Factos e curiosidades

Ano de 2022

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Janeiro

Sabe porque é que janeiro é o primeiro mês do ano?

O nosso calendário, tal como o conhecemos, nem sempre assim o foi. No seu início tinha apenas 10 meses e é, hoje, uma herança do mundo antigo.

O primeiro mês é janeiro e o seu nome tem origem na mitologia romana, na divindade Jano, do latim Ianus, o deus dos começos e mudanças, das transições, dos inícios e das escolhas, das trocas e das colheitas. Representado por uma figura masculina de dupla face, é símbolo do passado e do futuro.

“Mas que deus eu direi que tu és, bifronte Jano?/ Um nume igual a ti não teve a Grécia./ Também dize a razão por que só tu dos deuses/ podes ver o que está adiante e atrás.” (Ovídio, 2015).

“Jano tem poder sobre todos os começos, e é por isso que está certo que lhe atribuem os preliminares da conceção (…)” (Agostinho, 1991).

Janeiro nem sempre fez parte do calendário, e este é herança do mundo romano, sendo atribuído o primeiro calendário a Rómulo, o fundador de Roma (Urbe). Era um calendário lunar, de dez meses e iniciava em Martius (março). Tinha 304 dias e os primeiros quatro meses tinham nomes próprios dedicados a divindades da mitologia romana. Os outros seis meses tinham a designação de números ordinais consoante a ordem que tinham no calendário. Assim:

Martius – Marte – Março / Aprilis – Apolo – Abril / Maius – Júpiter – Maio / Junius – Juno – Junho / Quintilius / Sextilis / September / October / November / December.

É com Numa Pompílio (753 a.C. – 673 a.C.) que se efetuam as primeiras reformulações ao calendário. À semelhança do calendário grego, este passa de dez para doze meses e são, então, introduzidos dois meses, Ianuarius (janeiro), dedicado a Jano e Februarius (fevereiro) dedicado a Februo a quem os romanos ofereciam sacríficos por ser uma divindade associada à morte e purificação, passando assim o calendário a ter 355 dias.

“Numa não preteriu Jano ou as sombras avidas, / e, aos antigos dois meses antepôs.” (Ovídio, 2015).

Manteve-se o início do ano em março e o início dos meses a coincidir com as fases da Lua. Alterou a duração dos meses, cuja diferença de dias entre o calendário e o ano solar deu origem a que a cada dois anos se introduzisse um outro mês intercalar, de 23 a 24 dias, o Mercedonius. Os anos intercalavam entre 355, 377, 355 e 378 dias, havendo muitas discrepâncias na marcação das festividades e atos públicos, cujo poder estava nas mãos de sacerdotes dos cultos, chegando a desordem a ser de tal forma que o início do ano chegou a estar adiantado três meses.

A contagem dos dias também não era ordenada como hoje a conhecemos. Havia três dias no mês que eram assinalados pelas fases da lua e os restantes contados com referência a estes, ou seja, havia as Calendas (Calendae) que correspondia ao primeiro dia do mês e de onde deriva a palavra Calendário, Nonas (Nonae) era o dia do mês a que correspondia o quarto crescente lunar e por fim os Idos (Idus) que era o dia a que correspondia a lua cheia.

É com Júlio César (100 a.C. – 44 a. C.) que se dá a grande transformação do calendário romano. Com as orientações de Sosígenes de Alexandria, no ano de 46 a.C., introduzem-se as correções e acertos dos dias e meses, fixa-se então 365 dias por ano, mantiveram-se os doze meses e terminaram-se os meses intercalares. Acrescentou-se um dia a cada 4 anos, resultante da diferença de seis horas e é estabelecido que ocorre no sexto dia antes das calendas de março, passando a designar-se bissexto o ano em que a intercalação ocorre. O primeiro dia do ano, antes a 15 de março, é fixado no primeiro dia de janeiro, gerando alguma contestação.

“(…) Eia, diz porque o ano inicia no frio/ se seria melhor na primavera. /(…) “ No solstício é que está o novo e o velho sol / possuem mesmo início o ano e Febo” (Ovídio, 2015).

O ano 46 a.C. ou 708 de Roma ficou conhecido como o ano da confusão pois correspondeu ao ano de correção e acertos com os ciclos solares. Desta feita, ao Mercedonius de 23 dias foram acrescentados mais dois meses de 33 e 34 dias resultando num ano de 445 dias. É abolido o calendário anterior e passa a vigorar, em 45 a.C. ou 709 de Roma, o calendário Juliano.

Durante o consulado de Marco António e reconhecendo a importância das reformas no calendário romano é prestada homenagem a Júlio César perpetuando o seu nome no calendário: Quintilis passa a designar-se de Julius.

