta decisão da OMS foram reforçadas as necessidades de cumprimento do Código de Prática Global para Recrutamento Internacional de Saúde; formação de todos os profissionais de saúde e cuidadores com materiais educativos e informativos; e ações que articulem a comunicação pública com a divulgação científica.

Os riscos de contágio exigem a partilha interinstitucional para aumento da segurança de pacientes e de todos os que lhes prestam cuidados diretos e indiretos. A sensibilização para a mudança de comportamentos é um dos muitos contributos para a ajuda recíproca entre os profissionais de saúde e cuidadores e a comunidade em geral.

Sempre foi importante zelar pelo bem-estar destes trabalhadores, mas agora, mais do que nunca, já que são dos que mais sofrem as consequências da enorme e prolongada pressão causada pela pandemia, é necessário responder às suas necessidades com medidas concretas na proteção da sua saúde.

Mais do que elogios e aplausos são necessárias iniciativas que reforcem os sistemas de saúde com melhores e mais seguras condições de trabalho.

Entre os vários responsáveis da OMS está, desde janeiro de 2021, o professor catedrático Rogério Gaspar, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e Presidente do Conselho desta escola.

Rogério Gaspar foi nomeado, pela OMS, Diretor do Departamento de Regulação e Pré-qualificação, unidade responsável pela avaliação de medicamentos e vacinas de combate à COVID-19 que serão distribuídos nos países em desenvolvimento. Ao longo da sua carreira já participou e supervisionou projetos similares de combate à doença em países da Europa, África, Ásia e América.

De entre os muitos cargos que ocupou, este português foi Presidente do Infarmed e membro do Conselho de Administração da EMA (Agência Europeia de Medicamentos), organismo da União Europeia com responsabilidade científica na avaliação, supervisão e segurança dos medicamentos desenvolvidos por laboratórios farmacêuticos dos países da UE. Na Universidade de Lisboa foi Vice-Reitor e Pró-Reitor e responsável pela área de Investigação e Desenvolvimento, Empreendedorismo e Transferência de Conhecimento. Foi ainda Vice-Presidente da European Federation of Pharmaceutical Sciences, Coordenador da European Science for Health e Presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências Farmacêuticas.

No Arquivo de Ciência e Tecnologia encontram-se disponíveis para consulta os  processos de financiamento nos quais o Professor Rogério Gaspar interveio, essencialmente durante a década de 90, como responsável pela formação em teses de investigação científica e na qualidade de investigador responsável no âmbito do Programa STRIDE (Science and Technology for Regional Innovation and Development) e do Programa Base de Investigação Científica e Tecnológica do Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial.

Para o seu doutoramento em Ciências Farmacêuticas, na Universidade Católica de Louvan, Bélgica, foi-lhe atribuída pela JNICT uma bolsa para investigação científica cujo processo de financiamento também se encontra no Arquivo da FCT.

 

Rosália Dias Lourenço

 

Fontes:
Arquivo da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT)
Arquivo da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)

Webgrafia (acedida em janeiro de 2021):
Sistema da ONU – Nações Unidas – ONU Portugal (unric.org)
2021 designated as the International Year of Health and Care Workers (who.int)
OMS/Europe | Événements et manifestations – 2021, Année internationale des travailleurs de la santé et des soins (who.int)
Rogério Gaspar na Organização Mundial de Saúde (ulisboa.pt)

 

 

Janeiro

Legenda: Folheto do Curso de História da Civilização (1930-31). Universidade Popular Portuguesa. Arquivo Luís Ernani Dias Amado.

A 27 de abril  de 1919 era inaugurada a Universidade Popular Portuguesa por um grupo de intelectuais da época [1] dos quais se destaca Ferreira de Macedo, o seu principal impulsionador.

Instalada na Cooperativa Padaria do Povo, em Campo de Ourique, destinava-se a um público adulto, composto por cidadãos de qualquer profissão ou estatuto social e não se tratava de “um centro de investigação científica, mas somente um centro de difusão de conhecimentos e de cultura espiritual entre o povo”. [2]

Devido à sua atividade, ainda em 1919, a 10 de maio, o Governo de então declara a Universidade Popular Portuguesa como instituição de utilidade nacional (Decreto nº 5781) e é lhe atribuído um “subsídio mensal de 400$00 destinado ao desenvolvimento da sua biblioteca, dos seus programas cinematográficos educativos e publicações de vulgarização”.

A Universidade Popular Portuguesa funcionou entre 1919 e 1950, data da sua extinção formal, e foi marcada pelos acontecimentos sociais e políticos, destacando-se a sua atividade principalmente durante a década de 1920. Foi lugar agregador de intervenções e participações de notáveis da época, assim como de trabalhadores e operários, a quem se destinava a sua atuação, que fazendo parte da sua estrutura orgânica ou apenas colaboradores, dinamizaram a ideia de Educação Popular, e que deu nome à Revista que viria a ser publicada pela Instituição.

A Universidade Popular Portuguesa não foi caso único. Antes da sua fundação antecederam-lhe, a Academia de Estudos Livres (1889-1914) e a Universidade Livre (1912-1927) [3] em Lisboa e entre 1912 e 1915 as Universidades Populares do Porto, Póvoa do Varzim, Vila Real e Coimbra.

