Factos e curiosidades

Ano de 2021

2021 | 2020|  2019 | Anos anteriores

Agosto

Conhece o Programa Memória para Todos?

MEMÓRIA PARA TODOS é um programa de investigação dedicado ao estudo, organização e divulgação do património histórico, cultural, tecnológico e digital, desenvolvido com a participação de cidadãos e instituições na construção da memória coletiva, da sua preservação e disponibilização em acesso livre.
Regista, preserva e partilha histórias e memórias, incluindo testemunhos orais, documentação e objetos pessoais e familiares, valorizando as histórias de vida e das comunidades, e divulgando em linha os conteúdos reunidos – objetos, fotografias, testemunhos áudio e vídeo de cidadãos e instituições.
O Programa é desenvolvido pelo polo História, Território e Comunidades (HTC) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH) e do Centro de Ecologia Funcional (CFE) – Ciência para as Pessoas e para o Planeta, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, uma unidade de investigação e desenvolvimento, financiada pela FCT, para divulgação do conhecimento sobre o funcionamento de ecossistemas e das suas interações socio ambientais.
O HTC reúne investigadores de diferentes áreas do saber que fazem um trabalho de reflexão e interação entre as ciências sociais, as humanidades, as ciências da vida e outras disciplinas de estudo das especificidades locais, e da integração destas no contexto global para a sustentabilidade, de forma a estabelecer relações entre a História, os territórios e as comunidades, na complexidade de interligações que permitem firmar um compromisso global para a sustentabilidade.
Além da reflexão multidisciplinar, aberta à participação na resolução de desafios sociais, conforme à Agenda 2030 das Nações Unidas e em convergência com o Programa Quadro da Comissão Europeia – Horizon Europe 2021-2027 – o trabalho do HTC pressupõe que o conhecimento contribui para uma sociedade mais consciente, em coerência com a matriz de pensamento crítico e construtivo das Ciências Sociais e Humanas.
É com o conhecimento do passado que a compreensão do presente se torna possível contribuindo para a definição de melhores políticas públicas, o incremento de iniciativas de ordenamento do território e da sua regulação para o bem-estar das comunidades.
O desenvolvimento do Programa Memória para Todos conta com a participação de cidadãos que partilham memórias pessoais, e familiares, relativas a determinados momentos e processos históricos. Entidades como escolas, empresas, câmaras municipais e juntas de freguesia têm sido parceiras essenciais na construção de um património comum, constituído pelas histórias pessoais e pela memória das comunidades.
A equipa que coordena e gere o projeto recorre a metodologias de registo, organização e divulgação de conteúdos específicos, de acordo com a natureza dos materiais, suportes e informação em causa, nomeadamente testemunhos orais, histórias de vida, espólios e coleções privadas e familiares, através da criação de bases de dados e de processos digitais de conservação e disponibilização de dados. Convoca e aplica várias metodologias associadas às ciências documentais, à história, à museologia, ao património e às ciências sociais em geral, como a história oral, o método biográfico, a prosopografia, a história local, na construção de um ambiente comum e partilhado pelas Humanidades Digitais, a que se associa uma leitura do território e da paisagem, no cruzamento com as ciências da vida e a geografia.
A abrangência dos projetos do Programa Memória para Todos é vasta e inclui memórias partilhadas por quem conhece bem as Aldeias, as Avenidas Novas de Lisboa, a Lagoa de Óbidos ou a freguesia de São Domingos de Benfica; mas também dos que trabalharam no Contrabando, na Cortadoria Nacional de Pelo, na Polícia ou em Seguros; e ainda dos que guardam registos da Grande Guerra, da I República, da Ópera, da Resistência à ditadura e da Revolução de Abril.
No sítio do Programa Memória para Todos está disponível para consulta o trabalho já desenvolvido. A par com o registo, organização e divulgação de espólios, o 3º Encontro Memória para Todos, que se realizará a 11 e 12 de novembro de 2021, em Lisboa, terá como objetivo a criação de um espaço de partilha, debate e crítica das práticas colaborativas, participativas e de patrimonialização na construção do conhecimento histórico. O encontro, que terá como tema “Preservar e Partilhar a Memória”, reunirá profissionais e agentes que se dedicam a este trabalho de formas diversas.
Recentemente foi assinado um protocolo entre a OPART, E.P.E., (empresa responsável pela gestão do Teatro Nacional de São Carlos, do seu Coro e da Orquestra Sinfónica Portuguesa) e a NOVA FCSH que, através dos investigadores do polo HTC do CFE, prevê a inventariação e o estudo das coleções patrimoniais e da documentação histórica, assim como a recolha de testemunhos e memórias do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC).
Este protocolo, com a duração de três anos, prevê a divulgação da história do TNSC em conteúdos digitais e em linha, na forma de resumos históricos, biografias dos protagonistas, catalogação de espetáculos e objetos, e outros formatos. Também estão previstas conferências sobre a história deste teatro e sobre o seu património histórico, que conta com uma coleção de 5 000 peças de guarda-roupa, figurinos, adereços e acervo documental, fotográfico e objetos para organizar, preservar, valorizar e dar a conhecer.
Por agora, nas Memórias da Ópera poderá contribuir com a partilha do seu testemunho, de objetos, de fotografias e de documentos relevantes para o conhecimento de factos históricos, episódios sociais e eventos culturais da Ópera em Portugal, dos bastidores à plateia.
Enquadrado neste Programa, o Arquivo de Ciência e Tecnologia (ACT) conta, desde 2017, com a iniciativa História e Memória da Ciência, Tecnologia e Inovação em Portugal, cujo objetivo é o registo e divulgação das memórias da ciência em Portugal. Queremos dar a conhecer as memórias da JNICT e da FCT, com memórias sobre processos de organização e administração da ciência; a construção e implementação das políticas científicas em Portugal; e outros temas. Pretendemos identificar, mapear, registar, preservar e divulgar estas memórias e espólios documentais, estimular a sua valorização enquanto fontes para a história, em estreito diálogo com o ACT. No fundo, divulgar e partilhar esta história que é de todos nós e que está em construção permanente.

Paula Meireles

Rosália Dias Lourenço

 

Fontes (webgrafia acedida em junho de 2021):
Memória para todos
Memória para Todos – HTC – História, Territórios e Comunidades
Pólo NOVA FCSH do Centro de Ecologia Funcional

Julho

Sabia que a FCT é a gestora do Projeto SciELO Portugal, uma biblioteca digital de revistas científicas?

