30 anos da «Semana de C&T para a Juventude»

 

«Uma pessoa aprende mais a ver como as coisas são e a praticá-las do que só a ouvir falar delas»[1]

Há 30 anos foram dados os primeiros passos para a consolidação de uma política nacional de educação para a ciência, com a realização da primeira Semana de Ciência e Tecnologia para a Juventude, iniciativa conjunta das Secretarias de Estado da Juventude e da Investigação Científica, com a JNICT, Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, o Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis (FAOJ), a Associação Juvenil de Ciência (AJC) e a Associação de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento, ACTD[2].

Primeiro evento de uma série que visava estabelecer as bases de uma política de divulgação e educação científica fora de Lisboa e Porto, a primeira Semana decorreu em Setúbal, entre 23 e 31 de maio de 1987, com o patrocínio da Câmara Municipal, organizada no seguimento das «Jornadas Nacionais de Investigação Científica e Tecnológica», realizadas em Lisboa, entre 11 e 15 do mesmo mês. A primeira Semana de C&T para a Juventude propunha-se dar continuidade à tarefa de edificar uma rede de educação para a C&T, com os fins de «sensibilizar os jovens para o papel da ciência e tecnologia como motores do desenvolvimento (…)», «estimular nos jovens o gosto pela prática de investigação científica e pela aplicação das inovações aos vários aspetos da vida quotidiana», «fomentar o associativismo juvenil na área de ciência e tecnologia», «promover ações de cultura científica que beneficiem o grande público», nos termos do físico e catedrático do Instituto Superior Técnico, Jorge Dias de Deus, presidente da ACTD, principal organizadora do evento[3].

No mesmo artigo, Jorge Dias de Deus manifestara a urgência de a sociedade portuguesa reatar os laços com a ciência e a tecnologia lembrando o que acontecera no período do humanismo renascentista: «Em Portugal houve uma florescente tradição humanista, científica e técnica, ligada aos descobrimentos que depois se perdeu. Hoje (…), torna-se importante reencontrar esse fio da cultura científica e técnica, ganhar confiança e criar C&T de qualidade em Portugal».

Educar para a ciência surgia pois como imperativo necessário: somente socializando a ciência e a tecnologia, alargando a esfera da sua receção e conhecimento públicos, formando novas gerações de cientistas e tecnólogos em setores onde Portugal era largamente deficitário, seria o país capaz de responder aos desafios do futuro…donde a aliança recomendada e desde logo posta em marcha entre organismos públicos de Ciência e Tecnologia e de Juventude, e associações que resultavam de iniciativas cidadãs, o que aconteceu com a mobilização da recém-fundada Associação Juvenil de Ciência[4] a par da ACTD, sua congénere.

O alinhamento de uma estratégia de desenvolvimento nacional na convergência da educação para a juventude e da ciência, ganhara impulso, naquela conjuntura, pela necessidade de garantir a competitividade de Portugal no novo quadro de governação europeu e tornou determinante o investimento em programas que pudessem acelerar a qualificação dos recursos humanos que representavam os jovens[5]. Portugal era então considerado um país novo, em que cerca de 48% da sua população tinha menos de 30 anos de idade, situação que igualmente justificara a criação, em 1985, de uma Secretaria de Estado da Juventude – sob a direção de António Couto dos Santos – parceira e promotora destas Semanas.

As Semanas de C&T para a Juventude nasceram assim com o propósito de valorizar o capital humano dos jovens e estimular a formação em Ciência e Tecnologia. A opção por um modelo itinerante, preferencialmente fora dos circuitos de Lisboa e Porto[6], visava alargar a todo o território nacional as possibilidades oferecidas de participação e experimentação em C&T, sendo cada Semana acolhida numa capital de distrito diferente. Depois de Setúbal, seria a vez de Portalegre, Faro, Évora, Porto, Castelo Branco. A grande festa da Ciência percorreria as diversas regiões do país, atraindo a visita de escolas, famílias, público em geral, através de mostras documentais e exposições, projeção de filmes científicos, colóquios, visitas guiadas temáticas, jogos, experiências controladas e manejo de equipamentos técnicos especializados – uma montra de novidades e de criatividade que na sua primeira edição atraiu, segundo Jorge Dias de Deus, «uma média de 10.000 visitantes por Semana»[7].