As Universidades Populares aparecem no âmbito dos ideais republicanos cuja ideia foi importada de França e tinha como objetivo o ensino, a educação e Instrução Popular [4]. A forma de intervenção destas Universidades baseava-se na apresentação de Cursos Livres, Palestras, Conferências, Visitas de Estudo e, no caso da UPP, Sessões Cinematográficas, entre outras.

A sua atuação depressa se disseminou entre a classe operária lisboeta e em 1921, entre janeiro e maio, abriram-se as três primeiras “Secções” da UPP, nomeadamente na Associação da Classe dos Caixeiros de Lisboa, na Associação dos Corticeiros no Barreiro e na Associação do Pessoal do Arsenal do Exército. Até 1925 abriram-se mais Secções, chegando a ser onze, nomeadamente no Sindicato Único das Classes Metalúrgicas, Sindicato dos Operários Chapeleiros, Construção Civil de Belém, Associação de Trabalhadores do Mar em Setúbal, Sindicato Único da Construção Civil e Metalúrgica do Alto do Pina e Sindicato dos Chauffeurs.[5]

Ainda em 1921, a imagem da UPP consolida-se em torno do pressuposto de ser um estabelecimento de ensino moderno e que apesar de não resultar de uma iniciativa operária é destinada aos trabalhadores, onde não se falam de fenómenos incompreensíveis pela erudição científica, tem sim o seu propósito de fornecer sínteses numa linguagem acessível utilizando a leitura e a projeção cinematográfica como elementos ilustrativos dos assuntos abordados.[6]

No biénio 1923/1924 a Universidade enfrenta a sua primeira crise devido à falta de financiamento do Estado, mantendo apenas em funcionamento a sua biblioteca, mas retomaria a sua atividade no biénio seguinte, inclusive com a abertura de novas Secções.

No biénio 1926/1927, a sua atividade reduz-se novamente devido à conjuntura política e social da época e em 1928, Bento de Jesus Caraça, eleito presidente da UPP, procura promover a sua reativação reorganizando a sua biblioteca e nomeando um novo Conselho Pedagógico. Novos cursos são apresentados e estruturados para os biénios seguintes.

Em 1931, Bento de Jesus Caraça profere uma conferência sobre “Universidades Populares e Cultura” onde procura esclarecer o papel da Universidade Popular Portuguesa como forma de eliminar o conceito de cultura de elite e cultura popular, sendo a cultura única, humana e revolucionária.

Em 1933 a Universidade Popular Portuguesa era tolerada pelo Estado Novo, mas cada vez com menor linha de atuação, uma vez que, e como escreveria em Julho de 1934 José Carlos Sousa “pena é que a crise económica sirva de pretexto para se não aumentar a população associativa da nossa Instituição com o ingresso de novos associados, os quais não podendo ou não querendo dar a cota insignificante de Esc. 2$50 por mês, não regateiam, muitos deles, pagar rios de dinheiro por um lugar num espetáculo embrutecedor de boxe ou tourada, esquecidos que devem  à sua dignidade de ser humano e à sociedade”. [7]

Devido à sua diminuição de atividade, em 1950 os responsáveis à época pronunciam-se pela sua extinção, através de uma comissão liquidatária, conforme consta dos seus estatutos, entre eles está Ferreira de Macedo.

O Arquivo de Ciência e Tecnologia conserva alguma documentação sobre a Universidade Popular Portuguesa no Arquivo de Luís Ernani Dias Amado, colega e amigo pessoal de Bento de Jesus Caraça.

 

Suzana Oliveira

 

[1] Entre eles, Faria de Vasconcelos, Câmara Reis, João Camoesas, Emílio Costa, Adolfo Lima, António Sérgio, Raul Proença, entre outros.
[2] Vasconcelos, Faria de (1921).
[3] Bandeira, Filomena (1994), Vol I, p.33.
[4] Vasconcelos, Faria de (1921).
[5] Bandeira, Filomena (1994), Vol. I, p.71.
[6] Idem, Vol. I, p.81.
[7] Idem, Vol. II, p.156.

 

Fontes:

Arquivo de Ciência e Tecnologia: Arquivo Luís Ernani Dias Amado

Vasconcelos, Faria de (1921): “O que deve ser a Universidade Popular Portuguesa”. In Investigar em Educação, Revista da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação, IIª Série, número 1, 2014. Em linha.

Bandeira, Filomena (1994): “A universidade popular portuguesa nos anos 20, os intelectuais e a educação do povo: entre a salvação da república e a revolução social, Lisboa, Dissertação de Mestrado, FCSH – Universidade Nova de Lisboa, Vol. I e Vol. II. Em linha.

Pombo, Olga (s.d.): “Universidade Popular Portuguesa”. Artigo em linha.

Webgrafia (acedida em dezembro de 2020):
Arquivo Casa Comum da Fundação Mário Soares: Arquivo Bento de Jesus Caraça.
Arquivo Histórico – Social (U. Évora), Projeto Mosca.
Universidade Popular Portuguesa