O projeto SciELO Portugal representa a adesão à Rede SciELO Internacional e caracteriza-se pela disponibilização de uma coleção de publicações científicas online, com revisão por pares, de diferentes domínios científicos, com o objetivo de promover as revistas científicas portuguesas e difundir mundialmente a produção científica nacional de qualidade.

O projeto SciELO nasce em 1997 com a implementação de um projeto piloto desenvolvido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME/OPAS/OMS). Foi criado com o objetivo de ampliar a divulgação da produção científica na América Latina e Caribe e em geral nos países de língua portuguesa e espanhola, e de criar uma infraestrutura que visava a indexação e publicação digital de periódicos científicos nacionais, arbitrados e de diferentes áreas(1).

Este projeto foi pioneiro na adoção do acesso aberto, uma vez que foi lançado antes do surgimento das três declarações que sustentam o acesso aberto: a Budapest Open Access Initiative (BOAI) que viria a ser um dos documentos mais importantes do movimento do livre acesso à literatura científica; a Bethesda Statement on Open Access Publishing; e a Berlin Declaration on Open Access to Knowledge in the Sciences and Humanities. Foi também inovador numa altura em que os índices internacionais cobriam apenas as chamadas revistas convencionais, ignorando um universo de revistas publicadas em países em desenvolvimento e não anglófonos(2).

Assim, o projeto SciELO procura contribuir para o avanço da investigação científica desenvolvida nos países ibero-latino-americanos, melhorando a qualidade dos seus periódicos e aumentando a sua visibilidade, acessibilidade, uso e impacto. Para alcançar estes objetivos desenvolveu uma metodologia de publicação eletrónica de periódicos científicos que, recorrendo à rede da Internet e às novas tecnologias disponíveis na época, transformou os periódicos impressos em eletrónicos e permitiu oferecer textos completos dos artigos, totalmente gratuitos, avançando em poucos anos para a modalidade de publicação conhecida como “Via Dourada” (Golden Road)(2).

Com o decorrer dos anos, vários países foram aderindo à rede e constituindo as suas coleções nacionais. A rede é composta por 16 países, sendo a maioria de natureza ibero-americana, exceção feita para a África do Sul. Cada coleção nacional tem uma gestão e funcionamento próprio, mas todas seguem as metodologias e a plataforma tecnológica da SciELO Brasil.

O ano de 2001 marca o início das negociações de Portugal com a SciELO Internacional com o objetivo de integrar a rede. Isso viria a acontecer em 2002 por intervenção do Observatório das Ciências e das Tecnologias que pertencia ao então Ministério da Ciência e Tecnologia. A adesão a esta rede tinha como objetivo promover as revistas científicas editadas em Portugal alargando o acesso aberto à produção científica nacional de qualidade(3).

O projeto inicia-se com a implementação dos requisitos técnicos e com a familiarização da equipa na metodologia SciELO. Para a seleção das primeiras revistas a integrar a coleção foi necessário constituir um painel de avaliadores composto por investigadores e professores universitários que, juntamente com o Observatório das Ciências e das Tecnologias e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, aplicou os critérios da SciELO às revistas editadas em Portugal(4).

Em 2005 é lançado o site SciELO Portugal decorrente da seleção das primeiras revistas que cumpriam os critérios SciELO. Em 2007, após a validação do site segundo os critérios para certificação de sites SciELO, Portugal obtém a certificação enquanto coleção em operação regular dentro da rede SciELO(4).

A gestão do projeto SciELO Portugal esteve sob a alçada da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) até 2018, altura em que começam a ser desenvolvidos os preparativos de transição do projeto para a FCT que assume a coordenação geral do projeto, em parceria com a Unidade de Computação Científica Nacional (FCCN) da FCT e a Universidade do Minho (UM), que asseguram a coordenação científica e técnica. Esta mudança implicou uma atualização da infraestrutura tecnológica, beneficiando do desenvolvimento do projeto PUBIN, que surge com a intenção de vir dar resposta às necessidades em termos de plataformas de gestão editorial de forma centralizada e interoperável(5).

A transição levou à constituição de um novo Comité Consultivo que atualizou os Critérios, política e procedimentos para a admissão e a permanência de revistas científicas na Coleção SciELO Portugal que passaram a vigorar em janeiro de 2021. O cumprimento destes novos critérios é essencial para operacionalizar e fazer cumprir os princípios da Ciência Aberta, nomeadamente na possibilidade de utilização de preprints e revisão por pares aberta. Em termos de garantia de integração com o sistema de ciência e tecnologia, destaca-se a utilização dos ORCIDs e do formato JATS-XML.

No decurso destes 20 anos foi possível garantir que o projeto SciELO Portugal cumpriu os requisitos de gratuitidade, sustentabilidade, heterogeneidade e credibilidade dos conteúdos divulgados. Estes critérios estiveram em alinhamento com a política governamental que definiu que os princípios e práticas da Ciência Aberta eram prioritários, materializando-se na elaboração e implementação de uma Política Nacional de Ciência Aberta.

A Ciência Aberta não representa apenas a disponibilização em acesso aberto de dados e publicações, significa a exposição do processo científico enquanto um todo, reforçando o conceito de responsabilidade social científica de acordo com os princípios orientadores para a implementação de uma Política Nacional de Ciência Aberta.

Desde 2014 que a FCT está alinhada com os princípios da ciência aberta tendo estabelecido que toda a investigação desenvolvida com financiamento público teria de disponibilizar os resultados em acesso aberto, conforme o definido na Política sobre Acesso Aberto a Publicações Científicas resultantes de Projetos de I&D Financiados pela FCT.

Esta posição foi reforçada com a adesão da FCT ao Plano S promovido pela Science Europe que postula que todas as publicações científicas, desenvolvidas após 2020, que decorram de investigação que recebeu financiamento de fundos públicos têm de ser publicadas em Acesso Aberto. Este plano é um grande passo para que a investigação seja feita de forma transparente e aberta, acessível a todos, que possa ser ligada, reutilizada e arquivada.

A integração de Portugal no projeto SciELO possibilitou que as revistas científicas saíssem da esfera nacional e adquirissem visibilidade a nível mundial fazendo com que os investigadores ganhassem projeção internacional. Para além disso a integração na coleção SciELO assumiu um papel fundamental na melhoria da qualidade das revistas científicas, no que diz respeito aos conteúdos disponibilizados, mas também na forma como o passaram a fazer.

Para conhecer os procedimentos e para integrar a Coleção SciELO Portugal consulte toda a informação em http://www.scielo.mec.pt/ ou contacte-nos por email para scieloportugal@fct.pt .