Na época de Augusto, também se realizam alguns acertos, havendo suspensão dos anos bissextos durante 12 anos de forma a corrigir a intercalação, de 3 em 3 anos efetuada até então, passando, após este tempo, a serem bissextos os anos de 4 em 4 anos.

Também em homenagem a Augusto, o seu nome ficaria perpetuado no calendário, atribuindo a Augusto o mês Sextilis que passa a ser designado de Augustus. Para que essa homenagem não fosse inferior à de César, também Augustus passaria a ter 31 dias e Februarius 28 ou 29, tal como acontece hoje.

É depois da introdução do calendário juliano, em época imperial, que se passa a usar a semana de sete dias (septimana ou sete manhãs). Trata-se de uma evolução na orientação do tempo com origem na relação do homem com a natureza sobretudo com os astros que era possível observar.

Dies Solis – Dia do Sol – Domingo (dies dominicus); Dies Lunae – Dia da Lua – segunda feira (secunda feria); Dies Martis – Dia de Marte – Terça feira (tertia feria); Dies Mercurii – Dia de Mercúrio – quarta feira (quarta feria); Dies Iovis – Dia de Júpiter – quinta feira (quinta feria); Dies Veneris – Dia de Vénus – sexta feira (sexta feria); Dies Saturni – Dia de Saturno – Sábado (Sabbath).

A semana romana é ainda hoje seguida por muitos idiomas, à exceção de Portugal, que utiliza a semana canónica, que foi adotada na sequência do segundo concílio de Braga em 572 d. C., por influência de S. Martinho de Dume e por oposição à semana romana, de origem pagã, considerada indigna desde o tempo de Constantino, no séc. IV.

Com o advento do Cristianismo pelo mundo romano, as comemorações da Páscoa passaram a ser um momento determinante no calendário, havendo no século IV, discrepâncias nas suas comemorações, em particular no Oriente e no Ocidente. O Concílio de Niceia, em 325 d.C., vem definir regras para a celebração da Páscoa no mundo Cristão de então. Definiu-se que Cristo ressuscitou a um Domingo, coincidente com a Lua Cheia (plenilúnio) da primavera, determinando desta forma, que a Páscoa seria universalmente celebrada no domingo seguinte ao plenilúnio que ocorresse no equinócio da primavera ou imediatamente a seguir.

Em Portugal usou-se a “era de César” ou Hispânica até 1422 que foi introduzida no século V na Península Ibérica para recordar a conquista no ano de 38 a.C.  A era de César foi abolida de Portugal por D. João I, em que o ano de 1460 (da era de César) passou a ser 1422 da era Cristã.

Os 365,25 dias do calendário juliano têm mais 11m e 49s que o ano solar e a acumulação desta diferença resulta em mais um dia a cada 128 anos e 3 a cada 400 anos. Esta acumulação, apesar de ter sido identificada em momentos anteriores, na Idade Média, só em 1576 e por determinação do Papa Gregório XIII, é que foi constituído um grupo que pudesse identificar e solucionar esta diferença. A reforma Gregoriana consistiu em desfazer um erro de 10 dias e a 24 de fevereiro de 1582 o Papa Gregório XIII emitiu a bula Inter Gravíssimas que estabelecia que o dia imediato à quinta-feira, 4 de outubro, fosse designado de sexta-feira, 15 de outubro. Ficou estabelecido que só seriam bissextos os anos que fossem divisíveis por 400 e suprimiam-se 3 dias a cada 400, o que justificou que 1600 fosse ano bissexto, mas 1700, 1800 e 1900 não o fossem. A medição do ano solar foi corrigida para 365d 5h 49m 12s.

O calendário Gregoriano não foi implementado em todos os países, longe disso. Os primeiros a adotá-lo foram Portugal, Espanha e Itália, logo em 1582, sendo que a maior parte dos países europeus, em particular os protestantes, só o viriam a adotar entre o séc. XVIII e XX.

De um modo geral, o calendário que hoje utilizamos é herança do mundo antigo e resultado das muitas reformulações e acertos das reformas de que foi objeto e é utilizado atualmente de forma a uniformizar as relações internacionais, quer jurídicas, económicas ou comerciais e outras.

Que venha janeiro de 2022, que seja um Bom Ano.

Suzana Oliveira

 

Bibliografia:

Ovídio (2015). Fastos. Belo Horizonte: Autêntica Clássica.

Agostinho, Santo (1991). A cidade de Deus. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Vol.I

Web Bibliografia:

Lopes, Maria do Céu (2012). O calendário atual: História, algoritmos e observações, Millenium 43 (junho/ dezembro) p.p. 107 – 125.

Marques, Manuel Nunes (s.d.). Origem e evolução do nosso calendário. Consultado em dezembro de 2021.