Joaquim Alberto da Cruz e Silva

Presidente do INIC entre outubro 1978 e novembro de 1979.


Gestor público de ciência, especialista em parasitologia, Joaquim Alberto da Cruz e Silva (Donas, Freguesia de Tortosendo, Covilhã, 14 de julho de 1934) estudou no Liceu do Fundão, licenciando-se em Medicina Veterinária pela Universidade Técnica de Lisboa, em 1957.

Investigador estagiário no Centro de Zoologia da Junta de Investigações do Ultramar, Cruz e Silva ingressa pouco depois, em 1964, nos quadros desta Junta como parasitologista. Estuda as coleções de vermes helmintes (parasitas) reunidas por João Tendeiro e outros, viaja a Moçambique e a África do Sul, em 1965. Interessa-se igualmente pela problemática da investigação científica e do desenvolvimento que aborda em «Investigação científica e ensino superior no espaço português», conferência realizada na «Sociedade de Estudos de Moçambique», em 21 de setembro de 1966. Participa no «I Simpósio sobre Angola» realizado em Lisboa, entre 1 e 7 de março de 1967, onde apresenta a comunicação «A investigação científica no âmbito da parasitologia como factor do desenvolvimento económico de Angola», em resultado das investigações e do trabalho de campo que realiza neste Estado, então província ultramarina, ao serviço do JICU.

Parte para Paris, em 1969, com uma bolsa do Instituto de Alta Cultura, para estudar com Alain Chabaud, no Laboratoire des vers (laboratório de vermes) do Muséum National d’Histoire Naturelle. Em Moçambique, publica o estudo «Acerca de um caso mortal de gastrenterite parasitária por nematoides num elefante indiano» (1969) aprofunda ainda os estudos sobre Helmintes, tema que vem a constituir a sua dissertação de doutoramento publicada sob o título «Contribuição para o estudo dos Helmintas parasitas vertebrados de Moçambique» e apresentada à Escola Superior de Medicina Veterinária, em 1971. Entretanto, em 1970, realizara nova missão a Cabo Verde para estudar a fasciolose dos bovinos. Continua a desenvolver trabalho sobre parasitologia, desta vez, em Timor e mais tarde na Guiné. Resultados desses trabalhos surgem plasmados em artigos que publica na «Garcia de Orta», revista do IICT, na especialidade de zoologia: «Estudos de parasitologia em Moçambique» (1971), «Estudo de parasitologia em Cabo Verde» (1974), «Helmintoses dos animais domésticos de Timor e suas possíveis incidências em patologia humana» (1977).

Em 1973, realiza provas de concurso para o cargo de Professor Extraordinário da Escola Superior de Medicina Veterinária de Lisboa, iniciando funções em junho de 1974 como regente da cadeira de Parasitologia. Nessa qualidade, coordena um projeto de investigação apoiado pelo Instituto de Alta Cultura (mais tarde pelo INIC) e realiza um estágio na Universidade de Lille em Imunologia parasitária. Cruz e Silva foi membro da Comissão Diretiva do Centro de Parasitologia das Universidades de Lisboa, homologado em 1975 como centro de investigação de parasitoses humanas e animais, integrado na rede do INIC. Foi nessa medida responsável pela «Linha de Ação nº 1» com o projeto de estudo epidemiológico de parasitoses animais com incidência económica em Portugal, tendo conduzido investigações sobre helmintoses e patologias helmintológicas em Portugal.

Cruz e Silva foi igualmente Secretário de Estado do Ensino Superior no I Governo Constitucional, entre 23 de julho de 1976 e 22 de janeiro de 1978, sendo reconduzido no mesmo cargo entre 23 de janeiro e 29 de agosto de 1978, já no contexto do II Governo Constitucional. Após esta experiência governativa, em outubro do mesmo ano, Cruz e Silva sucede a Miller Guerra na presidência do INIC, no seguimento da demissão deste último. Com Maria de Lourdes Belchior Pontes, João Sousa e António Xavier, integra a «Missão portuguesa a França para estudo da organização científica francesa e dos domínios de intercâmbio e cooperação a estabelecer entre os dois países», realizada em março de 1979, ao abrigo do Acordo Franco-Português de Cooperação Cultural Científica e Técnica.