Paula Meireles

Paula Seguro de Carvalho

 

Referências bibliográficas
1. Packer AL, Cop N, Luccisano A, Ramalho A, Spinak E. SciELO – 15 Anos de Acesso Aberto: um estudo analítico sobre Acesso Aberto e comunicação científica. Published online 2014:188. doi:10.7476/9789237012376
2. Bojo Canales C, Fraga Medín CA, Primo-Peña E. The SciELO model in Spain: a pioneering open access project. Hosp Domic. 2020;4(3):153-159. doi:10.22585/hospdomic.v4i3.108
3. Agapito C. SciELO Portugal : uma via dourada. In: XIII Jornadas APDIS. Associação Portuguesa de Documentação e Informação de Saúde; 2018:1-5.
4. SciELO Portugal. O ontem, hoje e amanhã da Rede SciELO: Reunião da Rede SciELO – Grupo de Trabalho 1.; 2018.
5. Carvalho J, Costa S, Lopes P, Rodrigues E. Nova etapa do SCIELO Portugal. Páginas a&b Arq Bibl. 2021;S.3, no es(esp.):45-50. doi:10.21747/21836671/pagnespc6

Fontes (webgrafia acedida em junho de 2021):
Critérios para a admissão de revistas científicas na Coleção SciELO Portugal
Plano S
Política sobre Acesso Aberto nos Projetos de I&D Financiados pela FCT
PUBIN

Junho

No próximo dia 9 de junho celebra-se o Dia Internacional dos Arquivos. Assim, este mês, destacamos a relevância dos arquivos e, mais concretamente, do Arquivo de Ciência e Tecnologia que guarda documentos valiosos para o estudo da história das políticas, das instituições e das pessoas que fazem ciência em Portugal.

No congresso do International Council on Archives (ICA) realizado em Viena, em 2004, os cerca de 2000 participantes deixam um pedido à UNESCO para criação do Dia Internacional de Arquivos. Em 2005, em Paris, em Assembleia Geral da UNESCO, é proclamado o dia 27 de outubro como o Dia Mundial do Património Audiovisual. Uma excelente iniciativa, mas que não representava todos os tipos de Arquivos.

Em Assembleia Geral do ICA, realizada no Québec, em 2007, é então criado o Dia Internacional dos Arquivos, que passa a ser celebrado a 9 de junho. A data escolhida tem a ver com a criação do ICA, pela UNESCO, a 9 de junho de 1948.

No ano em que o Arquivo de Ciência e Tecnologia perfaz 10 anos de existência, relembramos a sua importância para a história da ciência em Portugal. Tem à sua guarda um acervo único e de inegável interesse e qualidade histórica que representa a atividade cultural e científica portuguesa desde os meados do século XX até à atualidade. O primeiro Arquivo do género em Portugal, que vê assim reforçada a responsabilidade enquanto entidade responsável pela salvaguarda e preservação da principal fonte primária para a história da organização da atividade científica em Portugal.

A história da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) confunde-se com a própria história da ciência e da tecnologia e da organização da ciência em Portugal, sendo herdeira e detentora de um significativo património documental, que inclui, para além do seu próprio arquivo, o espólio da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), antecessora da FCT criada em 1967, e de outros organismos públicos e privados.

Desde então que a documentação produzida, primeiro pela JNICT, depois pela FCT, não teve qualquer tratamento arquivístico. Por outro lado, o crescimento documental das últimas décadas, bem como a integração de acervos de instituições públicas entretanto extintas, levou a que no início do projeto tivessem sido contabilizados cerca de 4.000 metros lineares de documentação, dispersos por vários depósitos. Ao longo destes 10 anos foram feitas várias intervenções, desde avaliação de massas acumuladas a descrição, digitalização e muitas ações de divulgação.

Reconhecida a importância deste acervo, o ACT foi inaugurado a 16 de dezembro de 2011, numa cerimónia que contou com a presença do Ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, da Secretária de Estado da Ciência, Leonor Parreira, do Professor José Mariano Gago, do Dr. Mário Soares, do Professor José Mattoso, entre outras personalidades.

A missão? Tratar, preservar e divulgar o património documental à guarda da FCT, e outros com interesse científico e histórico, contribuindo deste modo para a preservação da história e memória da ciência e da tecnologia em Portugal.

O Arquivo de Ciência e Tecnologia preserva e gere a memória documental da produção científica nacional, traduzida em milhares de processos de apoio a bolsas, instituições e projetos de investigação. Um acervo documental e bibliográfico representativo da história das instituições, das políticas científicas e da organização da ciência, com interesse para todas as áreas do conhecimento. Manuscritos, recortes de imprensa, provas fotográficas, desenhos, edições periódicas e monografias.

Neste momento, o Arquivo conta com cerca de 5000 metros de documentos sobre a história da Ciência e Tecnologia em Portugal, composto por 12 arquivos institucionais da administração e organização de Ciência e 8 arquivos de cientistas e de outras personalidades ligadas à Ciência. Muitos foram já os investigadores que consultaram o ACT no âmbito dos seus projetos de investigação de diversas áreas do conhecimento, em busca de fontes primárias, sempre com um interesse comum: a investigação científica produzida em Portugal.

A Declaração Universal sobre os Arquivos, aprovada pela UNESCO em 2011, é um documento que reforça a importância dos arquivos na sociedade, na compreensão do passado e do presente e na construção do futuro, e que resume de forma clara, simples e concreta a importância dos Arquivos:

Os Arquivos registam decisões, ações e memórias. Arquivos são um património único e insubstituível transmitido de uma geração a outra. Documentos de arquivo são geridos desde a criação para preservar seu valor e significado. Arquivos são fontes confiáveis de informação para ações administrativas responsáveis e transparentes. Desempenham um papel essencial no desenvolvimento das sociedades ao contribuir para a constituição e salvaguarda da memória individual e coletiva. O livre acesso aos arquivos enriquece o conhecimento sobre a sociedade humana, promove a democracia, protege os direitos dos cidadãos e aumenta a qualidade de vida.

Paula Meireles

 

Fontes (webgrafia acedida em maio de 2021):
DGLAB
International Council on Archives
Declaração Universal sobre os Arquivos
Arquivo de Ciência e Tecnologia

 

Maio

Fonte: Jornal Médico – Exposição itinerante marca o centenário da insulinoterapia.

