Por ocasião do 40º aniversário do LIP, os professores Maria da Conceição Abreu e Rui Marques falaram ao Arquivo de Ciência e Tecnologia (ACT) sobre o seu trabalho neste laboratório. Essa entrevista, que aqui apresentamos e cuja transcrição os entrevistados tiveram a gentileza de rever, foi reduzida a escrito para memória futura sobre a criação do LIP.
A Professora Maria da Conceição Abreu (CA), catedrática aposentada da Universidade do Algarve, onde foi coordenadora do LIP-Polo Algarve, Pró-reitora (2000-2002), Presidente do Conselho Científico (2001-2003 e 2006-2008) e Diretivo (2004-2006) da Faculdade, Entre 1976 e 1997 foi docente no Departamento de Física da Universidade de Lisboa. Investigadora do LIP, integrou a equipa em 1986, anteriormente era membro do Centro de Física Nuclear da Universidade de Lisboa. Trabalhou na Experiência E802 no Brookhaven National Laboratory (USA) num período sabático 1985-86 e nas Experiências WA76, NA38/50/51 e no Projeto R&D39 do CERN.
Sócia fundadora da Sociedade Portuguesa de Física (SPF,1974) e da União dos Físicos dos Países de Língua Portuguesa (UFPLP, 2019), presidente da SPF de 2016 a 2022, foi membro da extinta Associação de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento (ACTD) e assessora do Ministro da Ciência e Tecnologia de novembro de1997 a agosto de1998.
Desde 1978 envolveu-se em atividades de divulgação científica, destaca-se a co-coordenação da Exposição “De que são feitas as coisas” (1981), as Semanas de Ciência e Tecnologia (1987 a 1989) e a coordenação da equipa fundadora do Centro de Ciência Viva do Algarve (1997) e a sua direção entre 1999 e 2005.
O Professor Rui Ferreira Marques (RM) catedrático aposentado do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, onde desenvolveu a carreira académica entre 1982 e 2019, foi, em sucessivos mandatos, membro eleito da Assembleia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). Pertenceu inicialmente ao Centro de Física da Radiação e dos Materiais, do INIC, e integrou o LIP desde a fundação, em 1986, tendo pertencido à Direção do Laboratório entre 1989 e 2021. A sua atividade científica centrou-se essencialmente na física dos detetores de radiação e no desenvolvimento de detetores de radiação, especialmente em fase gasosa. Enquanto diretor de LIP esteve ligado à fundação, em Coimbra, do Exploratório Infante D. Henrique e do Instituto Pedro Nunes, de que o LIP é sócio.
No estrangeiro, para além da longa estada no SIN – hoje PSI (Paul Scherrer Institut) – passou alguns meses na Universidade Técnica de Delft e teve numerosos estadas e visitas ao CERN, para experiências de física (PS174, PS195/CPLEAR, no LEAR) e fases iniciais da exploração do feixe n-ToF, a par de programas de desenvolvimento de detetores (RD10, RD14 e RD51).
Organizou a Escola de Verão do CERN de 2000, no Caramulo. Foi representante de Portugal no ECFA, desde a saída de Gaspar Barreira até 2017. Enquanto sócio da Sociedade Portuguesa de Física esteve, entre 1999 e 2001, responsável pela Região Centro, cabendo-lhe organizar a Conferência Nacional de Física de 2000.
Antes de vos ouvir sobre a criação do LIP gostaria que falassem um pouco sobre o trabalho que existia em Portugal, até à sua criação, no domínio da Física de Partículas.
CA – Todo um trabalho, depois de Mariano Gago ter voltado do CERN em 1978, onde trabalhou dois anos após o seu doutoramento, este trabalho fez-se em Lisboa e em Coimbra. Em Lisboa, em 1978, o Professor Mariano Gago fez uma visita ao Complexo Interdisciplinar II, nova designação do Instituto de Física e Matemática, situado na Cidade Universitária, e foi convidado pelo Vilela Mendes a integrar o Centro de Física da Matéria Condensada – Linha nº 5 – Física Teórica e Métodos Matemáticos, convite que aceitou. No início de 1979 foi oficialmente integrado, mas com retroatividade a outubro de 1978, data em que efetivamente tinha começado a trabalhar no centro. Começou por formar uma equipa com jovens investigadores – João Varela, Paula Bordalo, Sérgio Ramos e Mário Pimenta, que iniciaram os seus doutoramentos nesta área e assim se criou o embrião do LIP.
