Mário Ruivo

 

Fotografia de Mário RuivoSecretário de Estado das Pescas (1974-1975).

Ministro dos Negócios Estrangeiros (1975).

Conselheiro Científico da EXPO’98.

Presidente do CNADS (1997-2017).


Mário João de Oliveira Ruivo nasceu em Campo Maior, a 3 de março de 1927, e faleceu em Lisboa, a 25 de janeiro de 2017. Cientista do mar e cidadão comprometido com a defesa de causas públicas, foi pioneiro na defesa dos oceanos e do ambiente em Portugal.  Ao longo da sua vida de biólogo marinho trabalhou em Portugal e na Europa.

Dedicou-se à investigação científica dos recursos vivos do mar assim que concluiu a licenciatura em Biologia, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em 1950. Começou por trabalhar no Instituto de Biologia Marinha (IBM) dedicando-se ao estudo da biologia da sardinha nas águas portuguesas, o resultado desse trabalho foi publicado no artigo “Sobre as populações e migrações da sardinha da costa portuguesa”, que terá contribuído para potenciar novos processos na gestão deste importante recurso.

Entretanto especializou-se em Oceanografia Biológica e Gestão de Recursos Vivos na Universidade de Paris – Sorbonne, entre 1951 e 1954, mas continuou o seu trabalho em Portugal de investigação na área das pescas. A partir de 1954 passou a ir todos os anos com os bacalhoeiros à Terra Nova, à Gronelândia ou ao Círculo Polar Ártico.

Em 1956 participou na campanha Luso-Francesa de investigação em águas profundas portuguesas no Batiscafo-F.N.R.S.III, submersível francês de investigação oceanográfica e levantamentos técnico-científicos para o estudo da biodiversidade e avaliação de recursos não vivos do fundo do mar. Estas observações e colheitas com dragas a 2 200 metros de profundidade ao largo do Cabo da Roca, Sesimbra e zonas centro e sul da costa portuguesa possibilitaram a identificação de comunidades bentónicas (organismos que vivem no substrato de ambientes aquáticos), em grande parte desconhecidas nas águas portuguesas, mas também de espécies novas para a ciência.

Em 1957 integrou e assumiu a organização prática da campanha científica do N.R.P. “Faial”, nas águas portuguesas. Este navio, um arrastão armado da Royal Navy Britânica, um de vários colocados ao serviço de Portugal na II Guerra Mundial, no âmbito da cedência de facilidades nos Açores aos Aliados, foi comprado por Portugal, em 1946, e usado como navio hidrográfico em missões de investigação nas águas de Portugal Continental, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Angola.

Era subdiretor do Instituto de Biologia Marítima quando, em finais da década de 50, foi obrigado a abandonar o país por correr risco de ser preso devido à sua atividade política. Militante do Partido Comunista Português desde os tempos de liceu, em Évora, nunca abandonou a atividade política clandestina nem a luta pela liberdade e pela democracia – foi dirigente académico do MUD e chegou a integrar o conselho editorial da Revista Seara Nova.

Partiu, em 1961, para Itália, onde trabalhou na FAO – Food and Agriculture Organization (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), em Roma, no Departamento de Pescas, no qual foi Diretor da Divisão de Recursos e Ambiente Aquático. Neste cargo promoveu várias iniciativas, uma das quais foi a organização, em 1972, da 1ª. Conferência sobre Poluição do Meio Marinho. Em 1972, participou na Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente Humano, em Estocolmo.

O professor biólogo, de regresso a Portugal em 1974, foi secretário de estado das Pescas nos 2º, 3º e 4º Governos Provisórios e ministro dos Negócios Estrangeiros no 5º Governo Provisório. Neste e nos anos subsequentes dinamizou a criação e instalação do Instituto Nacional de Investigação das Pescas, foi diretor-geral dos Recursos Aquáticos e Ambiente do Ministério da Agricultura e Pescas de 1975 a 1979; chefe da delegação portuguesa à Conferência das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1974 a 1978; presidente da Comissão Nacional da FAO de 1974 a 1980; diretor-geral da Investigação e da Proteção dos Recursos do Meio Aquático. Em 1980, foi eleito secretário da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, funções que exerceu até 1989, ano em que regressou de novo a Portugal. Foi membro do Conselho Coordenador da Comissão Nacional da UNESCO, de 1989 a 1995, e membro do Conselho Consultivo da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica de 1986 a 1995.

Entre 1996 e 1997, no Ministério da Ciência e da Tecnologia, coordenou a avaliação das Unidades de Investigação em Ciências do Mar; no Ministério do Equipamento, do Planeamento e da Administração do Território, foi presidente da Comissão de Avaliação e Controlo Independente – Projeto COMBO; além de membro da Comissão de Acompanhamento dos Laboratórios do Estado (Instituto de Investigação das Pescas e do Mar – IPIMAR e Instituto Hidrográfico – IH).

Na JNICT e na FCT foi responsável pelo painel de Ciências do Mar do Praxis XXI (subprograma do Programa Bases do Conhecimento e da Inovação do 2º Quadro Comunitário de Apoio), que vigorou entre 1994 e 1999.