Há cem anos que foi descoberta a insulina. Antes, ter diabetes equivalia a uma sentença de morte, os diabéticos tinham vidas curtas e com complicações graves como cegueira, gangrena, acidente vascular cerebral, enfarte do miocárdio, insuficiência renal.

Nos últimos cem anos muitos investigadores científicos dedicaram-se ao estudo de novas insulinas e de novos métodos de aplicação. Com esta terapia tem sido possível prolongar a vida das pessoas que têm diabetes, que em Portugal são, atualmente, mais de um milhão.

Desde a antiga civilização egípcia que há registo de uma doença com os sintomas da diabetes,1550 A. C., mas só em 1921 a insulina foi isolada em laboratório e em 1922 aplicada pela primeira vez a um diabético. Desde então é a principal substância no tratamento da doença, em tipo e quantidade adaptada às necessidades de cada doente.

Em Portugal, para as comemorações deste centenário, foram nomeadas duas comissões, a Comissão Executiva e a Comissão Nacional, constituídas por profissionais, instituições e sociedades que têm trabalhado no desenvolvimento e aplicação da insulinoterapia no tratamento da diabetes.

A Comissão Executiva das Comemorações do Centenário da Descoberta da Insulina tem um programa que prevê que ao longo de 2021, por todo o país, se realizem eventos evocativos da descoberta da insulina. Apesar da pandemia, é importante assinalar tão importante descoberta com homenagens e eventos dedicados a todos os investigadores e profissionais que se têm dedicado ao combate da diabetes.

A primeira iniciativa das comemorações é a exposição itinerante que foi inaugurada no dia 6 de janeiro de 2021, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, e ao longo deste ano poderá ser visitada em Coimbra (onde se encontra atualmente na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra), Porto, Funchal, Ponta Delgada e outras cidades, e ainda em linha.

Esta exposição assinala os marcos históricos do tratamento da diabetes, desde que há registos, até à descoberta da insulina. O Papiro de Ebers (1550 A.C.) é o documento mais antigo, no qual é descrita uma doença semelhante à diabetes, mas ao longo do tempo noutros documentos é referida a doença por investigadores e médicos. Susruta e Charuka constataram a existência de dois tipos de diabetes – em pessoas de meia idade e em pessoas magras que morriam precocemente; Avicena, autor de uma vasta enciclopédia médica, descreve a diabetes e refere duas das complicações da doença –  a gangrena e o colapso da função sexual; Mattew Dobson foi o primeiro médico a provar que a diabetes é uma doença sistémica e não uma doença renal; Minkowsky e Von Mering demonstraram que o pâncreas é uma glândula de secreção interna importante na manutenção da homeostase da glicose e consideraram que é responsável pelo controlo metabólico; George Ludwig Zueler foi o primeiro a produzir, com sucesso, a partir de um pâncreas, uma preparação que eliminava a excreção do açúcar. Em 1923 o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina foi atribuído a Banting e Macleod pela descoberta da insulina, substância determinante no aumento da longevidade dos diabéticos. A cronologia detalhada pode ser consultada aqui.

A Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM) também vai assinalar os 100 anos da Insulinoterapia, com uma exposição itinerante em colaboração com o Museu Maximiano de Lemos da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Esta exposição, inaugurada no dia 28 de janeiro no Hospital Garcia de Orta, passará por outos locais do território continental e das regiões autónomas dos Açores e da Madeira e conta com um exemplar da obra de Amato Lusitano, autor de uma das primeiras descrições do tratamento da Diabetes numa das sete Centurias que escreveu – a Cura XCIV, Curatione Diabetes – bem como um espólio de instrumentos cirúrgicos usados no tratamento da diabetes – agulhas, seringas, dispositivos para avaliar a glicemia e bombas de infusão.

Leonard Thompson foi o primeiro diabético a ser tratado, com sucesso, com insulina em 1922. A insulinoterapia passou a ser praticada depois da descoberta da insulina em 1921, por Frederick Banting e Charles Best, no laboratório do professor de fisiologia John J. R. MacLeod, durante experiências que tinham como objetivo o isolamento da secreção interna pancreática.

Ernesto Galeão Roma, médico português que durante uma especialização no Massachusetts General Hospital em 1921, conheceu na clínica Joslin, em Boston, a administração da insulina, para onde os seus descobridores tinham enviado os primeiros frascos da substância, de volta a Portugal passou a tratar os seus doentes com a insulinoterapia.

Este notável português, em 1926 foi precursor do movimento associativo internacional na luta contra a diabetes, ao criar a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal –  APDP com a ajuda financeira de pessoas da burguesia com diabetes, de pacientes e de amigos. Foi a primeira associação de diabéticos do mundo destinada a pessoas pobres com diabetes que, sem nenhuma assistência social, não tinham meios financeiros para aquisição de insulina.

Na APDP, a única clínica com pedagogia em diabetologia, a insulina era prescrita e fornecida a crianças e adultos pobres gratuitamente. Era frequente Ernesto Roma dar palestras na sala de espera da associação aos doentes, que aguardavam consulta, sobre dieta, cuidados podológicos, autocontrolo, etc.

A associação, além do seu caráter filantrópico, sempre prestou cuidados médicos a todas as pessoas com diabetes que se dirigissem à associação e, em paralelo, foi desenvolvido um trabalho de informação para a opinião pública sobre a doença e de sensibilização para a importância da integração dos diabéticos no mundo do trabalho.

A APDP apresentou, neste ano de comemoração dos 100 anos da descoberta da insulina, um manifesto ao Governo a propósito do combate à diabetes com os seguintes princípios e intenções:

  • Inovar para salvar – a descoberta da insulina há 100 anos foi uma das grandes descobertas da medicina no século XX no tratamento desta doença crónica, com elevado índice de mortalidade até ao descobrimento deste medicamento;
  • Educar para capacitar – o tratamento da diabetes depende do doente. A sensibilização para esta necessidade é assegurada pelos profissionais de saúde, que adequam ao conhecimento das pessoas a utilização de recursos que lhes permitam o auto tratamento adequado;
  • Adequar para melhorar – a prevenção das doenças crónicas, nas quais se encontra a diabetes, é fundamental para evitar ou retardar a doença e manter a sustentabilidade do sistema de saúde, pois são as doenças crónicas que mais consomem os recursos de saúde.

Os desafios principais no combate à diabetes são a redução do risco através da promoção da saúde a nível social, o diagnóstico precoce e a integração nos currículos escolares da educação de boas práticas para a saúde. Melhores resultados de saúde e bem-estar serão conseguidos com a participação integrada do sistema nacional de saúde, das autarquias locais e do movimento associativo para garantir o acesso aos cuidados de saúde com acompanhamento, vigilância, educação terapêutica e apoio psicológico.