Os núcleos são estruturas maiores do que as partículas, é natural que as pessoas que estudam núcleos se venham a interessar pelo estudo das partículas. Por isso, algumas das pessoas que estavam no Centro de Física Nuclear, com os vários seminários que decorriam no Complexo e a Exposição «De que são feitas as coisas», na qual colaboraram investigadores deste centro – a Amélia Maio, Gaspar Barreira, eu própria – começaram a interessar-se por este domínio e a participar em experiências de partículas, alguns de nós fomos ao CERN.
Por isso, quando o LIP foi criado em 1986, a intenção de Mariano Gago era formar um Centro de Partículas, experimental, mas queria um estatuto especial, com uma estrutura muito flexível, sem a pesada burocracia da altura, até porque a adesão ao CERN implicava que as constantes deslocações decorressem com celeridade.
A originalidade deste estatuto, querido tanto por Mariano Gago como pelo Professor Armando Policarpo, de Coimbra, que se juntou ao grupo, foi possível com a assunção do cargo de presidente da JNICT, em 1986, por Mariano Gago, na contrapartida de que o LIP tivesse a estrutura que ele queria. Mariano Gago foi nomeado presidente da JNICT e o termo de posse é a 9 de maio, a escritura de criação do LIP é dada como 9 de maio, mas lavrada a 27 de junho.
RM – Em Coimbra, a história começa com a estada do Professor Armando Policarpo no CERN, entre 1976 e 1978, integrado no grupo de Detetores de Radiação Gasosos liderado por Georges Charpak, físico francês de origem polaca, antigo membro da Resistência e sobrevivente dos campos de concentração, que viria a receber o Prémio Nobel da Física em 1992. Em 1975, Charpak tinha vindo a Portugal e, conhecedor do trabalho em física de detetores desenvolvido em Coimbra a partir de meados da década de 60, pelos Professores Armando Policarpo e Carlos Nabais Conde, visitara a Universidade de Coimbra. Estabeleceu-se a partir daí uma relação de trabalho com o grupo do Professor Policarpo que levou ao convite para a estada no CERN. Regressado a Portugal, o Professor Policarpo continuou a trabalhar nos Detetores Gasosos, que tinham na Física Nuclear e na Física de Partículas o seu primeiro campo de aplicação.
Enquanto o Professor Policarpo estava no CERN, eu fui também para a Suíça, para colaborar, por seis meses, na construção dum detetor para uma experiência no que é hoje o PSI (Paul Scherrer Institut). Acabei por ficar alguns anos a fazer o doutoramento, na ETH de Zurique, em torno desse detetor de raios X para uma experiência com átomos muónicos. Regressado a Coimbra, participei em 1985/86 numa experiência do CERN, PS174, com um grupo de Delft, na Holanda. Tudo isto resultou numa intensificação dos contactos e na participação noutra experiências, também no LEAR (Low Energy Antiproton Ring) – a PS195/CPLEAR, que durou até meados da década de 90 e na qual se iniciou a formação de físicos de partículas de Coimbra.
Qual a importância de todo este trabalho para as empresas portuguesas?
RM – Não aconteceu logo. As empresas portuguesas viriam a fornecer serviços e equipamentos ao CERN bastante mais tarde, e surgiria mesmo uma empresa de spin
Muitas vezes fala-se de Inovação sem dar a devida importância à Ciência e à Tecnologia, concordam?