Foi conselheiro científico da EXPO’98 “Os Oceanos – Um Património para o Futuro” e oordenador e membro da Comissão Mundial Independente para os Oceanos (CMIO – IMCO), constituída por quarenta e dois especialistas de renome mundial, presidida por Mário Soares, da qual resultou o relatório “O Oceano Nosso Futuro”, traduzido em várias línguas. Foi neste contexto aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas a proposta de Portugal de 1998  ser o Ano Internacional dos Oceanos. Dos trabalhos da CMIO resultou também a designação, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, do dia 8 de junho como Dia Mundial dos Oceanos.

Entretanto foi coordenador da equipa de missão para o Programa Dinamizador em Ciências e Tecnologia do Mar, de 1998 a 2000, e do respetivo painel de avaliação entre 1999 e 2000, que promoveu a interdisciplinaridade entre as diferentes ciências do mar e a ligação destas às tecnologias. Com o intuito de fomentar uma exploração racional e sustentável dos recursos oceânicos, difundida na sociedade da informação, sobre os resultados da investigação em mar, fundou o European Marine Board e o EuroOcean (Associação Europeia da Ciência e Tecnologia do Mar), cuja sede se situa em Lisboa, e da qual foi vice-presidente.

Foi, desde 1997, o primeiro presidente do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CNADS), órgão de exigência científica, convergência multidisciplinar e capacidade singular de acompanhamento crítico das iniciativas públicas e privadas, com impacte no ambiente e no território, funções que exerceu até ao fim da vida, em 2017.

Entre outros cargos relevantes, também foi membro da Direção do Centro Nacional de Cultura, membro da Sociedade de Geografia de Lisboa e membro vitalício do Conselho Geral da Fundação Mário Soares.

Além de numerosas publicações científicas no campo da oceanografia biológica e gestão dos recursos vivos marinhos, foi autor de estudos, ensaios e artigos sobre política e gestão dos oceanos; ciência, sociedade e ética; e participação institucional da cooperação internacional em assuntos do mar e ambiente.

Em 2015 coordenou o livro Do mar oceano ao mar português (edições CTT/CNC), uma obra de divulgação da Ciência à sociedade, de defesa da literacia científica e da mobilização dos cidadãos para os assuntos do mar, além da sensibilização pública da necessidade de uma governação sustentável e responsável do Oceano.

Mário Ruivo foi frequentemente distinguido e agraciado. O primeiro prémio que recebeu foi-lhe atribuído pela Fundação da Casa de Bragança, em 1951, Prémio D. Carlos I, pelos estudos que realizou sobre biologia da sardinha.

Recebeu a Insígnia Autonómica de Reconhecimento, atribuída pelo Governo dos Açores e pela Assembleia Legislativa Regional, pelo seu trabalho de apoio e reconhecimento da relevância do mar dos Açores no contexto atlântico.

Em 2010 recebeu, da Universidade dos Açores, o grau de Doutor Honoris Causa em Ciências do Mar e em 2016 a mesma distinção da Universidade do Algarve.

A 4 de Setembro de 2015, foi-lhe atribuído o Prémio Cidadão Europeu 2015, uma distinção que reconhece pessoas ou organizações que promovem o entendimento e a integração dos cidadãos na União Europeia e a cooperação entre países. Mário Ruivo foi distinguido pelo trajeto pessoal, académico e profissional, com relevância para o fortalecimento dos ideais europeus e das instituições, nomeadamente na candidatura de Lisboa a sede da Agência Europeia de Segurança Marítima e na coordenação da Comissão Mundial Independente dos Oceanos.

Entre outras distinções e prémios recebeu as ordens honoríficas de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada, Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e a Medalha da Cruz Naval de 1ª Classe (Portugal). De ordens estrangeiras recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (Brasil), Cavaleiro da Legião de Honra, França, e Grande-Oficial da Ordem do Mérito de Malta. Recebeu também a Medalha de Ouro da Foundation for International Studies (2016) e a Medalha de Mérito Municipal Dourada da Câmara Municipal de Campo Maior (2010).

À data do seu falecimento, em 2017, era presidente da Comissão Oceanográfica Intersectorial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, presidente do Fórum Permanente para os Assuntos do Mar e presidente do Conselho Científico das Ciências do Mar e do Ambiente, da FCT.

 


 

Webgrafia consultada:
Centro Nacional de Cultura. (2021, março 3). Mário Ruivo faria 94 anos
Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável. (2010). Historial.
EEAGrants Portugal (S.d.) Novos equipamentos de mapeamento do funfo marinho e coluna de água: Mário Ruivo [Recuperado a 28 de outubro de 2021].
Gonçalves, M.E. ( 2017, junho 3). Mario_Ruivo
Inácio, A. (2017, janeiro 25). Morreu o biólogo Mário Rui. Jornal de Notícias
Matos, J; Guerreiro, J. & Abreu, A.D. (S.D).Tributos a Mário Ruivo: um biólogo e um português de exceção. Ordem dos Biólogos [Recuperado a 28 de outubro de 2021].
Pato, H. (2018, dezembro 9). Mário Ruivo. Jornal Tornado Online
Wikipédia, a enciclopédia livre. (2021, janeiro 28). Mário Ruivo

 

 

novembro de 2021