Desde 1931 que a APDP tem um boletim que hoje se intitula “Diabetes – viver em equilíbrio”.

A Fundação Ernesto Roma foi criada em 2005 pela Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP). Instituição sem fins lucrativos, criada para homenagear o fundador da APDP, que tem como missão a pedagogia dos diabéticos na prevenção e adoção de boas práticas para lidarem com a doença e a formação contínua dos profissionais que dedicam o seu trabalho a estes doentes.

A diabetes é uma doença crónica que se caracteriza pelo aumento dos níveis de açúcar no sangue e pela incapacidade do organismo em processar toda a glicose proveniente dos alimentos. Atinge cada vez mais pessoas, e mais jovens, em todo o mundo. São mais propensos à doença os que têm familiares diretos com diabetes, homens e mulheres obesos, com tensão arterial alta, elevados níveis de colesterol, problemas de funcionamento do pâncreas, doenças endócrinas, mulheres que contraíram diabetes gestacional na gravidez e crianças com peso igual ou superior a 4 Kg à nascença.

A diabetes tipo 2 (não insulinodependentes) é a mais frequente (90% dos casos). Neste tipo da doença o pâncreas produz insulina, mas as células do organismo oferecem resistência à sua ação, o pâncreas é obrigado a trabalhar cada vez mais, até que a insulina produzida se torna insuficiente e o organismo tem dificuldade em absorver o açúcar proveniente dos alimentos. Este tipo de diabetes aparece normalmente na idade adulta e o seu tratamento, na maioria dos casos, consiste na adoção de uma dieta alimentar que normalize os níveis de açúcar no sangue e da prática regular de atividade física, ainda que em alguns casos seja necessária medicação.

A diabetes gestacional surge durante a gravidez e desaparece concluído o período de gestação. Apesar de passageira, é fundamental tomar medidas de precaução para evitar mais tarde diabetes do tipo 2.

A diabetes tipo 1 é mais rara. O pâncreas produz insulina em quantidade insuficiente e/ou qualidade deficiente. As células do organismo não têm capacidade para absorver, do sangue, o açúcar e que por isso é expelido na urina. Os doentes podem ter uma vida saudável e sem grandes limitações se seguirem o tratamento médico adequado – dieta alimentar, prática regular de exercício físico e o uso de insulina. Mais frequente em crianças e jovens, estes doentes precisam de terapêutica para toda a vida porque o pâncreas deixa de produzir insulina.

O diagnóstico precoce é a única forma de controlar convenientemente a doença, o que significa manter saúde por mais tempo e poupar recursos médicos (hospitalizações e medicação).

À memorável descoberta da insulina no tratamento da diabetes, há que adicionar o envolvimento de todos, pois, apesar de a doença continuar a existir, é possível o sucesso do seu tratamento se for bem controlada com conhecimento e disciplina.

 

Rosália Dias Lourenço

Fontes:

Webgrafia (acedida em abril 2021):
Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal
Dia Mundial da Saúde – A diabetes e os cidadãos 100 anos depois da descoberta da insulina
Insulinoterapia
Uso adequado da insulina reduz complicações da diabetes
Insulina: uma revolução com 100 anos!
Exposição 100 Anos da Descoberta da Insulina
Fundação Ernesto Roma

Abril

Fonte: O Equilibrista. Gabinete de Física da Universidade de Coimbra. Capa do livro da coleção de instrumentos científicos. Ver imagem em formato original.

Sabia que faz 30 anos que Portugal foi o país convidado da EUROPALIA 91?

A EUROPALIA constitui um festival bianual de carácter internacional, na qual o país convidado apresenta, sob as mais diversas facetas, o seu património cultural. A maior parte das manifestações tem lugar na Bélgica.

O Festival nascido após a Exposição Universal de Bruxelas em 1958, no contexto da integração europeia, vai buscar raízes etimológicas à festa que se realizava na Antiguidade Romana, aquando das colheitas para festejar a abundância, como refere Pedro Canavarro[1]. Assim, o Festival é a celebração da Europa, no qual se sucederam Itália, Holanda, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Bélgica, Grécia, Espanha e Áustria. Apenas em 1989 é convidado um país não europeu: o Japão.

Portugal foi o país convidado em 1991 na véspera da concretização do Mercado Único Europeu.

O Comissariado da Exposição EUROPALIA 91 – Portugal foi estabelecido pelo Decreto-lei 332-A/89, de 27 de setembro, no âmbito da Presidência do Conselho de Ministros. Este diploma determinou que a EUROPALIA 91 deveria visar a apresentação no “espaço privilegiado no contexto europeu como é a Bélgica, de uma imagem alargada dos valores culturais portugueses que têm circunstancialmente sido conhecidos através de aspetos sectoriais, veiculados, sobretudo, pelos fluxos da emigração e do turismo sazonal.”

Determinou ainda ser “particularmente oportuno que esta apresentação ocorra em 1991, véspera da concretização dos objetivos do Ato Único, uma vez que Portugal é um dos países de mais recente adesão às Comunidades Europeias e dos poucos que ainda não beneficiaram da apresentação europeia que as Europálias proporcionam”.

Ao Comissariado da EUROPALIA 91, assumido por Rui Vilar, foram conferidas competências, no âmbito da tutela da Presidência do Conselho de Ministros (PCM), de “preparação, organização e coordenação da representação portuguesa no referido Festival, em articulação com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, assegurando a respetiva participação de acordo com programa a aprovar pelo membro do Governo responsável pela área da cultura.”

Com o objetivo de divulgar a cultura portuguesa no estrangeiro, as Grandes Opções do Plano (GOP) para 1990 consignam a preparação da EUROPALIA Portugal, enquanto manifestação a realizar-se na Bélgica em 1991.

A EUROPALIA 91 foi um palco de exposições dedicadas a Amadeo de Souza Cardoso, Vieira da Silva, Eduardo Viana. Julião Sarmento e Cabrita Reis foram também nomes presentes, entre outros. O barroco português foi vivificado na sua singularidade europeia em o Triunfo do Barroco.

José Mariano Gago assumiu o Programa Científico da EUROPALIA 91. O programa científico compreendeu a elaboração de um volume de síntese sobre a ciência em Portugal, bem como a realização da conferência internacional de ciência em Portugal.  Era objetivo da conferência promover a cooperação científica internacional em Portugal.