CA – Se formos um pouco atrás, a História indica-nos que há cientistas que começaram logo pela engenharia, Marconi, Bell, Edison, que conseguiram concretizar em obras – as telecomunicações, a iluminação, o telefone, mas basearam-se em coisas científicas, que já estavam desenvolvidas na altura, depois foi só ligar tudo. Não há inovação sem conhecimento adquirido – é muito raro uma inovação que não se baseie em conceitos já antes trabalhados do ponto de vista científico.
Outra confusão é com Ciência e Tecnologia. A Oficina de Coimbra é Tecnologia, porque muitas vezes antes de chegarmos à Inovação é preciso Ciência e Tecnologia, ou seja, saber cortar chapa, cortar a laser, bons meios informáticos…Estou a lembrar-me do 1º Ministério da Ciência e da Tecnologia, do governo do PSD, em que acrescentaram ao nome a Inovação. A ciência e o saber tecnológico de um país é que vão dar Inovação, que talvez devesse ser uma prerrogativa do Ministério da Economia.
Já no início deste século, João Varela, desenvolveu o projeto CLEARPEM, que envolvia oito instituições nacionais e estrangeiras, baseado na Tomografia por Emissão de Positrões (PET) e direcionado para a mamografia de alta resolução. Este projeto era o resultado de todo o conhecimento adquirido no desenvolvimento de detetores no CERN, a que se juntou competência médica. Ele era um físico de partículas e gerou este spin-off que foi instalado no TAGUS PARK, em Oeiras, e essas instalações eram chamadas TagusLIP. Curioso, os primeiros ensaios dos detetores APD (Fotodíodos de Avalanche), que eram a base do sistema, foram feitos no LIP polo Algarve, um dos nossos alunos veio depois para Oeiras e esteve no projeto até 2015. A PEM Mamografia foi testada em unidade hospitalar.
Outros projetos inovadores: foram o PET Animal, em Coimbra, em colaboração com o ICNAS (Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde, da Universidade de Coimbra), e, em ambos os polos, o projeto Portugal-Austin “TOF-PET for Proton Therapy”, TPPT, liderado pela empresa spin-off PETsys Electronics, ProtoTerapia e a Terapia Flash para o tratamento do cancro.
O LIP, a partir de 2017, quis também participar no desenvolvimento dum projeto em Prototerapia i.e., tratamento do cancro com feixe de protões, como já se faz em cerca de 20 países. Gaspar Barreira, um dos fundadores do LIP, estava à frente do projeto do Consórcio PROTOTERA, que envolvia o CTN/IST, o IPO de Lisboa, Câmara de Loures, o ICNAS, etc. Infelizmente faleceu e perdeu-se a abrangência pensada inicialmente. Prossegue ainda o programa de formação de doutorados em Prototerapia, em colaboração com diversos centros de excelência mundiais desta área, como p.ex., o Centro Helmholtz, no GSI (instituto de pesquisa em iões pesados), em Darmstadt.
Em Lisboa, Gaspar Barreira, tinha previsto criar no campus do CTN/IST, em Sacavém, um centro de prototerapia, satélite do IPO de Lisboa para o tratamento de pacientes, mas com laboratórios de investigação ao lado, para explorar novos melhoramentos.
RM – São coisas distintas. Aqui em Coimbra, a nossa área de partida era a da instrumentação, desenvolvemos instrumentos para aplicar nas experiências e nas medidas muito específicas que são necessárias para cada experiência. Inicialmente fomos até mais consumidores de tecnologia do que desenvolvedores. Em Coimbra foi necessário instalar uma oficina mecânica para conseguirmos produzir os instrumentos –as oficinas das universidades não tinham capacidade e recorrer à Indústria seria uma trapalhada… Lembro-me de, antes do LIP, ter de recorrer a uma pequena empresa dos arredores de Lisboa para construir a caixa metálica para um detetor gasoso, que requeria algum rigor de construção, por ser impossível produzi-la na oficina do DF-FCTUC. Percebendo isso, começámos por gastar uma fatia importante do financiamento disponível, no início do LIP, para instalar uma infraestrutura que ainda hoje utilizamos e está à disposição de outros centros de investigação que dela precisem – temos de ter uma capacidade maior do que aquela que estamos a usar todos os dias para conseguir participar em experiências. Muito mais adiante, nesta cadeia de trabalhos, é que surgiram algumas aplicações, em Lisboa sobretudo em Eletrónica, e em Coimbra em detetores para a área da Saúde e mesmo uma aplicação de sensores e monitorização remota a estudos de ornitologia feitos por um grupo da FCTUC. É um longo processo, mas é preciso criar o conhecimento para depois participar em desenvolvimento que tenha interesse para outros domínios.