Cruz e Silva viria a conduzir os destinos do INIC num ambiente cultural e político adverso, com entendimentos divergentes sobre o que deveriam ser as políticas de investigação científica para Portugal, dentro e fora das universidades. Tal como o seu antecessor, Cruz e Silva exerceria o cargo de presidente do INIC por escasso tempo, terminando o seu mandato pouco mais de um ano volvido sobre a sua nomeação. Foi exonerado – bem como César Viana, então vice-presidente – em 27 de novembro de 1979.

Em 1980, Joaquim Cruz e Silva regressa à Junta de Investigações Científicas do Ultramar (JICU), em cujo Centro de Zoologia investigara, permanecendo à frente do organismo que, entretanto, e depois de um brevíssimo período como Laboratório Nacional de Investigação Científica Tropical (1979), ficaria definitivamente consignado como Instituto de Investigação Científica Tropical (Decreto-Lei n.º 105/82, DR, Série I de 8 de agosto de 1982). Em 1983, participa no «Colóquio Tróia – Realidades e perspectivas da Investigação Científica no Ensino Superior», organizado pelo INIC e pela Secretaria de Estado do Ensino Superior.

Professor catedrático, aposentado em 2003, Joaquim Alberto da Cruz e Silva foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, em 1986, elevado a Grã-Cruz da mesma Ordem, em 2004.

 

Fontes:

Ofício de Joaquim Alberto da Cruz e Silva ao presidente do Instituto de Alta Cultura com data de 30 de dezembro de 1975, in ACT, Fundo INIC, processo nº 15825 (Centro de Parasitologia das Universidades de Lisboa), volume nº 1, cota ACT: 010836/937.

Carta de Joaquim Alberto Cruz e Silva a Fernando Dias Agudo com data de 28 de novembro de 1979 in ACT, Fundo de Fernando Roldão Dias Agudo, «Atividades dos Conselhos Consultivos e reestruturação do INIC», código de referência PT/FCT/FRDA/001/39, disponível em:

https://arquivo.fct.pt/viewer?id=89388&FileID=2128

Joaquim Alberto Cruz e Silva (1980): «Nota prévia», in «Relatório de Actividades do Instituto Nacional de Investigação Científica – ano de 1979»; Lisboa, Ministério da Educação.

Sa., «Polémica em torno da demissão de Cruz e Silva tem caracter político»; jornal Expresso de 22 de novembro de 1979; in ACT, Fundo de Fernando Roldão Dias Agudo, «Atividades dos Conselhos Consultivos e reestruturação do INIC», Código de referência cit. Disponível em:

https://arquivo.fct.pt/viewer?id=89388&FileID=2134

Benjamim Formigo e José Mendes Mourão: «”Redactor incauto” do Expresso responde a Cruz e Silva… e o ex-secretário de Estado da Ciência também», artigos de opinião publicados no Expresso de 12 de janeiro de 1980; in ACT, Fundo de Fernando Roldão Dias Agudo, «Atividades dos Conselhos Consultivos e reestruturação do INIC», código de referência cit. Disponível em:

https://arquivo.fct.pt/viewer?id=89388&FileID=1994

Sa., «Nomeada nova direcção para o Instituto Nacional de Investigação Científica», recorte do jornal Expresso de 30 de novembro de 1979; in ACT, Fundo de Fernando Roldão Dias Agudo, «Atividades dos Conselhos Consultivos e reestruturação do INIC», código de referência cit. Disponível em:

https://arquivo.fct.pt/viewer?id=89388&FileID=2124

Joaquim Alberto da Cruz e Silva (1991), «O Instituto de Investigação Científica Tropical – Balanço e Perspectivas da sua acção», in Colóquio Ciências, Revista de Cultura Científica, ano 3, nº 9, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.

va (2010), «Joaquim Alberto da Cruz e Silva (Depoimento, 2010)», entrevista conduzida por Cláudia Castelo; Lisboa, IICT, 2011. Transcrição disponível em:

https://actd.iict.pt/view/actd:MOJACS

Dezembro de 2018