Ambas as obras Manifesto para a Ciência em Portugal e O Estado das Ciências em Portugal emergem no âmbito do programa científico da EUROPALIA.

O programa científico da EUROPALIA Portugal destacou não apenas o presente, mas também o passado de Portugal na evocação da sua História. A exposição de instrumentos científicos dos séculos XVIII e XIX provenientes do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra obteve um enorme sucesso. Uma visão transversal emergiu de objetos como O Equilibrista, instrumento de demonstração do centro de gravidade de um corpo revelando assim não só a dimensão estética mas a função científica daquele objeto.

Para lá da função de apresentação europeia a EUROPALIA 91 marcou a internacionalização da cultura portuguesa.

Poderá aceder e consultar mais informação sobre esta iniciativa na Biblioteca e no Arquivo de Ciência e Tecnologia da FCT.

Rafaela Rodrigues

 

[1] Pedro Canavarro, Arte Namban: Os Portugueses no Japão. Fundação Oriente: Lisboa, 1990.

 

Fontes:
Arquivo José Mariano Gago

Webgrafia (acedida em março de 2021):
– Bruxelas, 11º edição da bienal de arte e cultura, Exposição Europália 91, dedicada a Portugal. Arquivos RTP.
Europália 91 / Expo 98. Arquivos RTP.
Festival EUROPALIA

 

Março

Fonte: UNICEF Photo/UN0145554/Karin Schermbrucker.

Sabia que no passado dia 11 de fevereiro se comemorou o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência?

Este dia surge na sequência da aprovação da Agenda 2030 e dos 17 objetivos para o Desenvolvimento Sustentável, aprovados pela ONU em 2015 e cujas metas são para atingir até 2030. É proposto com base no objetivo 5 que visa a igualdade de género como um dos objetivos.

A ideia foi apresentada originalmente no “World Women’s Health and Development Forum” organizado pela Royal Academy of Science International Trust (RASIT) e pelo Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas (DESA) em fevereiro de 2015. Este dia viria a ser instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas a 22 de dezembro de 2015, pela resolução A/RES/70/212.

Este ano, o tema para a comemoração nas Nações Unidas foi 2021 Tema: Mulheres Cientistas na Vanguarda da Luta contra a COVID-19 e revelou diversos aspetos do papel das mulheres na Ciência, desde logo o seu papel enquanto investigadoras nos diferentes níveis da luta contra a doença, desde o avanço no seu conhecimento até à criação da própria vacina. Por outro lado, a pandemia também revelou algumas fragilidades sobre o exercício da investigação por parte das mulheres, sobretudo em início de carreira, uma vez que se verificou o aumento da lacuna de género revelando diferenças significativas sobre quem pratica ciência. Neste contexto, Ciência e Igualdade de Género são fundamentais para o cumprimento das metas de desenvolvimento acordadas no âmbito da Agenda 2030.

Segundo as Nações Unidas, atualmente menos de 30% dos investigadores em todo o mundo são mulheres. Por outro lado, apenas 30% das mulheres e raparigas alunas, selecionam áreas de investigação ligadas a Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (CTEM) no Ensino Superior, número longe da igualdade que se pretende.

Em Portugal, o Governo Português tem desenvolvido algumas iniciativas no sentido do combate à desigualdade de género, como por exemplo a publicação da Lei nº 26/2019 que estabelece o regime da representação equilibrada entre homens e mulheres no pessoal dirigente e nos órgãos da Administração Pública.

A grande preocupação tem sido uma crescente redução de participação de mulheres e raparigas em áreas de Tecnologia, Inovação e Ciência (TIC) e nas Engenharias que tem vindo a perder representação desde 1999, de 26% para 17,4% em 2009 e só em 2018 recupera para os 21%, ainda assim um número muito baixo. Para ajudar a combater esta tendência, desde 2017 que foi criado o projeto “Engenheiras por um dia”, dirigido a raparigas do 3º Ciclo e do Ensino Secundário e visa a partilha de conhecimentos, experiências e esclarecimento de dúvidas no sentido de valorizar e dar a conhecer o trabalho de mulheres profissionais nas áreas CTEM.[1]

É neste contexto que destacamos o papel de quatro mulheres investigadoras e cientistas, todas elas ligadas à FCT e onde desempenharam um papel preponderante.

Falamos de  Maria de Sousa (1939 – 2020), falecida em abril de 2020, vítima de COVID-19, era médica de formação e dedicou a sua vida à investigação na área da Imunologia primeiro no Reino Unido, onde se doutorou, e depois nos Estados Unidos. Em 1966 publica os resultados de uma descoberta referente à distribuição de linfócitos do timo (linfócitos T) nos órgãos linfóides de mamíferos e em 1971, descobre um mecanismo a que dá o nome de ecotaxis, termo proposto para designar a capacidade das células de diferentes origens migrarem e organizarem-se em áreas bem delineadas dos órgãos linfoides periféricos. Em 1984 regressa a Portugal para estudar a Hemocromatose, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, onde foi Professora Catedrática e após a sua jubilação, Professora Emérita. Foi membro do Conselho Consultivo da JNICT/FCT nas décadas de 80 e 90.

Lígia Amâncio, Professora Catedrática no ISCTE, desde 2018 Professora Emérita, é uma das primeiras investigadoras no estudo das questões de género em Portugal, tendo centrado o seu estudo nos processos de construção social do masculino e do feminino e das suas implicações para a discriminação baseada no género, sobretudo a integração de mulheres em profissões de destaque, ligadas por exemplo à política, ciência e medicina. Foi Vice-Presidente da FCT entre 2006 e 2012.

Maria Arménia Carrondo, Engenheira Química de formação, fez doutoramento em Londres em Cristalografia. Em 1988 ingressou no recém-criado Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa, onde foi Professora Catedrática, criou um grupo de pesquisa em Cristalografia e que viria a dar lugar à Unidade de Cristalografia Macromolecular do Laboratório de Genoma Estrutural, onde são realizados estudos de proteínas envolvidas em diversos processos biológicos, e que tem hoje o seu nome. Foi a primeira mulher Presidente da FCT, entre 2015 e 2016.

Helena Pereira, atual Presidente da FCT desde 2019 e Professora Catedrática no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, Engenheira Química de formação é doutorada pela Faculdade de Biologia da Universidade de Hamburgo, Alemanha. A sua área de investigação são as florestas, na área da biomassa, produtos florestais e biorefinarias e cujos resultados do seu trabalho estão publicados em revistas de referência. Dedicou-se ao estudo da cortiça e dos sobreiros procurando perceber a sua formação, a química e as suas propriedades. Foi Vice-Presidente da FCT entre 2017 e 2019.