Fizemos de tudo um pouco, a nossa incursão na Astronomia é curiosa. Tínhamos condições para construir um sistema de deteção para instalar no VLT do ESO, nos Andes, e fizemo-lo em colaboração com um grupo da FCUL liderado pelo Professor António Amorim. Foi um sucesso também, funcionou bem, fez boas imagens.
O Professor Rui Marques fez parte da direção do LIP, o que recorda dessa experiência?
RM – Creio ter sido quem mais anos permaneceu na Direção do LIP. Para além do trabalho científico que foi sendo (bem!) avaliado, cabe fazer uma análise “política”. Dependíamos do orçamento e de financiamentos públicos, a criação deste laboratório ficou sempre ligada à pessoa de José Mariano Gago, alguém comprometido com uma determinada visão política. Nem por isso deixámos de ter, em geral, uma boa relação com a tutela, embora, pontual e ciclicamente, tenhamos tido as nossas dificuldades. Subsistiu durante muito tempo a ideia de que o CERN era um “clube de elite”, um “clube caro” ao qual não fazia sentido estar associado um país de recursos limitados. Demorou tempo a ultrapassar essa ideia, bem como a ser reconhecida a nossa atividade como geradora de contributos importantes para a Inovação.
Há outros aspetos importantes da ação do LIP que é justo referir. A começar pelo trabalho de divulgação científica, uma constante ao longo destas quatro décadas, já reconhecido pelo CERN e pelo IPPOG (International Particle Physics Outreach Group). Merece referir-se a Escola de Professores (do ensino secundário) em língua portuguesa organizada anualmente no CERN.
Outra coisa importante foi ter o LIP criado muito cedo, antes de tal ser exigido pela tutela a grupos e centros de investigação, uma Comissão de Acompanhamento. Adiantámo-nos às ditas exigências e pudemos com isso garantir elevada qualidade no trabalho desenvolvido, uma vez que fomos sendo objeto de análise crítica por pessoas reconhecidas em diversas áreas de especialidade, que sabiam do que falavam. Isso ajudou muito na calibração do nosso trabalho. A proximidade e o interesse em acompanhar de perto o trabalho dos estudantes também foi outra coisa marcante no LIP.
Ao longo dos anos houve vários governos, várias crises, bem como alterações ao acordo com o CERN. Houve dificuldades financeiras e, por duas vezes, tivemos o fundo CERN suspenso por períodos longos. Aquando da saída de Mariano Gago de ministro tivemos uma situação especialmente difícil, passando pela ameaça de extinção ou, no mínimo, da perda dos recursos humanos especializados que tínhamos conseguido reunir. Conseguimos sobreviver porque, na avaliação das Unidades de Investigação, não havia nada a apontar, nem em termos de qualidade científica, nem de capacidade de gestão. Financeiramente conseguimos então sobreviver sem despedir pessoal científico graças a Fundos Regionais (da CCDRC), graças à aprovação de um projeto (feito numa semana – houve quem não acreditasse que conseguiríamos!). Esse projeto, que salvou a equipa do LIP em Coimbra, foi Rad4Life – acrónimo de Radiation for Life. Ativo entre julho de 2013 e setembro de 2015, este projeto financiado pelo QREN, e submetido conjuntamente com a Universidade de Coimbra (UC), significou para o LIP um encaixe financeiro de cerca de meio milhão de Euros, usado substancialmente (pelo LIP como pela UC) para pagamento dos recursos humanos envolvidos em atividades de desenvolvimento de tecnologias para aplicação de radiações ionizantes à saúde (nomeadamente instrumentação diversa de deteção de radiações).