Sob a coordenação de Maria da Conceição Abreu, pela ACTD, as Semanas contaram desde logo com o estímulo e o apoio financeiro da JNICT, através do seu presidente José Mariano Gago. Envolveram centenas de colaboradores, cientistas, laboratórios e unidades de investigação nacionais, entidades públicas e privadas, em torno de seis domínios transversais: «A ciência e a saúde», «energias», «bio-tecnologias», «robots e inteligência artificial», «nós, a terra e o mar», «do infinitamente grande ao infinitamente pequeno».

Em 1992, o interesse pelas experiências das Semanas levou à celebração de um protocolo entre a ACTD e o Ministério do Planeamento e da Administração do Território tendo em vista assegurar a continuidade da iniciativa[8]. A socialização da ciência tem pois a sua história contemporânea de 30 anos, como acabámos de ver. Com as «Semanas de C&T para a juventude», a educação para as ciências acelerou-se irremediavelmente, lançando sementes duradouras. Elas antecederam e prepararam o terreno para a criação de uma rede permanente de educação para a ciência, a Ciência Viva, em 1996.

 

AFC/ACT dezembro, 2017

Bibliografia (disponível para consulta na Biblioteca da FCT):

Abreu, Maria da Conceição (coord.): Projecto de Sensibilização da Juventude para a Ciência e a Tecnologia; SEJ, SEIC, JNICT, FAOJ, ACTD, AJC, 1987.

_________ Futuro, Ciência, Novas Tecnologias, Gestão, edição especial Jovem, nº extra-série, julho de 1987. (disponível para consulta na Biblioteca da FCT)

_________ CTS Revista de Ciência Tecnologia e Sociedade; nº 3, Setembro/dezembro 1987. (disponível para consulta na Biblioteca da FCT)

 

 

 

[1] Depoimento de Fernando Vinagre, jovem visitante e ao tempo aluno de 9º ano de escolaridade, sobre a sua experiência na I Semana de Ciência e Tecnologia para a Juventude, Setúbal, 23-31 de maio de 1987. Reproduzido na revista «Futuro, Ciência, Novas Tecnologias, Gestão», edição especial Jovem, julho de 1987, p. 9.

[2] A ACTD fora fundada em 1985 como agremiação sem fins lucrativos para «promover o estudo, a discussão e divulgação da problemática e do progresso da ciência e tecnologia».

[3] In: «Projecto de sensibilização da juventude para a Ciência e a Tecnologia»; catálogo, sl., sn., publicado por ocasião da I Semana de C&T para a Juventude, maio de 1987.

[4] A AJC, Associação Juvenil de Ciência foi constituída legalmente em 16 de março de 1987 e ainda se encontra em actividade. Começou como agremiação informal de jovens interessados em ciência e tecnologia tendo estado na génese dos Encontros juvenis de ciência que tiveram uma primeira edição em 1983.

[5] Na Resolução do Conselho de Ministros n.º 12/87, publicada em março do mesmo ano, «O Governo considera que, em matéria de investigação científica e tecnológica, o esforço nacional tem sido baixo, reclamando, por isso, uma atenção muito especial. O desenvolvimento científico e tecnológico que o País exige obriga a uma inflexão profunda no modo de coordenar e planificar o crescimento que se deseja». Ver: Resolução do Conselho de Ministros n.º 12/87, Diário da República n.º 64/1987, Série I de 1987-03-18.

[6] Conforme recomendação do presidente da JNICT, ao tempo, José Mariano Gago.

[7] Relatório e pedido de subsídio de Jorge Dias de Deus à JNICT, in ACT, Processo Associação de Ciência Tecnologia e Desenvolvimento; Instituto de Protecção da Produção Agro-Alimentar; Cota: PT/FCT/JNICT/DIR/005/0008.

[8] No mesmo protocolo constituindo-se uma Comissão Coordenadora. Ver: Despacho conjunto de 13 de outubro de 1992 publicado no DR II Série nº 256. ACT: Processo FCT/JNICT/DSPP/DFACC/001/0093.