Quatro mulheres que representam e homenageiam tantas outras. O Arquivo de Ciência e Tecnologia é detentor de um acervo onde poderá encontrar muito do trabalho desenvolvido por estas mulheres, enquanto investigadoras e enquanto gestoras de ciência.

Suzana Oliveira

 

[1] Informação consultada no site da Secretaria-Geral da Educação e Ciência (em linha, fevereiro 2021)

 

Fontes:
Arquivo da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT)
Arquivo da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)

Webgrafia (acedida em fevereiro de 2021):
Ciência Viva – Mulheres na Ciência (cienciaviva.pt)
Eurocid: Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência 2021
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
Secretaria – Geral da Educação e Ciência
Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género: Workshops Engenheiras por um dia

 

Fevereiro

Fonte: Observador, 13 de novembro de 2020.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), que conta desde janeiro com a colaboração de mais um português, o professor catedrático Rogério Gaspar, determinou 2021 como Ano Internacional dos Trabalhadores da Saúde e Cuidadores, em reconhecimento a todos os profissionais de saúde.

A OMS é a autoridade diretora e coordenadora em saúde internacional que decide, em Assembleia Mundial da Saúde, realizada anualmente em Genebra, Suíça, sobre as iniciativas que o Conselho Executivo tem de assegurar. Desde a sua criação, em 1948, que se tem vindo a coordenar esforços internacionais para a erradicação de doenças com o desenvolvimento de medicamentos e vacinas, validados por comités de cientistas e especialistas em padronização biológica, educação interprofissional e prática colaborativa.

Em reconhecimento à dedicação, ao compromisso e ao sacrifício extremo dos milhões de trabalhadores da saúde e cuidadores que têm estado na linha da frente da pandemia COVID-19, os estados membros da 73ª Assembleia Mundial de Saúde designaram, por unanimidade, 2021 Ano Internacional dos Trabalhadores de Saúde e Cuidadores como forma de elogiar o seu trabalho, salientar as suas difíceis condições de trabalho e recomendar mais investimento para melhorar os sistemas de saúde.

Os profissionais da saúde e os cuidadores são todos os que contribuem para o suporte e concretização das atividades de cura da doença e de bem-estar. É com a sua entrega e dedicação que asseguram o funcionamento dos sistemas de saúde e a proteção dos que se encontram em situação de urgência sanitária.

A OMS pretende com esta iniciativa exortar os estados membros, e as instituições financeiras internacionais, a promoverem iniciativas concertadas para a educação e formação dos profissionais de saúde e cuidadores na gestão da pandemia COVID-19; a manutenção dos sistemas públicos de saúde; e o desenvolvimento de vacinas.

Nesta decisão da OMS foram reforçadas as necessidades de cumprimento do Código de Prática Global para Recrutamento Internacional de Saúde; formação de todos os profissionais de saúde e cuidadores com materiais educativos e informativos; e ações que articulem a comunicação pública com a divulgação científica.

Os riscos de contágio exigem a partilha interinstitucional para aumento da segurança de pacientes e de todos os que lhes prestam cuidados diretos e indiretos. A sensibilização para a mudança de comportamentos é um dos muitos contributos para a ajuda recíproca entre os profissionais de saúde e cuidadores e a comunidade em geral.

Sempre foi importante zelar pelo bem-estar destes trabalhadores, mas agora, mais do que nunca, já que são dos que mais sofrem as consequências da enorme e prolongada pressão causada pela pandemia, é necessário responder às suas necessidades com medidas concretas na proteção da sua saúde.

Mais do que elogios e aplausos são necessárias iniciativas que reforcem os sistemas de saúde com melhores e mais seguras condições de trabalho.

Entre os vários responsáveis da OMS está, desde janeiro de 2021, o professor catedrático Rogério Gaspar, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e Presidente do Conselho desta escola.

Rogério Gaspar foi nomeado, pela OMS, Diretor do Departamento de Regulação e Pré-qualificação, unidade responsável pela avaliação de medicamentos e vacinas de combate à COVID-19 que serão distribuídos nos países em desenvolvimento. Ao longo da sua carreira já participou e supervisionou projetos similares de combate à doença em países da Europa, África, Ásia e América.

De entre os muitos cargos que ocupou, este português foi Presidente do Infarmed e membro do Conselho de Administração da EMA (Agência Europeia de Medicamentos), organismo da União Europeia com responsabilidade científica na avaliação, supervisão e segurança dos medicamentos desenvolvidos por laboratórios farmacêuticos dos países da UE. Na Universidade de Lisboa foi Vice-Reitor e Pró-Reitor e responsável pela área de Investigação e Desenvolvimento, Empreendedorismo e Transferência de Conhecimento. Foi ainda Vice-Presidente da European Federation of Pharmaceutical Sciences, Coordenador da European Science for Health e Presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências Farmacêuticas.

No Arquivo de Ciência e Tecnologia encontram-se disponíveis para consulta os  processos de financiamento nos quais o Professor Rogério Gaspar interveio, essencialmente durante a década de 90, como responsável pela formação em teses de investigação científica e na qualidade de investigador responsável no âmbito do Programa STRIDE (Science and Technology for Regional Innovation and Development) e do Programa Base de Investigação Científica e Tecnológica do Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial.

Para o seu doutoramento em Ciências Farmacêuticas, na Universidade Católica de Louvan, Bélgica, foi-lhe atribuída pela JNICT uma bolsa para investigação científica cujo processo de financiamento também se encontra no Arquivo da FCT.

 

Rosália Dias Lourenço

 

Fontes:
Arquivo da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT)
Arquivo da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)

Webgrafia (acedida em janeiro de 2021):
Sistema da ONU – Nações Unidas – ONU Portugal (unric.org)
2021 designated as the International Year of Health and Care Workers (who.int)
OMS/Europe | Événements et manifestations – 2021, Année internationale des travailleurs de la santé et des soins (who.int)
Rogério Gaspar na Organização Mundial de Saúde (ulisboa.pt)

 

 

Janeiro

Fonte: Folheto do Curso de História da Civilização (1930-31). Universidade Popular Portuguesa. Arquivo Luís Ernani Dias Amado.

A 27 de abril  de 1919 era inaugurada a Universidade Popular Portuguesa por um grupo de intelectuais da época [1] dos quais se destaca Ferreira de Macedo, o seu principal impulsionador.