O CERN mais do que compreensivo, em momentos de crise, foi proativo e, por mais do que uma vez, pressionou a tutela, diretamente ou através do ECFA (European Committee for Future Accelerators), para que nos fossem garantidas condições de trabalho. O CERN não é uma fonte de financiamento, mas muitas vezes ignoraram os nossos atrasos no pagamento de contribuições para as experiências, com o simples compromisso de pagarmos mais tarde.
CA – Identificavam o LIP com o Mariano Gago, personalidade que muitos apreciavam, mas de quem outros tantos não gostavam e ignoravam todo o trabalho coletivo que estava por detrás.
Um dos objetivos do CERN é a partilha de conhecimento, há mesmo um Grupo Internacional de Comunicação ao Grande Público sobre a Física de Partículas. O LIP quando foi criado também participava deste objetivo, de que forma?
CA – Mariano Gago era amigo de Michel Crozon, francês que trabalhava no CERN, muito ligado à divulgação da física das partículas, que tinha montado a “Aix-pop”, uma feira dedicada às partículas, quando em 1973 a Conferencia Internacional de Partículas teve lugar em Aix-en-Provence. No CERN existia a exposição Microcosmos para explicar ao grande público visitante o que eram as partículas, os detetores e os aceleradores. Por isso, quando em 1981 decorreu, na Gulbenkian, a International Conference on High Energy Physics, é natural que Mariano Gago se lembrasse de juntar à conferência um evento público, convidando o CERN a trazer a Lisboa a sua exposição itinerante e acrescentando-lhe uma parte nacional. Como Portugal ainda não era membro do CERN, a vinda do CERN só foi possível com o empenho pessoal de Mariano Gago e do Professor Policarpo. Na Exposição “De que são feitas as coisas” houve uma grande colaboração dos nossos colegas físicos, que estiveram lá todos, e do grupo embrionário da Física de Partículas. A exposição itinerante do CERN, com forte impacto visual, grandes fotografias e uma estrutura quase à escala de um detetor real, foi instalada no pavilhão central do IST, com um painel de grandes dimensões na entrada – coisa enorme, nunca vista por cá – e todas as fotos e maquetes do CERN, no R/C. No salão nobre, no 1º andar, montámos a exposição “De que são feitas as coisas” desde a Antiguidade, o que era o átomo, os telescópios, as lunetas e, depois, a Física Atómica, a Física Nuclear, até à Física das Partículas e outros conceitos. Ainda não tínhamos aderido ao CERN, mas esta era a Filosofia do CERN – explicar ao grande público o interesse da pesquisa neste domínio do Conhecimento, dar às pessoas meios para as habilitar a perceber porque é gasto tanto dinheiro, em experiências tão caras. Era essa a política dos franceses, dos ingleses e dos alemães. A Europa tinha já esta prática – sempre que fizeram grandes investimentos em Ciência, criaram-se museus interativos para divulgar a ciência e nós, em 1981, também fizemos isso. Eu fui convidada por Mariano Gago para coordenar com ele a exposição. Ele, como tinha estado fora do país desde 1971, conhecia pouco o terreno, mas sabia que eu já tinha feito “umas coisas”. Desta vez, aderiram colegas, experimentais e teóricos, de Lisboa, Coimbra e Porto, Associações de Astrónomos, etc. Foi um acontecimento marcante, houve muito entusiasmo a montar aquilo e esteve durante um mês no IST.
Portugal, enquanto membro do CERN, criou o LIP e passou a participar em experiências. Qual consideram que foi a mais importante?
CA – Não se fazia a seguinte sem a anterior. A resposta óbvia é: as mais atuais, i.e., as experiências no detetor CMS (Compact Muon Solenoid) e em ATLAS (A Toroidal LHC ApparatuS), duas experiências do LHC (Large Hadron Collider), em que Portugal participou ativamente. Foram estas as experiências que descobriram em 2012 o Bosão de Higgs, partícula fundamental que explica a origem da massa das partículas. Nunca chegaríamos a estas descobertas sem todas as anteriores. O mesmo se passa com os aceleradores, cuja evolução determina a importância das experiências. Eu comecei no Super Proton Synchroton (SPS), o Rui Marques usou feixes do LEAR (Low Energy Antiproton Ring), depois o SPS foi ampliado para o LEP (Large Electron-Positron Collider) que antecedeu o LHC. E os portugueses participaram nesta evolução em sucessivas experiências que contribuíram para o que existe hoje. Tem sido um grande mérito do CERN não desperdiçar nada, contribuir com todo este conhecimento acumulado para a progressão dos conhecimentos de física e de engenharia.
RM – Para o Grupo de Coimbra foi essencial aquela primeira experiência CP-LEAR/PS195, de que já falei, porque aí formámos quatro doutores. Isso mudou o alcance da nossa ação, pois eles participaram depois em sucessivos desenvolvimentos: um começou nessa experiência, passou depois por LEP, e está em ATLAS, no LHC; outro passou pelo DESY, em Hamburgo, e esteve também depois em ATLAS; um terceiro passou por experiências de astro partículas. O trabalho desenvolvido em áreas muito diversas, inclusive em domínios de Instrumentação, permitiu-nos aumentar as capacidades e desenvolver instrumentos em diversas tecnologias, quer nos detetores em fase condensada, quer nos detetores gasosos ultrarrápidos e nos detetores de precisão. Estes permitiram, p. ex., desenvolver o protótipo que está em testes no ICNAS, aqui na Universidade de Coimbra, um aparelho de PET para imagiologia de animais de pequenas dimensões e que pode ser usado para imagiologia cerebral, com um poder de resolução que excede o dos scanners convencionais. Embora melhor do que tudo o que existe no mercado neste momento, não quer dizer que possa ser replicado e usado em meio hospitalar, mas é tecnologia de ponta que está desenvolvida e pode ser explorada. Ora nada disto seria possível sem todo o percurso e todas os pequenos avanços que foram sendo feitos. Por isso, não posso destacar uma experiência, pois todas foram importantes.
Da leitura dos relatórios de atividades dos primeiros anos do LIP, inferi que em Lisboa a investigação era mais dedicada à área da Computação e da Eletrónica Rápida – análise e processamento de dados, software de aquisição de dados e desenvolvimento de software de microprocessadores, enquanto Coimbra tinha oficinas mecânicas de precisão e laboratório de detetores. Foi assim?
RM – A Oficina Mecânica permitiu-nos participar numa série de atividades. Construímos logo equipamentos para a tal experiência CP-LEAR, que eram feitos aqui e enviados para o CERN várias vezes por semana. Durante mais de um ano isto aconteceu assim. Produzíamos as peças aqui e eram logo despachadas para Genebra, à medida que no CERN estavam a fazer a montagem da experiência. Não podia haver atrasos – era quase uma campanha militar. Mais tarde, produzimos também equipamento para experiências em que o LIP esteve envolvido no DESY (Deutsches Elektronen-Synchrotron), em Hamburgo, e no GSI (Helmholtzzentrum für Schwerionenforschung), em Darmstadt. Neste caso os detetores, cuja mecânica foi concebida por colegas do IPL (Instituto Politécnico de Leiria) e executada numa empresa da Marinha Grande, foram montados e testados em Coimbra e depois transferidos e usados na experiência HADES, deverão ser instalados no futuro acelerador FAIR (Facility for Antiproton and Ion Research), em fase de instalação.
Qual foi a importância do LIP na ligação entre a Academia e a indústria portuguesa na partilha de conhecimento científico?
RM – Muitas vezes, noutros domínios, nós tínhamos soluções que só não foram para o mercado porque do lado da indústria – e são grandes empresas internacionais – há um investimento feito e uma tecnologia estabelecida e é nisso que as empresas querem apostar. Inovar usando novas tecnologias, sim, mas só quando houver a demonstração de que tudo funciona. Há 20 ou 30 anos debatemo-nos com a dificuldade de encontrar investimento para adiantar a tecnologia, mas, simplesmente, não havia interesse: as soluções existiam no laboratório, mas não havia interesse da indústria sem garantia do lucro. Veja-se o exemplo do Professor João Veloso, da Universidade de Aveiro, que lançou uma spin-off, inicialmente uma coisa pequena a tentar afirmar-se no mercado a partir de um nicho de mercado, porque coisas grandes têm sempre uma barreira enorme.