Instalada na Cooperativa Padaria do Povo, em Campo de Ourique, destinava-se a um público adulto, composto por cidadãos de qualquer profissão ou estatuto social e não se tratava de “um centro de investigação científica, mas somente um centro de difusão de conhecimentos e de cultura espiritual entre o povo”. [2]

Devido à sua atividade, ainda em 1919, a 10 de maio, o Governo de então declara a Universidade Popular Portuguesa como instituição de utilidade nacional (Decreto nº 5781) e é lhe atribuído um “subsídio mensal de 400$00 destinado ao desenvolvimento da sua biblioteca, dos seus programas cinematográficos educativos e publicações de vulgarização”.

A Universidade Popular Portuguesa funcionou entre 1919 e 1950, data da sua extinção formal, e foi marcada pelos acontecimentos sociais e políticos, destacando-se a sua atividade principalmente durante a década de 1920. Foi lugar agregador de intervenções e participações de notáveis da época, assim como de trabalhadores e operários, a quem se destinava a sua atuação, que fazendo parte da sua estrutura orgânica ou apenas colaboradores, dinamizaram a ideia de Educação Popular, e que deu nome à Revista que viria a ser publicada pela Instituição.

A Universidade Popular Portuguesa não foi caso único. Antes da sua fundação antecederam-lhe, a Academia de Estudos Livres (1889-1914) e a Universidade Livre (1912-1927) [3] em Lisboa e entre 1912 e 1915 as Universidades Populares do Porto, Póvoa do Varzim, Vila Real e Coimbra.

As Universidades Populares aparecem no âmbito dos ideais republicanos cuja ideia foi importada de França e tinha como objetivo o ensino, a educação e Instrução Popular [4]. A forma de intervenção destas Universidades baseava-se na apresentação de Cursos Livres, Palestras, Conferências, Visitas de Estudo e, no caso da UPP, Sessões Cinematográficas, entre outras.

A sua atuação depressa se disseminou entre a classe operária lisboeta e em 1921, entre janeiro e maio, abriram-se as três primeiras “Secções” da UPP, nomeadamente na Associação da Classe dos Caixeiros de Lisboa, na Associação dos Corticeiros no Barreiro e na Associação do Pessoal do Arsenal do Exército. Até 1925 abriram-se mais Secções, chegando a ser onze, nomeadamente no Sindicato Único das Classes Metalúrgicas, Sindicato dos Operários Chapeleiros, Construção Civil de Belém, Associação de Trabalhadores do Mar em Setúbal, Sindicato Único da Construção Civil e Metalúrgica do Alto do Pina e Sindicato dos Chauffeurs.[5]

Ainda em 1921, a imagem da UPP consolida-se em torno do pressuposto de ser um estabelecimento de ensino moderno e que apesar de não resultar de uma iniciativa operária é destinada aos trabalhadores, onde não se falam de fenómenos incompreensíveis pela erudição científica, tem sim o seu propósito de fornecer sínteses numa linguagem acessível utilizando a leitura e a projeção cinematográfica como elementos ilustrativos dos assuntos abordados.[6]

No biénio 1923/1924 a Universidade enfrenta a sua primeira crise devido à falta de financiamento do Estado, mantendo apenas em funcionamento a sua biblioteca, mas retomaria a sua atividade no biénio seguinte, inclusive com a abertura de novas Secções.

No biénio 1926/1927, a sua atividade reduz-se novamente devido à conjuntura política e social da época e em 1928, Bento de Jesus Caraça, eleito presidente da UPP, procura promover a sua reativação reorganizando a sua biblioteca e nomeando um novo Conselho Pedagógico. Novos cursos são apresentados e estruturados para os biénios seguintes.

Em 1931, Bento de Jesus Caraça profere uma conferência sobre “Universidades Populares e Cultura” onde procura esclarecer o papel da Universidade Popular Portuguesa como forma de eliminar o conceito de cultura de elite e cultura popular, sendo a cultura única, humana e revolucionária.

Em 1933 a Universidade Popular Portuguesa era tolerada pelo Estado Novo, mas cada vez com menor linha de atuação, uma vez que, e como escreveria em Julho de 1934 José Carlos Sousa “pena é que a crise económica sirva de pretexto para se não aumentar a população associativa da nossa Instituição com o ingresso de novos associados, os quais não podendo ou não querendo dar a cota insignificante de Esc. 2$50 por mês, não regateiam, muitos deles, pagar rios de dinheiro por um lugar num espetáculo embrutecedor de boxe ou tourada, esquecidos que devem  à sua dignidade de ser humano e à sociedade”. [7]

Devido à sua diminuição de atividade, em 1950 os responsáveis à época pronunciam-se pela sua extinção, através de uma comissão liquidatária, conforme consta dos seus estatutos, entre eles está Ferreira de Macedo.

O Arquivo de Ciência e Tecnologia conserva alguma documentação sobre a Universidade Popular Portuguesa no Arquivo de Luís Ernani Dias Amado, colega e amigo pessoal de Bento de Jesus Caraça.

 

Suzana Oliveira

 

[1] Entre eles, Faria de Vasconcelos, Câmara Reis, João Camoesas, Emílio Costa, Adolfo Lima, António Sérgio, Raul Proença, entre outros.
[2] Vasconcelos, Faria de (1921).
[3] Bandeira, Filomena (1994), Vol I, p.33.
[4] Vasconcelos, Faria de (1921).
[5] Bandeira, Filomena (1994), Vol. I, p.71.
[6] Idem, Vol. I, p.81.
[7] Idem, Vol. II, p.156.

 

Fontes:

Arquivo de Ciência e Tecnologia: Arquivo Luís Ernani Dias Amado

Vasconcelos, Faria de (1921): “O que deve ser a Universidade Popular Portuguesa”. In Investigar em Educação, Revista da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação, IIª Série, número 1, 2014. Em linha.

Bandeira, Filomena (1994): “A universidade popular portuguesa nos anos 20, os intelectuais e a educação do povo: entre a salvação da república e a revolução social, Lisboa, Dissertação de Mestrado, FCSH – Universidade Nova de Lisboa, Vol. I e Vol. II. Em linha.

Pombo, Olga (s.d.): “Universidade Popular Portuguesa”. Artigo em linha.

Webgrafia (acedida em dezembro de 2020):
Arquivo Casa Comum da Fundação Mário Soares: Arquivo Bento de Jesus Caraça.
Arquivo Histórico – Social (U. Évora), Projeto Mosca.
Universidade Popular Portuguesa