CA – Nos anos oitenta, no domínio dos detetores com fibras óticas, poucos sabiam o que isso era. A Professora Amélia Maio, em colaboração com a Oficina de Coimbra, fez vários protótipos a que foi acrescentando fibra ótica, fornecida por uma empresa francesa. Os calorímetros, detetores em que ela trabalhou, exigiam milhares e milhares de fibras óticas para cobrir todo o detetor, sendo necessário desenvolver toda uma robotização, num tempo em que ainda se falava pouco de robots. Este tipo de detetor está agora a ser usado na experiência ATLAS do LHC.
A génese da criação do LIP remonta ao início da década de 70, com os contactos estabelecidos pelo Ministro da Educação, Professor Veiga Simão, que formalizou contactos com o CERN. O que sabem sobre isto?
CA – O pontapé de saída foi sem dúvida do Professor Veiga Simão, mas já nessa altura o Professor Policarpo e Mariano Gago estiveram de certo modo implicados. Veiga Simão, que era Físico Nuclear, também começou por formar pessoas em física das partículas e, em 1968, incentivou a Adelaide Brandão a pedir uma bolsa para França; também Mariano Gago, através do Professor Abreu Faro, foi em 1971 para França fazer o doutoramento. Em janeiro de 1971, quando Veiga Simão era Ministro da Educação Nacional, os professores Moreira Araújo, Armando Policarpo, João Providência, Nabais Conde, Bragança Gil (todos Físicos Nucleares), Gomes Ferreira e Lídia Salgueiro (da Física Atómica), foram chamados ao seu gabinete, para avaliar o interesse deles em iniciar pesquisa em física de partículas. Eles queriam consolidar a Física Nuclear, estávamos na cauda da Europa porque não tínhamos nenhum acelerador para além do Van der Graaff instalado no LFEN. Era preciso dinheiro para isto e, se fossemos para o CERN, não havia dinheiro para tudo, não era o momento para dispersar os meios financeiros. Se tivesse conseguido continuar ministro (estava na mira do abate pela ala direita da Assembleia Nacional) e não tivesse acontecido o 25 de abril, a motivação de Veiga Simão, mesmo no regime fechado da ditadura, teria provavelmente conseguido a adesão ao CERN.
Os professores Armando Policarpo e Nabais Conde foram mandados ao CERN, em março desse ano de 1971, para contactos preliminares. O Professor João Providência seria mais tarde escolhido, por Veiga Simão, para diretor do Instituto de Física Nuclear e de Física de Partículas, enquanto este existiu (maio de 1973 a meados de 1975). O ministro foi buscar os seus colegas de Coimbra para o ajudarem.
RM – Não esquecer que, dentro da comunidade científica, havia muita gente que se manifestava contra a adesão ao CERN, a Sociedade Portuguesa de Física manifestou-se contra. Todos os professores referidos pela Professora Conceição foram Físicos Nucleares por causa da necessidade de ter gente formada nesta área, a partir do momento em que foi criada a Junta de Energia Nacional (JEN). Os professores Policarpo e Nabais Conde são bons exemplos e, depois de regressarem do doutoramento, já com a JEN em queda, dedicaram-se ao que tinham aprendido sobre detetores de radiação e conseguiram, ainda nos anos sessenta, ver os seus trabalhos em detetores de cintilação proporcional reconhecidos internacionalmente. João J. Pedroso Lima, por sua vez, dedicou-se à Medicina Nuclear. Viria a ser o primeiro catedrático de Medicina não médico, abrindo o caminho para o que é hoje o ICNAS.
Apesar de Portugal ter uma Junta de Energia Nuclear, esta não fez o mesmo que as suas congéneres europeias que desenvolveram investigação nuclear e dos raios cósmicos, que precedeu a pesquisa em Física de Partículas com aceleradores. Foi assim?
CA – Sacavém era uma estrutura diferente e à parte. Tinha um militar à frente, o General Kaúlza de Arriaga. Não cumpriu o seu programa – o projeto de energia nuclear comercial – o que foi uma pena. O reator de Almaraz poderia ter sido construído do lado de cá da fronteira… Nos próximos tempos talvez nos venha a fazer falta essa tecnologia.
Um dos problemas da Junta de Energia Nuclear (JEN) e do Centro de Estudos de Energia Nuclear (CEEN) foi terem-se desenvolvido sem articulação com as universidades. Não havia comunicação entre a JEN e a Academia. Ora era, e é, nas faculdades que estão os jovens. A JEN e o CEEN acabaram por se isolar, ainda que muitos dos professores mais atualizados da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no meu tempo de estudante, fossem do Laboratório de Física e Energia Nuclear (LFEN) de Sacavém
No fim da década de 70, os primeiros Físicos de Altas Energias em Portugal trabalhavam em Lisboa, no Instituto de Física Matemática, dependente do INIC, mas em Coimbra também já se fazia trabalho em Física de Partículas, no Centro de Física da Radiação e dos Materiais, do INIC. Qual a importância da criação do LIP?
CA – O LIP começou logo a funcionar com o estatuto, muito favorável, de instituição privada sem fins lucrativos, o que agilizava tudo. Não se perdia tempo com a burocracia das Universidades e do INIC, o que era fundamental. Apesar da desconfiança de alguns, o tempo provou que a opção foi correta. Depois, o LIP exigia aceitar o compromisso da internacionalização, por isso o ritmo de trabalho foi muito mais rápido porque tínhamos de acompanhar os tempos do CERN. Igualmente importante foi a Massa Crítica: em 1986, quando o LIP foi lançado, já tínhamos, em Coimbra e em Lisboa, experimentalistas formados em torno dos professores Policarpo e Mariano Gago.
Foi em 1987 que houve em Lisboa um encontro no Fórum Picoas, no âmbito da colaboração DELPHI, e a exposição Exploradores da matéria, Portugal e o CERN?
CA – Foi em 1987, durante a Semana DELPHI em Lisboa. Veio material do CERN, mas João Varela, o coordenador, pediu às pessoas do LIP para montar uma exposição para o público que passava pelo Fórum. O evento era uma reunião periódica da Colaboração DELPHI e no átrio montámos a maquete de DELPHI trazida do CERN, a par dessa pequena exposição.
A criação da FCCN (JNICT, INIC, LNEC, universidades portuguesas), tal como o LIP, também teve o apoio do Fundo CERN, tiveram alguma participação?
RM – As ligações internacionais de velocidade elevada são essenciais para o trabalho do LIP por causa do enorme volume de dados recolhidos nas experiências. As exigências foram crescendo ao longo do tempo e, por causa disso, o LIP formou pessoal muito competente no domínio das comunicações, que veio a dar grande apoio às atividades e aos serviços prestados pela FCCN. Foi o Professor Gaspar Barreira que, enquanto pôde, sempre coordenou esses contactos. Foi, aliás, pessoa influente na política nacional e europeia das redes de dados e da computação distribuída, tendo estado ligado à criação da INCD (Infraestrutura Nacional de Computação Distribuída) em 2016.
Para terminar, o que diriam numa frase sobre o LIP?
CA – O LIP consolidou a pesquisa científica e tecnológica no domínio da Física Experimental de Partículas, e deve até orgulhar-se dos spin-offs que foram surgindo ao longo destes 40 anos; mas o mais interessante é estar hoje preparado para continuar esta missão com os seus cerca de 200 membros, metade dos quais são doutorados.
RM – Preparar o caminho para a geração seguinte deve permanecer como lema do laboratório.
Rosália Dias Lourenço
Arquivo de Ciência e Tecnologia da Fundação para a Ciência e a Tecnologia
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